Nós, mulheres modernas, estamos nos acostumando a perceber o que não temos, em termos de oportunidades sociais, em relações aos homens.

Quem faz isso como atividade básica é o feminismo.

E as feministas são criticadas talvez por isso: pelo quê de INGRATIDÃO que pode ressoar de suas afirmações.

Ingratidão? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Ser mulher, assim como ser homem, tem suas dores e delícias. O que o feminismo faz é expor as dores femininas.

Coisa que o gênero masculino tem muita dificuldade em fazer.

Essa qualidade de expor as dores é algo visto como extremamente feminino. É algo socialmente definido como “mais” feminino. E é maravilhoso. É uma delícia.

Os caras que se consideram mais masculinos, que se consideram a “definição da masculinidade” são, além de extremamente ingênuos, verdadeiras “portas” em termos de expressar sentimentos. E subestimam todas as mulheres do mundo, até a mãe dele, em todos os sentidos.

Confesso que isso de ser vista como “mais sentimental” traz a vantagem de, oras bolas, ser mais sentimental. E sentir e nomear os próprios sentimentos, apesar de ser um talento pouco valorizado, pode ter consequências revolucionárias dentro da gente. Ser considerada um tipo “mais sentimental” traz essa incrível permissão, quiçá incentivo, para mergulhar dentro dos próprios sentimentos.

O que quero dizer é: não é algo DA MULHER ser sentimental, mas é algo totalmente incentivado como parte da formação da identidade feminina. E está aí uma vantagem de ser mulher, não obstante todas as limitações que a “sentimentalidade” traz em termos de reconhecimento de papéis de comando que requerem ZERO sentimentalidade.

A bem da verdade, não existe nenhum papel de comando sem sentimentalidade, porque nada existe sem sentimentos e emoções. Vocês viram a atitude de menino mimado do presidente da câmara, o surucucunha, em acatar o impeachment da presidente? Ou você vai me dizer que aquele homem branco, alto, educado e racional agiu com técnica e isenção? Aquele bandido emocional soltou todos os traumas de infância, de adolescência, todos os foras que levou na vida, todas os vácuos que ele recebeu no whatsapp e descarregou na cabeça da presidente. O sururucunha é o retrato da frustração sentimental masculina, vamos combinar. E vamos combinar também que os olhos arregalados daquela esposa dele dizem muito sobre a saúde espiritual dela, não importa quão superficial seja a nossa análise.

Essa fajuta idéia de isenção sentimental para certas posições, além de gerar graves prejuízos entre regras e práticas, ainda distorce o cenário de ocupação de posições de poder entre gêneros.

Fica lá, o “homenzão racional”, enrustindo sentimentos, no seu “comando sem sentimentos” e à mulher, bem… ao “universo feminino” (como bem disse o nosso presidente interino, o fidalgo conde drácula) resta ficar em casa esperando o tanque de guerra humano voltar para receber a diarréia emocional de um homem que teve de esconder todos os medos durante o dia.

E nós mulheres estamos acostumadas a admirar os carinhas que “não se importam”, que têm empatia com o rocky balboa, mas não têm empatia com a colega de trabalho.

Até nós mulheres muitas vezes associamos que o comportamento de sucesso é obtido com rispidez, com seriedade sentimental, e confundimos atitudes afetuosas com atitudes interesseiras, e confundimos sorrisos com extorsões emocionais. E vemos como atitudes racionais aquelas decisões terrivelmente frias e calculistas, feitas para enterrar uns e elevar outros, poucos, duros e bons.

E quem perde demais nessa brincadeira é: todo mundo.

E eu sinto muito pesar pelos rapazes que têm necessidade de se expressar e são confundidos com mariquinhas. Sejam, maricas, meninos, se esse for o caso.

Chorem, sintam medo, se decepcionem. Mas não sejam enrustidos emocionais. Porque isso faz diferença. Porque isso torna as relações superficiais. Porque isso faz com que nós mulheres choremos mais por nós e por vocês.

Sinceramente, acho que no fundo é isso que a causa feminina informa: dividam a barra que é existir, dividam a carga emocional. Nós nascemos incentivadas a entender mais nossos sentimentos, por que vocês não aprendem também?

E esse é um grande diferencial das mulheres: a capacidade de demonstrar mais afeto e sentimentos bons e ruins. E é um diferencial sobrecarregado na mesma proporção do déficit sentimental dos homens.

É isso o que está acontecendo: a revolução da autonomia sentimental da mulher se dá pelo fato de que ela não está mais a fim de receber a diarréia sentimental contida pelos homens. Porque as mulheres estão querendo fazer outras coisas, e não mais ser a caçamba sentimental de homem.

A lógica do homem provedor que não sabe lidar com os próprios sentimentos e sabe que tem uma mulher para segurar essa barra espiritual para ele, por que ele a banca, acabou. A mulher aprendeu a se manter materialmente, e o homem tem que aprender a se manter sentimentalmente.

Grandes homens públicos, péssimos homens privados.

Fortes e eloquentes na rua, fracos em lacônicos em casa.

É isso que não dá mais. E é isso que todos têm que entender.

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