Aquela carta
Eu tinha te feito uma carta. Era tão bonita, senti orgulho de mim mesma quando a terminei. Li e reli várias vezes e imaginava o que você sentiria quando a lesse. Coloquei tanto sentimento, tanto afeto naquelas palavras, porque eram as palavras que eu queria que você guardasse de mim para sempre, independente de qual fosse o nosso fim. Lembro-me que nela eu dizia o quanto você tinha mudado a minha vida e o quanto eu era grata a você por isso. E, no final, eu ainda dizia que mesmo que o meu sentimento um dia mudasse, aquela carta mostraria tudo o que eu sentia naquele exato momento em que a escrevi, pois daquela forma o sentimento estaria eternizado.
Eu a deixei guardada durante dias, esperando o certo para fazê-la chegar nas tuas mãos. Nossa situação não estava boa, em nossas conversas já não nos importávamos mais se magoaríamos um ao outro. Elas sempre levavam a uma discussão e acabávamos brigados. Todas as vezes que eu a via dobrada num lugar onde apenas eu tinha acesso, eu a abria, lia e por meio dela me lembrava das coisas boas que você me fazia sentir e do quanto você era importante para mim.
O tempo foi passando, a nossa distância aumentando, até que chegou aquele fatídico dia. Tudo estava acabado, não te reconhecia mais e tudo o que estava escrito naquela carta não fazia mais sentido. Lê-la pela última vez foi uma tortura. Foi aí que, no auge da minha dor, eu a queimei. Assisti às palavras se desfigurarem e o papel ser consumido pelo fogo até restarem somente as cinzas. Tinha esperança de que o fogo destruísse não só o sentimento contido dentro daquela carta, como também o que ainda restava dentro de mim, mas ele não foi o suficiente para fazer parar de doer. Só se eu queimasse junto.