Venha, novidade
Eu tinha certo abuso da nova geração, dessa moçadinha que nasceu a partir dos anos 2000, ou até um pouco antes, 1996, 1995. Eu não sei qual é a letra do alfabeto dessa geração, se é a W, a Z, a geração YOLO, sei lá. Mas para cada contra que eu encontro para essa geração, acabo tendo motivos para achar que é uma geração cheia de qualidades, também. Ai… A vida… Ai, o Yin Yang…
1- Eu diria que é uma geração toda tatuada, toda rabiscada, toda baseada na aparência. E também, para quem vê de fora, “promíscua”.
Mas é uma geração que sabe lidar com o bullying na escola desde cedo, que sabe lidar com a própria aparência desde cedo a fim de SE AJUDAR mesmo, de ficar mais bonito, de saber se vestir, de ousar nos cabelos, na aparência geral. Eu continuo achando grave esses meninos e meninas de 16 anos cheios de tatuagem e piercing. Mas espero que não sejam a regra.
Sobre a “promiscuidade”: se você parar para pensar, é a primeira geração que realmente respeita a homossexualidade, independente das suas causas, razões, motivações e origens. Não importa muito saber por que o gay é gay, pois há tantas pessoas maravilhosas por aí pelo mundo, que desrespeitá-las por causa da orientação sexual é um grande descaminho de energia, entende. Você trata mal, pela razão errada, uma pessoa que pode ter um mundo de criatividade, arte, conhecimento, amizade, graça e história de vida porque ela é gay. Enfim, acho que essa geração entende bem isso.
Essa também é a primeira geração que eu vejo nitidamente não castigar a mulher pelas costas porque ela “deu” na primeira noite, ou porque apronta mesmo, sem ser considerada “safada”. Tipo, as mulheres sempre tiveram suas aventuras, mas sempre houve uma fumaça de culpa, de julgamento. E acho que essa é a primeira geração em que essa fumaça não existe, de verdade. E para nós, falsos moralistas, parece que agora “tudo foi entregue ao Deus dará”.
2- Eu também diria que é uma geração que coloca confiança demais na internet, como a fonte de renda, a auto-estima, as amizades. É o offline perdendo para o online.
Sim, isso acontece, mas pasmem: dá para ganhar dinheiro na internet mostrando as coisas legais que você sabe fazer. E isso é ruim? Não. É errado? Não. E é uma alternativa às profissões convencionais. Sério, o Brasil é uma lata velha no ensino e na estrutura do mercado de trabalho. As pessoas não podem esperar o Sr. Governo reestruturar carreiras, criar legislações atualizadas, regulamentar outras. Os direitos dos trabalhadores e as previdências são feitos para ser material de notícia ruim. A educação é defasada, o currículo escolar se atualiza para ficar sempre 10 anos atrás do período atual. É triste, é muito triste, é triste principalmente para quem ainda é pobre no Brasil. E essa molecada de 15, 20 anos, quem tem acesso à internet, que tem criatividade, vai ficar esperando Governo Lava-Jato ter boa vontade, vai esperar o triunfo da competência/transparência/honestidade no Brasil, para que pelos “meios convencionais”, como educação institucional e mercado de trabalho “padrão”, a vida aconteça? Não vai.
3- Tá cheio de nem-nem, aqueles que nem estudam e nem trabalham por aí. Vagabundos.
Sim, os nem-nem são a galera nova, em idade de começar a trabalhar, mas que não estuda, nem trabalha. Segundo vi em alguma matéria de jornal, são cerca de 7 milhões de jovens nessa condição no Brasil. Mão-de-obra boa, ativa, saudável, cheia de gás. Parada. Vadiagem? Acho que explica melhor essa situação tudo aquilo que eu falei acima. Essa geração amadurece mais tarde, começa a trabalhar mais tarde, é mais exigente para entrar no mercado de trabalho, não curte as opções disponíveis atualmente e, chora-mundo, pode se dar o luxo de nada fazer, porque não quer. Isso é bom para eles sob certo ponto, mas é ruim para o contexto geral. Até porque se ficarem parados muito tempo, sem que novos estímulos apareçam, podemos criar uma massa de gente louca e desempregada e sem esperança por aí. Mas, se coisas boas acontecerem, acho que esse pessoal no marasmo atual pode trazer as novidades prementes que os governos da vida devem urgentemente absorver para se atualizar.
4- É uma geração desinteressada pelo que ocorre no mundo.
É. Acho que não se interessam por política, por economia, por coisas que aparentam muita seriedade e burocracia. Mas ao mesmo tempo em que não se importam com isso, fazem outras coisas acontecer. Não manifestam interesse pelo mainstream profissional, mas estão gratos por tudo o que papai e mamãe quadrados fizeram até agora e querem viver os frutos das conquistas deles, sendo bons-vivants do instagram. E quem sabe, quando chegar a ressaca material de uma juventude bem vivida às custas de papais quadrados, virá a reflexão sobre “como levar a vida de papai e mamãe, mas sem a chatice que eles viveram”. E pensar assim pode levar à reforma das instituições, da burocracia, das formas de governar povos, nações, territórios. Certamente, os futuros presidentes do mundo todo vão usar blusa pólo e irão de bike para o trabalho, como já acontece na futurista Holanda. Para uns, um descaso com a hierarquia, um desrespeito para com a elite intelectual/governante. E essa geração, sem querer, concretiza o fim da hierarquia simbólica, social, profissional e horizontaliza as relações de trabalho, de acesso aos bens de consumo, à cultura em geral. Faz tudo isso com muito mais igualdade/equidade, etc e tal.
5- Tá cheio de movimento de minoria por aí. Será o início da ditadura da minoria?
E SE FOR? Minoria não é minoria à toa. Minoria não é uma questão de quantidade, mas de percepção das possibilidades de acesso, de força da opinião, de quem é ouvido e quem não é. Nós, mulheres, para todos os efeitos, somo 50% da população mundial, e representamos uma MINORIA. Oi?
Essa geração é a geração das minorias, e muito mais que movimentos políticos/sociais, essa movimentação, para mim, representa um progresso enorme. Significa que cada indivíduo está superando questões existenciais básicas, está definindo seu tamanho, sua situação social no mundo e está relacionando isso com a sua capacidade de agir na sociedade, de formar sua opinião no mundo. É algo tão importante, as pessoas estão elevando o nível de suas preocupações do nível individual para o nível coletivo. Por exemplo: a luta contra a ditadura da magreza e da “saradeza” é importante demais para as mulheres, pois nós precisamos parar de pensar apenas na simples auto-sutentabilidade da nossa beleza fabricada para pensar em OUTRAS COISAS, entende?
A geração atual, ao mesmo tempo em que é extramente narcisista e cheia de selfies, apresenta a contrapartida de apresentar pensamento crítico a respeito da paranóia da aparência, e reflete sobre as razões da invisibilidade de alguns, sobre a falta de capacidade de muito de articular/forma opinião, para se sentir capaz de agir no mundo e de dizer o que pensa, de ser o que é.
Eu acho que os movimentos de minoria representam, em grande escala, essa revolução do auto-conhecimento, das pessoas tomando consciência de quem são para o mundo, de como o mundo funciona para elas, de como o mundo pode servir a elas e elas ao mundo. Eu ousaria com muita traquinagem dizer que é como no processo de “desalienação” de Marx: os trabalhadores, ao tomarem consciência de sua condição social e de sua posição dentro da rede produtiva do capitalismo, de sua posição nas relações sobre quem possui os meios de produção. concluem a situação não é favorável para eles e que o status quo tem de mudar.
Acho que está ocorrendo essa desalienação atualmente na esfera social: cada indivíduo percebe quem é e o que representa socialmente para seu meio. Toma consciência das relações de causa e consequência geradas por sua origem social, sua classe social, sua aparência física, suas limitações biológicas e físicas, pela quantidade de informação a que tem acesso, pela qualidade dos serviços e oportunidades que possui à disposição e percebe que DÁ PARA MUDAR, que pode ser diferente, e que, sim, todo mundo pode fazer a diferença. E acho que essa é a primeira geração que supera inseguranças individuais para se preocupar com essas questões, de alcance de maiores realizações na vida. Entende?
E agora, eu, que xinguei muito no começo, e sempre me espelhei nas gerações mais velhas, concluo que EU agora sou parte da geração “mais velha” aos olhos dessa galera de 20 anos para baixo. E concluo que aprendo demais com os “novinhos” kkkkkkkk e que as tatuagens deles podem até ser relevadas, mesmo porque em breve eu tenho certeza que vão inventar uma câmara retiradora de tatuagem adquirível em qualquer bom site. kkkk