15 horas de feminismo

Você conhece a Mayim Bialik? Ela faz o papel de Amy, em Big Bang Theory, ficou famosa com a série adolescente Blossom. Mayin é uma atriz talentosa e, para a surpresa de muitos, é também neurocientista. Reparem que eu disse "surpresa" e existe uma série de erros aqui: quando vemos figuras públicas que tem algum tipo de relação com arte, atrizes, cantores, etc, não conseguimos conceber que esse ser humano seja habilitado, a menos que inventemos alguma forma mística, pra ter uma carreira relevante; mas, se o humano a quem nos referimos é uma mulher, essa crença parece quase impossível. E, se nem pessoas famosas — leia-se influentes — que não tomam nenhuma decisão que impacte mais do que o seu próprio ciclo social, pelo contrário, causam algum tipo de comoção positiva, estão imunes, imagina uma figura política?

Dilma compareceu segunda-feira ao julgamento do processo de impeachment como ré e, ao mesmo tempo, encarregou-se de sua própria defesa. Uma pessoa julgada, que consegue carregar em si o poder e a vontade de convencer um juri, de falar o que réu algum fala: a palavra de livre arbítrio, sem o filtro de um intermediário; Dilma foi dizer, com as próprias palavras que era inocente.

Eu nunca fui fã da figura Dilma. Sei que pra começo ela é uma figura política pouco interessante, pouco carismática, muito passional, que de tanto afã acaba comprometendo a oratória. Nunca achei que ela fosse ganhar a eleição, embora tenha votado nela nos dois mandatos.

Durante a movimentação pró-impeachment, defendi com unhas e dentes essa senhora. Por que? 
Pense na história política de uma mulher, que aos 17 anos entrou para uma militância armada contra o golpe militar; foi presa e torturada por 3 anos. Encontrou forças pra ingressar na faculdade de economia, em 1972, ano em que foi solta, e terminar a faculdade em 1977, nos exatos 5 anos de duração do curso — reflita aqui no primeiro ato heróico dessa mulher, que por 1095 dias ficou presa e foi torturada pelo menos 500 dias da sua vida, encontra forças para semanas depois ingressar numa faculdade, e por sua vez, dedicar-se o suficiente pra completar o curso no tempo estimado, tendo, no meio disso, enfrentado a gravidez da filha, Paula, que nasceu em 1975.

Seu primeiro estágio foi na Fundação de Economia e Estatística (FEE), uma empresa pública do Rio Grande do Sul. Nos anos seguintes dedicou-se à política, fundou um partido em 1982, ao lado de Brizola.

Resumindo sua carreira, Dilma ocupou cargos executivos desde então: Secretária Municipal da Fazenda no Rio Grande do Sul, Secretária Estadual de Energia, Minas e Comunicações, também no Rio Grande do Sul, Ministra de Minas e Energia no governo Lula, Ministra-chefe da Casa Civil e por fim, Presidente da República. Dentro de seu lastro político, é intelectualmente IMPOSSÍVEL não saber o que é um crime de responsabilidade fiscal, e, mais que isso, passar 6 anos impune, caso isso fosse verdade.

O governo dela nos deu chances de vislumbrar um mínimo de igualdade, vejam bem, eu não tenho a visão utópica de que ela, enquanto personagem político seja completamente idônea, mas eu preciso respeitar as medidas que ela tomou em direção a um futuro que previa menos privilégios a um único grupo, um futuro que eu gosto mais, em que me sentiria mais livre, do que esse que vislumbra no final desse processo.

Dilma foi sim se defender, porque foi acusada de ser petulante, de ganhar do time dos meninos, mais de uma vez. Foi acusada de uma prática antiga, besta, pra não deixar passar, como a de pedaladas fiscais, o que coloca em cheque não apenas o seu cargo, mas a sua capacidade profissional; por favor ela é economista!

O problema de tudo está no tom. O tom da presidenta é de austeridade, de solidez de caráter. De alguém que não teme, que fala por si, que encara aos 68 anos mais de 15 horas de sessão, falando para cada um dos parlamentares aquilo que é óbvio ao bom senso: ela é inocente.

Uma mulher com esse tom, uma pessoa que deseja embarreirar planos de governo que destituam direitos de quem trabalha — quem produz — que tente, dentro do que cabe a um cargo executivo, minimizar a fome e a probreza, vai de encontro a um complexo e antigo sistema financeiro de uma elite, que se mantém mamando em tetas do Estado há séculos. Por isso esse espetáculo: não vão deixar passar 14 anos de tentativas de equalização, muito menos se ouvindo comendar sob a voz de uma mulher.

A relevância do papel social feminino, o poder de decisão da mulher é uma mística, um erro no código, uma afronta ao plano superior do grupo masculino. Ao feminino também, diga-se; parece um jogo de video game com 2 jogadores em que um recebe 1 chave pra abrir uma porta e o outro um chiclete pra atravessar um deserto cuja areia é formada por piranhas alienígenas. É ridículo.

A perpetuação do machismo vai além da atitude, vai de encontro ao ego, à vontade obscura de ser superior. Um feitiche social que as emissoras e o público compram; principalmente se a mulher é vítima, se está fragilizada. Por isso a cobertura da votação num domingo inteiro e nenhuma notícia sobre a fala daquela mulher, daquela figura que representa a negação de tudo que tivemos no poder.

Parabéns a essa mulher, que enfrentou tanto e tanto, ferindo-se sem manchar o caráter. E de pé.

Que pena. Somos uma massa triste, sem visão, que publica fotos no protesto e se cala diante dos horrores das injustiças; somos a massa que odeia, que cola adesivos anti qualquer coisa e pró nada no carro. Gostamos mesmo é do ridículo, nem que seja, indiretamente, sobre nós mesmos.

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