Ter um diploma te faz Bibliotecário?

Hoje me peguei re-lendo uma matéria de 2013 publicada pela BBC sobre, o que eles intitularam, a ‘geração do diploma’. No texto os entrevistados expõe um problema existente no mercado brasileiro, há muitos profissionais com curso superior entretanto estes profissionais não capazes de atender as necessidades do mercado, um dos entrevistados diz “Os empresários não querem canudo. Querem capacidade de dar respostas e de apreender coisas novas. E quando testam isso nos candidatos, rejeitam a maioria”, este trecho em especial me fez lembrar de uma conversa com um dos meus supervisores de estágio, conversa vai conversa vem ele me diz:

“Thalita, a universidade não te ensina a trabalhar em biblioteca escolar, você aprende a catalogar, classificar e indexar, mas em momento algum alguém vai te explicar como atender uma criança que chegou chorando porque derramou café no livro que ela emprestou da biblioteca”.

Alguns meses antes dessa conversa tive o prazer de assistir uma palestra da Hagar Espanha Gomes, ao final da sua fala ela vira para um auditório lotado de estudantes de graduação e pergunta “Vocês acham que tudo que aprendem dentro da graduação é necessário? Eu não vejo utilidade em fazer 3 ou 4 cadeiras de catalogação ou classificação”, rapaz, fico até nervosa de lembrar desse momento, que momento ilustre meus caros, que momento! Quantas vezes você aluno de graduação ou profissional formado pensou “nunca vou precisar disso” e anos depois percebeu que aquilo não era mesmo necessário? Quantas vezes você questionou a validade de estudar repetidas vezes que precisamos organizar a informação do mundo, mas percebeu que na prática não é possível organizar tudo? Quantas vezes você se interrogou sobre porque não trabalhamos com catalogação em rede e porque todas as iniciativas brasileiras que surgiram foram definhando aos poucos? Quantas vezes você ficou intrigado sobre porque até hoje devemos explicar para as pessoas o que um bibliotecário faz já que a Biblioteconomia nasceu, praticamente, junto com a escrita?

Compreendo a necessidade da graduação em Biblioteconomia, conforme explica Ana Virginia Pinheiro nós nascemos bibliotecários e a graduação tem o papel de nos moldar para sermos profissionais celestes, apesar de romanceada essa é a visão mais acertada que já vi sobre a função da graduação. Durante anos ouvi de professores que a graduação nos ensina a pensar como bibliotecários devem agir, a conhecer as ferramentas que temos a nossa disposição e quais os melhores caminhos que podemos trilhar para atender as necessidades dos nossos usuários, entretanto, percebo como esse discurso vai se perdendo na prática, ao termos tantas disciplinas de processamento técnico, ao fazermos estágios em instituições que valorizam o processamento técnico em detrimento de outras atividades, ao conhecermos mais e mais profissionais que trabalham majoritariamente com tarefas mecânicas, ao ouvirmos repetidamente que o futuro da profissão é o mundo digital e principalmente ao não valorizarmos todos os profissionais que realizaram trabalhos magníficos como bibliotecários e aqueles formados em Biblioteconomia que abriram asas e tiveram a coragem de se especializar em outras áreas e hoje são os bibliotecários que todos nós poderíamos ser.

(In)felizmente sou uma romântica incorrigível, por isso ainda vejo a graduação como o ponto de maior mudança na vida de quem escolhe seguir esse caminho. Lá dentro da universidade você deve aprender mais do que uma profissão, fazer mais do que alguns bons amigos, frequentar mais que algumas boas festas, lá vai ser o local onde você vai desenvolver os aspectos profissionais mais importantes da sua carreira e lá que você começa a ser tudo o que você pode ser. Compreendo as limitações pessoais que cada um dos indivíduos dentro da graduação pode ter, que nem todo mundo vai ter a mesma quantidade de tempo disponível para estudar, que ocasionalmente realizar um estágio remunerado que toma tempo ou então precisar trabalhar para sobreviver, que cargas horárias excessivas são coisas que podem impactar no processo de aprendizagem e no desenvolvimento de certas habilidades e justamente por essas limitações terem a possibilidade de existir penso que os professores de graduação deveriam estimular mais os alunos a irem além, ao entrar em sala de aula apresentar muito mais do que o conteúdo obrigatório, mas mostrar como isso funciona na prática, o porque estudar aquilo pode te ajudar depois, fazer os seus alunos vislumbrarem até que ponto eles podem chegar.

É público que a Biblioteconomia precisa mudar o que não se sabe é como realizar essa mudança, como estudante de graduação penso que a mudança tem que começar de dentro para fora, aperfeiçoar a graduação proporcionará profissionais maiores, consequentemente maior visibilidade e valorização.

Voltando a reportagem da BBC que citei lá no começo, talvez um profissional com diploma de Biblioteconomia (e CRB) não seja o que o mercado está buscando, talvez um bibliotecário consiga ajudar ele a perceber do que está precisando.