A terrível sensação de falar demais

Conversar é maravilhoso: falar umas besteiras, um papo fiado, ou uma conversa mais profunda. É maravilhoso.

Mas sair 100% satisfeita de uma conversa é para poucos.

Conversar é uma habilidade que te expõe. Por mais imparcialmente que você queira emitir sua opinião, vc está emitindo uma opinião. E junto com ela tem a sua linguagem corporal, o seu humor, a sua relação com o interlocutor. Tem muita coisa. Conversar é barra.

E acho que essa é uma das razões pelas quais as pessoas entram na vida adulta e param de fazer amigos, de conhecer pessoas: pelo medo de se expor em conversas.

E ainda digo mais, a pessoa vira adulta, entra no mercado de trabalho, começa a ganhar dinheiro, a adquirir bens, cria suas idéias a respeito de sucesso e aspiração social e começa a ver as pessoas em termos de “concorrentes”.

Assim fica difícil fazer amigos, quando você vê todo mundo como concorrente, como se todo mundo quisesse o que você tem ou todo mundo quisesse o seu espaço no mundo.

Narciso, o mundo é vasto, as pessoas são diferentes, e mesmo que aparentemente queiram O MESMO que você, dificilmente elas REALMENTE querem A MESMA COISA, e dificilmente os resultados das ações de cada um levarão aos resultados pretendidos.

E muitas vezes, aquilo que queremos não é o que realmente precisamos, entende? Então, vamos parar de ver o mundo como um jogo em que UM PERDE e OUTRO GANHA. O mundo é vasto, e o que cada um quer para si é muito específico.

Acho que esse pensamento narcisista e que insiste na escassez de ideais de vida e de bens materiais gera mesmo muita desconfiança entre as pessoas. E gera solidão. E gera depressão. Vejam a sociedade materialista e cheia de aparências impedido pessoas de serem amigas since o dia em que Eva comeu a maçã, bandida.

Fecha parênteses.

Bem, conversar é uma habilidade difícil, por diversas razões. Quando eu termino um papo fiado, fico atenta a como eu me sinto depois. E mais do que eu gostaria, eu saio da conversa achando que falei demais. hahahaha Eu penso que fiz piadas politicamente incorretas demais, fui moralista demais, falei algo que pode ser constrangedor para alguém e não era a minha intenção ou que revelei um lado meu que pode ser ruim para mim lá na frente.

Enfim, fico meio noiada com uma ou outra declaração. Isso me estressava muito. A pedra jogada e a palavra dita não voltam mais. E a impressão que você causa na mente e no coração das pessoas também.

E eu já me martirizei muito por isso. Mas me martirizar também não resolvia muita coisa, apenas me causava medo de conversar, e conversar é antidepressivo, engraçado, legal e eu não queria parar de conversar com as pessoas.

Enfim, de uns tempos para cá, dentro de um processo geral de redução de ansiedade, e de “mindfulness”, (não sei definir, mas acredito plenamente nessa palavra) eu desenvolvi a seguinte técnica: bateu a sensação de que falei demais? SIM. O que fazer a seguir? RESPOSTA: simplesmente deixar isso evaporar. NADA DE TENTAR CONSERTAR. Tentar consertar mostra que você PERCEBEU algum tipo de mancada (que às vezes a outra pessoa nem identificou como tal) e fica tipo que nem pisar na bosta mole para ver se assim limpa alguma coisa, mas apenas suja o pé.

DEIXA PARA LÁ, e comprometa-se em falar algo compensador para a pessoa. Depois. Com calma. Em outra vibe. Não agora.

Falei algo que soou egoísta? Deixe um dia ou dois e diga algo bem generoso. Compense, filha, anule a negatividade com positividade.

Falei algo que gera um clima de apreensão? Faça uma piada bem escrachada para voltar os ânimos à normalidade. Não ali, no calor do medo, pode ser depois. Não faz mal.

O silêncio constrangedor surgiu? Enjoy the silence. Pare de querer preencher os vazios com idiotices. E se a pessoa ficar constrangida com o silêncio e falar asneiras, concorde, faça relações absurdas, pegue o que ela disse e diga que viu o Faustão falando o mesmo no domingo, viaje.

Enfim: conversar é difícil, mas não conversar pode ser pior para as suas habilidades intrapessoais e interpessoais. Permita-se errar, se expor, mas saiba neutralizar inteligentemente essas sensações de exposição ou mongolice que temos. Porque é em público que a gente se testa. Na frente do espelho não há ninguém absorvendo nossas energias a não ser nós mesmos. Na frente dos outros temos que ter o compromisso de não soltar energias lixosas, para o nosso bem e para o bem do outro.