O quarto ao lado

O quarto ao lado permanece vazio. Ele guarda somente as sombras do passado, junto com sua dicotomia de sentimentos. Um pretérito que evoca lágrimas do que poderia ter sido, mas nunca terá a chance de se tornar real.

Da porta, tudo permanece congelado no tempo, com uma ou outra coisa fora do lugar. O toca-discos antigo, sempre embalando torturantemente Kenny G em alto e bom tom, não há mais e em seu lugar ficou a marca no piso do que um dia foi. Na mesa de cabeceira um abajur, traços da nova visita semanal. No armário, presentes de Natal ainda nas caixas, ansiosos para serem redescobertos. Seu habitante pode chegar a qualquer minuto, indagando exasperadamente sobre as alterações, mas nunca o fará.

Fora do quarto os hábitos ainda são difíceis de esquecer, como a mão que para à porta, estendida, pronta a bater para pedir permissão e não incomodar. Ou o olhar que se demora para ver porquê tudo está tão quieto, vai ver só estão tirando um cochilo. Há ainda aquela preocupação ao lembrar cenas como alguém estendido ao chão, tentando apoiar na cama para levantar, mas sem forças. Ou os vestígios incômodos de uma noite não dormida e de uma saúde abalada.

A televisão agora fica desligada, o silêncio reina e a eterna briga pelo sossego entre as paredes até deixa saudades. Mas o quarto lá está, envolto nas sombras da meia-noite, esperando mais um dia, juntando mais uma poeira…

O quarto ao lado permanece em paz. Assim como o desejo dos outros quartos. Assim como a esperança de que tudo um dia ficará bem.

(Thais Finotto Visani — 31/01/2013 — 00h40 am)