Privilégio

Essa palavra é recorrente no vocabulário da galera das minorias. Grosso modo, entendo que seu uso define que há um grupo com condições melhores e há outro grupo com condições piores em determinado “issue” social, quando na verdade o certo era que todos tivessem condições iguais em termos materiais e equitativas em termos emocionais, espirituais, culturais e lelele.

O que é realmente característico do privilégio é que ele soa como uma vantagem obtida por um em detrimento da desvantagem de alguém. E isso dói. E é por isso que as lutas sociais estão aí, para acabar com o privilégio de uns em detrimento de outros.

A solução do privilégio é tirar o privilégio de quem já é privilegiado? A partir do momento em que esse privilégio realmente joga uns para cima e outros para baixo, sim. É exatamente por isso que passou a se chamar privilégio: porque tirou do outro a possibilidade de ter uma condição confortável em favor de alguém que tirou isso dele.

MAS como definir a medida em que “epa, até aqui tá bão, se passar daqui o Senhor é um sacripanta privilegiado e está retirando de mim os meios para usufruir de condição confortável semelhante a sua”? DIFÍCIL.

Acredito que um grande erro das minorias é apontar para o privilegiado o PRIVILÉGIO como um pecado, porque para o ele, isso não é pecado, é qualidade de vida, entende? Parece que o reclamante quer tirar a qualidade de vida do reclamado, e quer nivelar tudo por baixo. Para o privilegiado, não se trata de ceder, de abrir mão de alguns “exageros” de poucos em nome da igualdade de todos, mas sim, de um nivelamento por baixo.

“Em vez de se virar para se tornar um de nós, eles querem tirar o que nós construímos”. O discurso do “opressor” até certo ponto faz sentido, porque afinal, para estar ali, realmente algo foi construído por ele. Para ele foi puro mérito, pura força, foco e fé. E foi, mas não somente. O privilegiado não se dá conta, ou se nega a perceber que não são somente razões de mérito puro e benção de Deus que explicam seu privilégio. Às vezes ele foi alcançado porque nada o IMPEDIU de conquistar aquele privilégio, enquanto alguns foram barrados na porta, ou foram olhados de cima a baixo por alguma razão superficial, ou foram criados para acreditar que “não, não é para mim correr atrás de uma situação melhor/diferente da que sou ensinado”. O privilegiado se recusa a entender que muitas coisas são mais acessíveis a uns do que a outros devido a crenças dogmáticas e meios de discriminar pessoas que não são muito racionais, e permitem que alguns concretizem vantagens que realmente desequilibram a distribuição dessas mesmas vantagens entre as pessoas.

Enfim, resolvi escrever esse texto porque quando eu leio a palavra “privilégio” entendo o que ela quer dizer, mas eu acho que ela é mais uma daquelas palavrinhas que ficaram por demais PESADAS por tudo o que querem dizer. Elas são muito empregadas dentro do mundo de quem reclama, e quando são expostas ao mundo de quem deve ouvir a reclamação, soa mal.

“Os homens tem de entender seus PRIVILÉGIOS”, diz a feminista.

1- O homem se sente honrado sem nem sequer entender do que se trata, só porque ouviu que o homem tem privilégios. É aquela compreensão primária irracional e pode até ser chamada de “primeira impressão”. E é a que fica, porque tem muito rapaz que pára no: “sou privilegiado, maravilha… o que está moça está falando? ZzZzzZ”

2- Você desenhar para o privilegiado que ele é privilegiado vira um trabalhão quando você já colocou essa palavra tão maneira na cabeça dele. Quando ele entende que ser privilegiado É RUIM, nossa, dá-lhe desenho para DESCONSTRUIR a idéia de que privilégio é ruim.

É preciso outra palavra, outra forma de chegar a essa mesma justa idéia. O caminho que a palavra privilégio usa para se explicar é muito tortuoso e envolve idéias que podem descambar para a demolição de vantagens que devem ser mantidas para quem já as tem e devem ser obtidas por quem não as tem. Ou seja, tira o básico do privilegiado em favor do desprivilegiado, e VIRA O JOGO. A questão NÃO é virar o jogo. A questão é fazer o privilegiado ceder no que for necessário para que o desprivilegiado ganhe vantagens de forma que encontre-se uma situação média e todos vivam bem e felizes.

Esse é um problema dos extremados da luta em favor dos desprivilegiados: o uso de um vocabulário cheio de palavras pesadas (quem não me vêm em mente agora) que denotam um discurso de VIRADA DE JOGO, DE SOMA ZERO, EM QUEM UM TEM QUE PERDER PARA OUTRO GANHAR. Ou a caixa de bombom fica toda com o time verde e não com o time azul ou a caixa de bombom fica toda com o azul e azul e não com o time verde.

Divide a caceta da caixa entre os dois grupos, manos. Mas e se o sonho de valsa ficar com o time azul e o bombom de ameixa azeda ficar com o time verde? Divide o sonho de valsa, sorteia, negocia que na hora da pizza o time verde fica com uma fatia a mais. Mas a fatia é mais importante que o bombom. Ai caraios, tá vendo. É tudo tão relativo, é tão difícil qualificar um privilégio.

O importante é que privilegiados e desprivilegiados entrem em consenso quanto a uma pauta de condições básicas para o conforto humano e estabeleçam que onde faltar recursos para que todos tenham condições satisfatórias, aqueles que têm mais pratiquem a virtude da generosidade para nivelar a situação a uma situação confortável para todos. DIFÍCIL. Esse consenso aí é idéia a mais linda, fofa e idealizada que qualquer bom pensador tenta imaginar todo dia de sua vida. O tal bem comum, todos sabemos, é uma utopia. É nessas horas que a gente precisa de religião, para fazer as pessoas serem generosas, consensuais, irracionalmente bondosas, voluntárias. Mas aí o cerumano prefere usar a religião como pretexto para estourar bombas humanas em metrôs.

O quem não pode é querer usar da palavra PRIVILÉGIO para querer VIRAR O JOGO. Pois o caso aqui não é de VIRAR O JOGO. Os recursos são escassos, mas são muito mais abundantes do que imaginamos. E as necessidades são infinitas, mas são muito mais satisfazíveis do que imaginamos.

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