Blade Runner 2049

Assim que comecei a assistir Blade Runner 2049, percebi que é um filme para iniciados. Por ser uma continuação do filme de 1982 é importante para o entendimento do filme a lembrança das temáticas e desenrolar da historia ocorrida 30 anos antes, no filme anterior. Logo, se você não se afeiçoou ao primeiro filme, acredito que esse não vai te empolgar e claro, estamos aqui falando de publico específico, adultos ou jovens adultos que tiveram contato com a obra anterior. Mas porque digo isso?

Nos universos das distopias, tão na moda entre os adolescentes hoje em dia, Blade Runner é um contraponto. Se nas distopias adolescentes você tem um futuro em comunidade, clean e asséptico, todos trabalhando em prol da Comunidade, como em “Jogos Vorazes”, em Blade Runner 2049 não vemos a sociedade, mas apenas corporações e indivíduos inseridos num mundo sem barreiras linguísticas/ culturais, totalmente estéril e apocalíptico. A grande sensação que você tem é que o apocalipse é um continuum, ele simplesmente não aconteceu, mas está se desenrolando ao longo de muitos anos.

Aparentemente, 2049 fez referências maiores a obra de Philip K. Dick, o que deve agradar aos leitores do autor. Aqui sabemos que houve uma guerra entre Humanos versus Replicantes, um blecaute que apagou todos os dados da Terra e uma consequência nuclear, que esterilizou a mesma. Nada disso será muito desenvolvido no filme, mas são dadas as informações necessárias pra entender a história[1]

É dentro dessa atmosfera que acompanhamos a história de K, replicante que trabalha para policia de Los Angeles fazendo o mesmo trabalho que o policial Rick Deckard fazia anos antes, caçando e “aposentando” androides subversivos. O filme coloca seu primeiro questionamento no momento em que numa de suas caçadas, K se depara com um achado, uma ossada de uma replicante que deu a luz a uma criança, isso mudará não só sua individualidade, mas os rumos do planeta.

Seguindo as considerações filosóficas colocadas pelo primeiro filme, acredito que aqui vemos a inserção de outras. Pode parecer por algum momento que Blade Runner 2049 é um filme que fala sobre as tensões do que é real e falso, mas a questão que acredito que fica, se concentra entre o vivido/experienciado e o falso. Num dado momento, K se vê envolvido na trama que estava investigando e sua grande confusão é saber se a memória que ele tem é uma memória de verdade, real, mas isso assume outro sentido.

O incômodo de K não é fruto do desconhecimento se sua memória é real ou não, ele sabe que a mesma é e tem as confirmações necessárias pela personagem criadora de memórias. O que o atormenta é saber se teria ele vivido ou não aquelas situações? O atrelamento disso com a expectativa de um possível laço afetivo, que nos coloca não só dentro de uma individualidade, a memória constrói quem nós somos, mas também o localiza em relação a um outro, agora sim, real.

A questão da humanidade vem retratada no filme a partir de um grupo de replicantes que colocam seus ideais amplamente humanos no cerne da questão. Eles estão juntos pela mesma causa, em prol de uma revolução que irá mudar os parâmetros das coisas como elas deveriam ser. Logo, a consideração não se concentra mais entre ser replicante ou humano, mas nos sentimentos comuns partilhados entre vários, uma memória coletiva que une todos entorno de uma causa e de uma possibilidade de esperança de ser mais do que se é.

Num mundo dominado por artificialidade, desde do que se come até as relações, como a de K com Joi, sistema operacional em forma de holograma com quem o personagem se relaciona, a epifania do personagem frente ao imenso holograma nos alude a busca de uma vivência genuína, do tipo que só pode ser conseguido de um para um e um para muitos, o que basicamente chamamos de relações.

Para a pergunta “o que nos torna humanos?” A resposta reside entre o potencial de gerar vida e o potencial de vivência. A cena final da morte de K me leva a isso, a compreensão de que o que importa é a sua vivência e as experiências que você compartilhou. É a sensação da neve caindo nas mãos, tão simples, mas que a personagem mais humana que um replicante não podia ter.

[1] Para saber mais sobre isso sugiro a leitura do texto “Falso é verdadeiro” de Ronaldo Bressane, aonde ele faz um comparativo entre o livro “Androides sonham com Ovelhas elétricas?”, Philip K. Dick que serviu de base para o primeiro filme.

Além disso, há três curtas disponíveis pela Warner Bros no Youtube que dão conta de explicar os eventos ocorridos no espaço temporal de 30 anos. Curta 1, curta 2 e curta 3.