Sobre transtornos alimentares

Eu acho transtornos alimentares um assunto tão importante. Porque eu vejo sinais deles todos os dias. E a cada dia mais eu vejo que isso é um tremendo absurdo.

E transtorno alimentar está sempre associado a meninas jovens, mas acho que eu estou tratando de uma definição um pouco mais ampla do termo, e no final das contas, não vou tratar de experiências específicas, nem nada. Vou só filosofar em torno de questões que giram em torno do assunto.

Transtorno alimentar não é um problema relacionado ao sistema digestivo.

O transtorno alimentar é um problema relacionado ao sistema emocional.

Essa ligeira confusão de que é um problema relacionado ao estômago, tira o foco de que é um problema psicológico.

Eu mesma não tenho nenhum dos típicos transtornos alimentares. Eu gosto demais de comer para me privar e se tem uma coisa que eu não gosto é de vomitar.

Mas de toda forma, eu tenho clara visão de que a minha alimentação está intimamente ligada ao meu humor, a minha rotina, aos meus planos de vida, a como eu me sinto em relação ao dia e em relação à vida.

Filosofemos sobre a alimentação: por que não há poesias e tratados filosóficos sobre a alimentação? A alimentação é você COLOCAR DENTRO DO SEU CORPO SUBSTÂNCIAS QUE LHE DARÃO ENERGIA PARA MANTER A SUA EXISTÊNCIA.

Isso não é pouca coisa não. É algo extremamente delicado, espiritual, (literalmente) energético.

A alimentação envolve processos químicos que geram consequências em todo o corpo. Você coloca dentro de si um alimento com certa composição química e nutricional e aquilo ali passa por um monte de milagrosos processos orgânico-químicos que desmontam aquele alimento em substâncias que vão se espalhar na corrente sanguínea e vão manter você o que você é, vão manter a sua matéria.

É algo muito delicado.

Estamos na natureza, e seres instintivos que somos, buscamos nos alimentar, porque o alimento representa uma recompensa positiva e favorável para a nossa existência. Mas, para além de nutrir nosso corpo de maneira instintiva, a busca por alimento possui elementos espirituais, energéticos, que envolvem a nossa visão do mundo, de nós mesmos, das pessoas, de tudo. As escolhas alimentares que fazemos estão muito além da simples escolha nutricional e calórica.

Nossas escolhas alimentares refletem nossas perspectivas existenciais, nossas emoções, nosso humor. O que eu busco colocar para dentro de mim tem a ver com tudo o que eu sinto DE FATO na minha vida. E apesar de desejarmos flores, sabores, amores e zero dores, nós nos alimentamos de acordo com os nossos sentimentos imediatos. Ou seja, não adianta desejar a paz no longo prazo, se você não vive a paz de imediato. Sua alimentação vai te mostrar isso na hora. Infelizmente, não temos controle do lugar onde nascemos e de muitos lugares que somos obrigados a frequentar. A vida às vezes nos empurra e temos que escolher o que dá para fazer, e não necessariamente o que queremos. O esforço deve ser para essa situação acabar, para tomarmos mais conta de nossas escolhas e pararmos de ser empurrados pela vida.

Mas, voltando à alimentação… A produção de alimentos hoje nas cidades, nos centros urbanos industrializados, reflete demais esse raciocínio: os alimentos são feitos para suprir necessidades alimentares imediatas, emocionais, relacionadas a um padrão alimentar emocionalmente ansioso: doces, enlatados, açúcares, congelados, gorduras. Comida de gente estressada, em resumo. Comida de quem não quer esperar para comer, de quem não quer comer comida de gente adulta. O valor nutricional dos alimentos é esquecido em favor de seu valor emocional. Suprir a bad, mesmo que por 5 segundos, parece mais fácil que comer alimentos “de adulto”, que tem de ser preparados, que só ficam bom frescos, que tem de ser comidos com garfo e faca, tem de ser temperados, eles não vem temperados dentro de uma caixa. Não possuem aquela abundância imediata de sabor, parecem sem-graça.

Ou seja, dentro de uma total falta de compreensão do quanto a nossa alimentação é relacionada a tudo o que somos e pensamos, há ainda uma queda brusca na qualidade do padrão alimentar do mundo devido a uma produção massiva de alimentos que suprem necessidades emocionais ansiosas , estressadas e superficiais acima de prezar por um padrão alimentar desestressado. O micro condiciona o macro, e vice-versa.

Para colocar a cereja no bolo, criou-se dentro do imaginário coletivo a idéia de que, dentro dessa loucura toda, pessoas MAGRAS são as pessoas que possuem controle de suas emoções, que sabem o que sentem, que são moderadas, elegantes, dispostas, vencedoras, bem vestidas, desapegadas, bem resolvidas e que se alimentam bem e por isso ganham o prêmio da disciplina e da jovialidade sendo magras.

Acontece que tem um bocado, cada vez mais, de gente magra e triste. De gente magra e fake. De gente magra e sem força, que se alimenta mal de verdade. Mas a confusão é tanta e a cegueira emocional é tão grande que basta ser magra, para ser vencedora. E nisso tá cheio de blogueira e modelete, atrizete, dançarinete, proferessorete de yoga alcançando magrezas estranhas, mas vendendo uma felicidade tão boba, mas que engana tanta gente.

E aí você conclui que comer POUCO não é sinal de controle, e muito menos de comer BEM. É muito mais um sinal de REPRESAMENTO EMOCIONAL EXTREMO, de não comer achando que está purificando a alma, controlando a si, ao seu corpo e aos seus sentimentos, quando na verdade está-se somente entregando o corpo à inanição. Então, vai-se do descontrole emocional via compulsão alimentar, ao total descontrole emocional via inanicação alimentar. E certamente, nenhuma das opções conserta a parte emocional de ninguém. São apenas pólos diferentes do mesmo problema.

E no final das contas, a desconexão entre alimentação e aquilo que você é e o que o seu corpo realmente precisa, e o que você espera da vida e do agora se torna tanta, que fica tudo confuso.

E isso ferra a cabeça. Eu vi uma matéria em que a médica contou sobre um estudo em que mostravam uma imagem de um milk shake para uma menina sem transtorno alimentar e mostravam a mesma imagem para uma menina bulímica. O cérebro das duas reagia de maneira diferente: enquanto a parte do cérebro da menina saudável que reagia à recompensa brilhava de uma forma, a mesma parte do cérebro da menina bulímica brilhava muito mais. Depois, davam o milk shake para as duas. As duas tomavam o milk shake. A menina saudável ficava satisfeita e tranquila, e a sensação de satisfação no cérebro dela ela era bem forte. Já no cérebro da menina bulímica, a ansiedade em se alimentar transtornava o cérebro dela e a sensação de satisfação no cérebro dela, no final, era muito menor quem em relação a outra menina. E nisso, ela comia mais, e mais e mais, para ver se ficava satisfeita, mas ansiedade era tanta, que ela no final só sentia culpa pelo descontrole da satisfação não atingida.

A menina com transtorno estava totalmente desconectada em relação ao que queria o estômago, o cérebro, a alma, o coração. Isso tudo é tão emocional, tão psicológico, nunca deve ser tratado como um problema digestivo ou algo fisiológico. É um problema psicológico, de base emocional, afetiva, existencial, que possui consequências bem clara na rotina alimentar, no sistema digestivo e no organismo fragilizado da pessoa doente, como um todo.

E isso vale para todos os demais transtornos alimentares, cada vez mais comuns, como a drunkorexia, a vigorexia, a compulsão alimentar que leva à obesidade, e todos os demais transtornos alimentares não especificados, os TANES.

Eu imagino que falei um monte de coisa, de maneira um pouco desorganizada. Mas serve como um esboço para algo que eu gostaria de falar com mais propriedade, mas que não tenho tanto conhecimento. Apenas tenho essas peças do quebra cabeça.

Vivemos num mundo que não conecta corpo, alma e alimentação de maneira amável, de maneira amiga, de maneira realmente confortante.

Somos o que comemos, e nosso corpo merece estar bem alimentado.

E para bem alimentar o corpo, precisamos alimentar bem a alma e preencher cada dia de nossas vidas com o que queremos de melhor AGORA, porque isso se reflete na nossa alimentação. Eu acredito que um grande espelho do que esperamos e sentimos de nossa vida se reflete na nossa alimentação. Vivemos num mundo em que podemos ESCOLHER o que comer. E acho que se alimentar bem mostra que você escolhe viver bem HOJE, agora. Mostra que você tem consciência de que você quer que seu corpo funcione BEM, agora.

Tem a ver com estar presente naquele momento, na sua existência naquele momento, sabendo que o “daqui a pouco” depende do “agora” e que só o “agora” importa mesmo. E que nenhuma refeição e nenhuma outra coisa na nossa vida deve ser feita ou perdida em vão.

Entendem?

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