Escombros.

Certa vez, lendo uma reportagem que mencionava os dois anos do terremoto no Haiti- episódio revalorizado pela preocupação do governo brasileiro com a presença de haitianos no país à época, me deparei com uma fotografia que já houvera me chamado atenção. Entre as tantas imagens fortes produzidas naquela ocasião, novamente uma me convidou à reflexão: o belo palácio presidencial na capital Porto Príncipe destruído após o terremoto.
Enquanto observava a imagem e a maneira como as linhas daquela edificação se desmanchavam e misturavam umas nas outras, uma só palavra se produzia em mim, protestava por sua liberdade e, sabedora da minha vulnerabilidade diante dos meandros linguísticos, ecoava reivindicando o seu lugar: Escombro. No meu ofício de inquirição das palavras sorrateiras como essa, que se aproveitam do fraco dos sentidos, declarei, com a certeza de verdugo que tal elemento deriva de dois outros: ombro e estrondo. Estrondo que vira passado e se deixa cair sobre os ombros que implodem ao não suportar o peso dos desejos retorcidos.
Pode ser nascer de um ato de coragem ou por mera circunstância. Decisão ou lamento. Dinamite estrategicamente colocada ou chuva que faz o chão derreter e planta a pedra sobre a casa, o café pronto e o pão quente postos na mesa.
De tudo que sucumbe surge o escombro.
Hora de colocar o porta-retratos na caixa, a mesa não é mais “sua”. O emprego acabou. O “eu te amo” sai apenas de uma boca e se joga vento afora, jamais retornará aos seus ouvidos pela voz esperada no abraço sonhado. Não haverá mais conversa de fim de tarde ou almoço de domingo naquela casa, cujo dono e motivo já não existe. Mas fica o balançar da cadeira na varanda, fica o desgastado da mesa no escritório, o beijo eternamente guardado na algibeira. Fica o desajuste do escombro: truque que envolve o tempo.
Ali, um monte poeirento que, desorganizando a realidade, com o não pertencimento por origem nos desafia… existindo, afinal. Perturba-nos esperando uma ação. Descarte ou reinvenção.
Aposto na astúcia dos vitrais. União de escombros produzindo um novo significado que, exposto à luz, faz desfilar bem elegante a cínica liberdade de fragmento.
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