Sem palavras

Janette Kerr

Estava cansada. A verdade era essa.

E não era um cansaço só dela. Era do mundo.

Tanto barulho, tantos sons perdidos.

Queria ouvir o pelo do braço crescendo,

a manga caindo madura na praça,

o velho banguela ruminando lembranças.

Mas não conseguia.

Daí começou a calar. Pouco a pouco. Sem muito alvoroço.

Ficava só escutando. E matutando.

Calada sorria melhor.

As palavras são tão frágeis, pensava. Frágeis e indomáveis, como um potro chucro. Há os que querem domar os chucros, domesticá-los. Ela os preferia selvagens, soltos pelo mato.

E assim, calada, continuou. Não que não falasse nunca. Falava. Mas as poucas palavras que saiam de sua boca iam sem cabrestos ou arreios.

Feito folha de laranjeira jogada ao vento.

Algumas pessoas sentiam seu perfume,

outras não.