Baú de heranças e futebol

Como a gente escolhe nosso time de futebol? Por que sou botafoguense? Meus amigos que não entendem muito do esporte, volta e meia me perguntam isso. Eu respondo de maneira quase óbvia, que sou botafoguense por causa do meu pai. Sempre me pareceu um motivo mais do que razoável, já que foi ele quem me apresentou ao esporte, que me pegou pela mão e me levou a um estádio pela primeira vez. Mas aí me peguei me perguntando por que meu pai — um cara do interior de Minas, filho de um japonês — torce para o Botafogo? E me dei conta de que não sabia a resposta.

Sempre tendo a achar que futebol tem muito a ver com herança e acho essa uma ótica linda para olhar pro esporte. Existem vários fatores que fazem alguém escolher um time de futebol para torcer. Herança é um dos que mais pesa.

O ano era 1968. Meus avós paternos não acompanhavam futebol. Um vizinho convidou meu pai, que tinha 10 anos na época, para assistir a um jogo em sua casa. Quando ele passou pela porta viu na sala uma gigantesca bandeira pendurada na parede. Fitou-a por alguns segundos e, como gosta de contar, a imagem daquela estrela nunca mais saiu de sua cabeça. Seu José apresentou o Botafogo para meu pai. O mais novo torcedor alvinegro, por sua vez, apresentou sua nova paixão ao pai dele e, sendo o primogênito, acabou catequizando os irmãos caçulas também. Meu avô — japonês — passou a gostar de futebol por causa do meu pai. Uma tradição que foi passada de filho para pai. E assim, nossa família, numa cidade de 10 mil habitantes no sul de Minas Gerais, se tornou botafoguense.

A primeira vez que fui num estádio de futebol foi na final da Copa do Brasil de 1999, Botafogo x Juventude. O maior público da história de uma decisão da competição, diga-se de passagem. 101.581 torcedores no Maracanã. Eu tinha 8 anos. Lembro daquele dia ritualístico nos mínimos detalhes. Sempre que me recordo dele, fico feliz em ter ido naquele jogo, apesar do resultado. Minha casa estava agitada. Meu irmão do meio e meu tio (ambos moravam em Minas) vieram para a partida. Minha mãe me ajudou a me arrumar. Eu estava muito animada para descobrir como era um jogo de futebol ao vivo e também fui contagiada pela alegria de todos eles. Vesti a clássica camisa 7, do Seven Up, que por sinal, possuo até hoje. Fomos de carro até o estádio. Fecho os olhos e consigo ver todo o percurso que fizemos, até mesmo a parada no posto de gasolina. Aquilo era uma aventura. Pisei no Maracanã pela primeira vez na vida. Nunca havia visto um lugar tão cheio. Encontramos mais alguns amigos do meu tio e nos enfiamos como deu, no meio da arquibancada. Claro que eu tive que pedir ao meu pai — para o desespero dele — para ir ao banheiro. Até hoje não sei como conseguimos sair e voltar. Um dos amigos do meu tio tinha um binóculo e me emprestava para eu conseguir assistir melhor o jogo, um apetrecho que deixava tudo ainda mais aventuresco. No entanto, uma das imagens mais potentes que já vi na vida, era bem visível a olho nu e dispensava binóculos: 100 mil torcedores cantando no Maracanã. Quando soou o apito final, chorei igual a muitos marmanjos à minha volta. Meu pai tentava me consolar, mas mal sabia ele que apesar do choro, ali eu ganhara um dos grandes prêmios da minha vida: a certeza de que amava futebol e o Glorioso.

O amor pelo futebol não vem só pelo sangue paterno. Nasci e cresci no Rio de Janeiro e a família que mais convivi foi a daqui. Meu avô é flamenguista e minha avó tricolor. Ambos completamente loucos pelo esporte. Deles, não herdei o time, mas herdei — e ainda herdo — todos os dias essa paixão. Domingo na casa dos meus avós é sinônimo de reunir o clã, que sempre produz as mais engraçadas cenas de euforia, fanatismo e superstição. A família é praticamente toda flamenguista. Meu avô assiste aos jogos na sala com os filhos e minha avó no quarto, até porque, como boa tricolor, ela sabe bem que é melhor não assistir na companhia de secadores rubro-negros. Com ela, nutro uma cumplicidade velada já que costumamos torcer contra o Flamengo. Se eles estão perdendo, ela me olha e dá uma piscadinha ou faz um sinal de positivo discreto pra ninguém perceber. Ela me liga depois de praticamente todos os jogos do Fogão, seja pra dar parabéns pela vitória, ou para contar o quanto pensou em mim e ficou triste com a derrota. Minha avó tricolor, me incentiva ainda mais no amor pelo futebol e pelo Botafogo. Quem me dera chegar os 90 anos assim e passar essa herança aos meus netos.

Como disse Vinicius de Moraes, a formação da identidade também passa pela escolha de um time de futebol. Sei que para muita gente isso pode não ser verdade, mas no meu caso a afirmação não poderia ser mais acurada. Tenho muito do Futebol e do Botafogo em mim. Quando me perguntam qual é o meu esporte preferido, costumo responder que é o vôlei. Simplesmente porque não consigo nem categorizar e ranquear um esporte tão sobrenatural quanto o futebol. Esse tipo de paixão não é simples de mapear ou descobrir exatamente de onde vem, mas é fácil sentir e saber que quero passá-la adiante.

PS: As fotos do texto são de um projeto que tenho no instagram, com fotos de crianças em estádios.