Como Logan mudou a minha relação com a minha avó

Atenção: o texto abaixo contém spoilers de Logan.

Eu sempre vi a minha avó e a minha mãe brigarem bastante. Desde pequena, cresci sob os cuidados de ambas — com a minha mãe com o papel de mãe, e a minha avó com o papel de mãe-avó. Por conta disso, não importava o quanto eu tentasse explicar para ela que esse não era o seu papel, era algo muito difícil para que ela entendesse, e eu também não tinha maturidade ou paciência para lidar bem com toda essa confusão familiar.

Até que eu assisti Logan. O filme foi lançado em 2 de março, e eu assisti na pré-estreia, consciente da minha grande sensibilidade à violência. O que a última jornada de Wolverine não contava ao ser classificado como R-rated (ou para acima de 17 anos) é a sua complexidade e o seu peso emocional. Entre os assuntos tratados, inclusive, o longa-metragem aborda temas como paternidade não-biológica, abandono e alzheimer. Ou seja, três assuntos que mexem comigo muito mais do que eu gostaria e muito mais do que a minha psicóloga conseguiu me ajudar a resolver até o momento.

A questão é que por mais que o alzheimer hoje seja considerada uma doença conhecida e “comum”, é muito difícil lidar com ela — principalmente se não for você a pessoa com essa patologia. Porque enquanto as pessoas que nós amamos vão perdendo gradativamente a memória, nós continuamos vivendo e lembrando de momentos bons e ruins, mesmo que isso não seja algo que nós queremos. Pois é, atire a primeira pedra quem nunca quis apagar uma parte da nossa vivência.

Logan trouxe um Professor Xavier doente e desgastado, com um estágio intenso da doença e muita dor. Não vou entrar no mérito de como essa condição foi tratada no filme e do quanto eu chorei com todos os acontecimentos que giravam em torno do personagem — basta dizer que foi mais do que o suficiente — , mas a verdade é que enxergar o alzheimer pelas lentes de James Mangold trouxe um único questionamento que é válido o suficiente para ser compartilhado nesse texto.

As pessoas vêem que o alzheimer torna uma pessoa cada vez mais incapaz, e ter essa percepção é extremamente dolorido. Mas o que eu entendi foi que, apesar de essa doença ser sim incapacitante e degenerativa, nem por isso a pessoa deixa de entender o que é o carinho e o amor. Ela pode esquecer onde deixou as chaves, esquecer o próprio nome, mas o sentimento ainda existe — mesmo que ele não possa ser compreendido em palavras, como se fosse uma equação matemática.

Foi só abraçando a minha avó na cozinha, em prantos porque a minha estabilidade emocional está um tanto abalada na última semana, que eu entendi: aquela pessoa que você amou, e viveu tantas coisas ainda está ali — ela não virou um ser vivo inerente a qualquer contato humano. Às vezes essas pessoas ficam agressivas, não conseguem mais perceber a realidade ao seu redor, mas todos esses sentimentos ainda são verdadeiros.

A minha avó, com seus 70 anos e toda a sua condição física e mental, parou tudo o que estava fazendo para me convencer a jantar — coisa já corriqueira dentro da minha vida — e me acalmar dentro do turbilhão de emoções que eu senti nessa semana. Notei que eu estava mais alta do que ela, o que sempre foi algo que eu estranhei, que eu estava completamente vulnerável, mas mais do que isso, que eu nunca tive o hábito de abraçar e dar o carinho que a minha avó precisava e merecia.

Logan me mostrou como o alzheimer, por mais que seja uma doença de esquecimento, pode ser tão rico para as memórias e para o aprendizado daqueles que ficam. Da mesma maneira que o Professor X mostrava constantemente ao protagonista que às vezes é necessário aproveitar os pequenos momentos da vida, a minha avó me mostrou que a demonstração de afeto é uma preocupação que independe da idade.

Me emocionei ao pensar que a minha avó pode me perguntar todos os dias quando é o dia do meu aniversário, mas em um momento que eu precisei de apoio psicológico e mental, ela estava ali. Sorrindo e me falando: “você precisa cuidar da sua cabeça e do seu corpo. O resto é consequência”. Foi ali, na cozinha da minha casa e em uma situação de vulnerabilidade, que eu entendi a essência humana e o amor além do esquecimento existencial proveniente dessa condição mental contemporânea.

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