Um grão de mostarda

Carta aos ofendidos.

“Meu coração está igual um grãozinho de mostarda” — disse meu pai no último domingo ao se lamentar depois de ter sido grosseiro comigo e perceber a minha revolta com isso. Em seguida ele me lembrou que há 2 dias completaram dois meses que ele perdeu sua mãe, minha avó, e pouco mais que isso, 3 meses que perdeu sua ex-mulher, minha mãe. Me vi injusta, e com o meu coração ainda menor por perceber que tenho agido como ele. A tragédia real desses fatos, é ver o que a gente pode se tornar depois de perder alguém que amamos com todas as nossas certezas, convicções e crenças. Machuca muito, é transformador e invasivo, não há escolhas. Um dia pessoa está ali, no outro não. Restam mensagens recebidas, cartas, poemas, objetos inúteis, áudios no WhatsApp de uma conversa inacabada, fotos de momentos felizes, lembranças em cada canto da casa, em cada canto escuro de nós. Sobram as semelhanças assustadoramente mais evidentes com o passar dos dias ao olhar no espelho, e resta saudade, muita. Percebi que sem tomar cuidado nos tornamos injustos, amargos, grosseiros, por que parece que nossa dor é sempre maior do que qualquer coisa que se possa explicar. Afastamos os amigos, os amores, os parentes, com o sentimento de que eles nunca vão entender o que se passa em nós, e não vão. Com orgulho a gente se acha no direito de ser cruel, de ofender, de julgar, por que onde já se viu o mundo acabar assim com a gente, numa porrada dupla, não é mesmo? Que besteira. Achei um retrato dela aqui, dizendo: quando tudo flor, flores serás. Na grama, em frente a minha vaga no condomínio, plantaram flores lindas. Gosto de pensar que tem um dedo dela nisso, da minha mãe, sabe? Ela se foi no inverno, mas tinha uma alma gritante de primavera. Capricorniana que amava a água, ensinou que orar por alguém é um gesto de amor, ensinou a amar, e amou. É nisso que a gente tem se apoiado todos os dias, no amor. Portanto, se você foi ofendido por nós em algum momento desse caminho, não se culpe, fomos injustos e vai passar, talvez demore, talvez passe amanhã ou no próximo ano, mas passa. Me lembrei do quanto a vó dizia que somos efêmeros, e descobri que somos pequenos feito o grão de mostarda do nossos corações, mas fortes feito uma oração por quem a gente ama.

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