Por que não falamos de Depressão?

Não sei. Talvez porque nossa cultura seja do tipo de expor o amor e abafar a dor, como se a dor fosse tão feia e indesejada a ponto de termos que escondê-la. Mas acho que é preciso ter espaço pra falar dessas coisas que vêm e mudam toda a sua rota, te deixando com a sensação desesperadora de flutuar no vazio. Pensamentos, sentimentos, atitudes, comportamentos…uma confusão, que não se entende e nem se explica. Ao menos não de forma tão simplista como estamos acostumados a ver as coisas.
- Aliás, por favor, não chore em público…o que vão pensar de você? Que é uma pessoa fraca, que não tem inteligência emocional, que não sabe lidar com as coisas da vida…
Talvez justamente por não falarmos abertamente sobre depressão é que conselhos como “sai dessa” ou “você tem tudo na vida, não devia ficar assim” ou “só depende de você” sejam tão inócuos, ainda que venham de pessoas que amamos muito. A gente ri um riso suave como quem diz “Sim eu consigo, só não sei como…mas obrigada por estar aqui ao meu lado, por não desistir de mim, por me querer bem”. Esse afeto sim torna o fardo mais leve. Deitar no colo, uma volta no parque, pequenos bilhetes ou mensagens de quem você menos espera são capazes de fazer surgirem lágrimas inesperadamente.
Não se lida com a depressão como se lida com uma caixa de e-mails lotada, em que se tira um tempo pra desafogar tudo. Na verdade, você entra numa névoa e tudo se torna embaçado. A frustração e a angústia são tantas, que talvez num instinto de sobrevivência você começa a entrar numa redoma e também começa a afastar tudo aquilo que até pouco tempo antes só te dava prazer. Aliás, é possível sentir prazer na depressão? Sim, mas também não é tão simplista como achar que sair na night te tirará desta névoa.
Os dias passam, mas a tristeza fica. Ela aumenta junto com a ansiedade, às vezes pode vir uma crise de pânico ou uma fobia social. De repente você não quer mais estudar ou trabalhar, não quer sair com os amigos nem ver a família, começa a achar que não tem assunto ou que está feia demais pra um encontro a dois. Sua casa vira um caos, rotina é algo difícil de estabelecer, os relacionamentos vão ruindo ao seu redor. As pessoas se preocupam e você começa a se sentir culpada por preocupar estas pessoas, então começa a contar pequenas mentiras pra diminuir a sensação de culpa.
- Está tudo bem, não se preocupe. Estou me cuidando…Quando a verdade é “Estou péssima, hoje acordei meio-dia, não tive forças pra fazer o almoço, na verdade não consegui nem ir até o restaurante da esquina, esqueci de ir ao dentista, desmarquei a saída com a amiga e não consegui terminar a parte da pesquisa que era pro mês passado…”
Você não consegue acordar ou não consegue dormir, come exageradamente ou quase nada, e a lista de coisas a fazer só aumenta. Você já nem tica mais o que conseguiu terminar pra não olhar todo o resto e sentir que o esforço foi em vão. É uma luta diária, muitas vezes embaixo do edredom, vendo o mundo pela janela ou mesmo pelas redes sociais. As pessoas parecem tão felizes, que a felicidade do outro lhe afeta. Você se sente injustiçado por estar há meses tentando colocar as coisas no lugar, a própria fé se abala. Afinal, por quê?

O namoro chegou ao fim. De repente, aquele que você sonhou partilhar uma vida a dois te diz pra “seguir em frente”, pra malhar que terão muitos pretendentes e que foi bom enquanto durou. Daí retira seu nome das redes sociais e depois as fotos. Ah, as fotos! Como dói ver que você não está mais em nenhuma delas, depois de quase 3 anos de uma construção tão bonita. Dói mais ainda apagar as do seu álbum, porque o sentimento ainda está contigo e não mais com ele. As doces ilusões femininas…
Em um impulso, num dia em que a névoa estava ainda mais acinzentada, já com dores de estômago por tanta coisa acontecendo, eu decido terminar. Porque tem o mestrado, a vontade de ir para a Alemanha, a dieta que passou a ser vegetariana, as dificuldades para conseguir trabalho, as diferenças…Será? A verdade é que não existia mais a “cola”, não havia mais o brilho no olhar (não havia mais olhar) e a falta de desejo havia chegado no limite. O que dói mesmo é ver com mais nitidez que talvez já tivesse acabado há muito tempo e eu simplesmente não quis ver. Ou não quis acreditar.
Aceitar a existência de uma terceira (oculta) mulher parecia menos doloroso do que “perder”. Mas quando já não existe mais a “cola”, o que é então que se perde? A rotina de um casal com uma relação já esfriada pelo tempo e pela distância? A companhia, as risadas, o apoio emocional e os bons dias diários por telefone? Não…se perde a autoestima, o cuidado consigo, a capacidade de se achar linda em um vestido branco, usando batom vermelho e cabelos soltos. Daí você se veste assim, se olha no espelho e não se reconhece mais. Quem é esta pessoa ali refletida? Onde ela esteve?
Não há culpados. É só mais uma relação que chega ao fim e como quase todo fim, é doloroso de aceitar. Tenta-se um retorno, em vão. Uma, duas, três vezes. Pronto, esse também é um limite, porque está beirando o autoflagelo. Como costumam dizer “Amor não se pede, ele simplesmente acontece”. De qualquer forma, prefiro pensar nele assim, como um muito provável “amor da minha vida”. Alguém que foi e ainda é muito importante pra mim, mas que não foi capaz de ter empatia no sentido de se colocar no meu lugar e de segurar minhas mãos num momento tão delicado como este. Acontece.

Estou em casa, escuto um som, vozes num côro. Uma igreja talvez? Mas não tem igreja perto! Percebo então que são vizinhos cantando com tanto fervor, músicas tão lindas, que imediatamente me sinto menos só - mesmo isolada em meu quarto. Subitamente as vozes enchem meu coração de paz e uma alegria rara, então eu me arrumo e penso “vou pra lá”. Quando chego no andar, a música pára. Desço, começa a música de novo. Subo, hesito, tento três vezes. A porta se abre, me apresento e pergunto se posso estar ali com eles.
Então, estranhamente me sinto abraçada, como em família, rodeada por pessoas que nunca tinha visto na vida. Tomada por um sensação desesperada de ter alguém por perto, de abraçar e dizer que preciso sim de afeto. Eles oram por mim, pela minha pesquisa, para que a depressão não mais me acompanhe. Comemos juntos e rimos de tudo. Ao mesmo tempo eu penso que eu nunca tinha feito isso antes, que driblei a vergonha e estava ali sem nenhuma expectativa que não fosse me sentir menos só. Chorei muito.
Deus cuida da gente…Não devemos nunca abalar a nossa fé. A moça abre a bíblia e me diz: Posso ler algo pra você? “Bendito o homem que confia no Senhor e cuja confiança é o Senhor. Porque será como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor, e a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga nem deixa de dar fruto” (Jeremias 17: 7 e 8). Eu que não leio a bíblia nem evangélica sou, fico tomada pela emoção. Sinto-me forte, as palavras vieram como inspiração. São as surpresas boas que a vida nos dá.

Aí eu me lembro de como Deus ou alguma força superior tem cuidado de mim. Enviando pessoas, que apareceram subitamente e estão me divertindo muito. Sensibilizando outras, que me enviam mensagens de apoio, contatos de terapias ou mesmo me convidam pra um café (que eu ainda não fui tomar). Fazendo com que uma professora desmarcasse minha primeira apresentação da pesquisa, que não estava pronta, bem no dia. Até fazendo alguns interessados se aproximarem. Pode?! O Universo trata com carinho, mas a gente precisa de lentes de aumento para perceber cada milagre diário.
Sinto-me cuidada ao perceber que consegui uma médica atenciosa bem próxima aonde moro, diferente de tantos outros que me trataram com a indiferença típica de quem trabalha na psiquiatria. Sim, decidi dar o braço a torcer e tomar anti-depressivo, porque estou mesmo precisando. Por ter conhecido uma vizinha que também mora só, pelo dono da padaria que vende fiado, por ter uma horta na minha quadra e eu ter tido a alegria de colher minha primeira batata doce e rúculas fresquinhas!
Por todo o amor e constante apoio da minha família. As flores no caminho, o sol ao andar de bicicleta, as músicas clássicas que me acalmam, os amigos antigos e a nova amiga mineira, que sei que vai ser de longa data. Inclusive o ex-namorado, que me apoia da forma que acha correto. Por eu, apesar da Depressão, estar aqui em Brasília realizando um sonho de uma década atrás. Pela oportunidade que estou tendo de morar só e conhecer mais das minhas habilidades e fragilidades. Pelo reencontro comigo mesma.
Por ter voltado ao trabalho voluntário e conseguido fazer algo em políticas públicas (um objetivo que veio se arrastando por mais de um ano). Por ter retomado dieta e atividades físicas, depois de muitos anos parada. Até por ter comprado um quadro branco onde escrevo frases de amor e cuidado para mim mesma. Onde também coloco a minha rotina e minhas “metas” em forma de desenhos. O último é uma montanha com uma bonequinha. No momento ela está só olhando a altura, mas ela vai escalar! (risos).

Então eu volto a olhar pela janela com um pouco mais de ternura comigo mesma, reduzindo as minhas expectativas, me perdoando e percebendo que de alguma forma, realmente “depende de mim”. Também de olhar mais distante, para além da bolha que eu fui construindo até que ela se tornasse tão forte a ponto de me fazer acreditar não ser possível rompê-la. É claro que a dor do processo, da travessia, ela não se finda com a compreensão mais profunda do que está acontecendo. Mas torna o ciclo mais leve…e como todo ciclo, um dia ele chegará ao fim e se tornará só uma vaga lembrança.

O que eu espero é que tanto eu, que estou passando por essa coisa terrível e incapacitante chamada Depressão, quanto você, que talvez também esteja passando por isso, possamos sair de nossas bolhas…porque elas são de sabão! As bolhas são de sabão! Não é incrível perceber isso?!
Assim, poderemos caminhar livremente, em paz conosco, com os outros e com tudo ao nosso redor. Até porque, também sabemos: o movimento faz parte das leis do universo. Que tenhamos forças pra nos movimentar, desde levantar da cama até, quem sabe, chegarmos a uma caminhada no parque ou uma aula de dança? E, assim, vamos conseguindo ajustar nossas rotinas, desfazendo as nossas listas de coisas a fazer, arrumando nossas casas…colocando ordem nos pensamentos e sentimentos. Organizando minimamente o caos que está por dentro.
Foco, força, Fé & Amor.
Com muito Amor!
Pra você.