Uma saudade de carnaval.

Thamires Maciel
Feb 25, 2017 · 2 min read

Só penso em dizer “obrigada”. Tão sem sentido e desnecessário, mas a única possibilidade que minha pobrezinha e rude palavra oferece. Abaixo então até os teus ouvidos, inspiro, guardo bem o teu cheiro e só tenho a dizer: “o doce de mamão mais gostoso que já comi”. O esboço de teu sorriso, fruto da tão difícil lucidez, me responde que nesse momento da dor aguda, consegui ser tudo que pude, tudo que necessitavas, ainda que por alguns instantes. Eta tempo esquisito esse, né? Tudo tão fluido e ironicamente urgente.
Meu corpo chora, se manifesta na sua incompreensão de corpo, chora de saudade de corpo, de saudade das mãos do doce de mamão, da geleia, do bolo, da carambola -aquela coisa que só tinha no teu quintal mágico- Chora de despedida.

Pelos teus olhos conheci o Rio de janeiro do início do século XX, os bailes de carnaval que tanto amavas (continuo preferindo os blocos da praia, mas prometo que no ano que vem vou dar uma passada no centenário do Bola Preta e me oferecerei aos confetes que, espero, caiam ainda do alto de algum prédio da Rio Branco); Os remadores gentis da praia de Botafogo (hoje já estão mais apressados e meio bobos, mas distraída ainda consigo, vez em quando, receber uma rosa).

Ah, eu continuo chorando até não mais poder por conta das cebolas, vou continuar me esforçando para aprender o truque que me ensinaste, se bem que agora já não sei se quero, porque cada vez que as impossíveis cebolas me atravessarem é das tuas gargalhadas que lembrarei e então, travessas e implicantes com o tempo, como sempre, permaneceremos.

Minha alma silencia. As mãos estendidas se põem e na pobre tentativa de te segurar, se abrem. Depois novamente se põem, dessa vez em oração, rogam para que teu caminho seja tranquilo e doce, como tudo que tuas mãos prepararam por aqui. Teu amor sorriso me preenche. E segue.

Thamires Maciel

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Poeta. Professora universitária e advogada. Leitora. De qualquer história e pessoa bem contadas.