Por um brincar livre

Acorda. Põe o uniforme. Toma café. Entra no carro. Vai pra escola. Faz lição. Come o lanche. Vai pro recreio. Faz mais lição. Entra no carro. Almoça. Vai pra natação. Vai pro judô. Vai pro Kumon. Pra aula de jazz. De circo. De patins. Volta pra casa. Toma banho. Dorme… Quem não conhece crianças que têm rotinas como esta? Crianças com rotina tão — ou mais — cheias que a de adultos; que não têm tempo livre (de ócio mesmo); e que não brincam!

“Ah, mas ela faz várias atividades; vários esportes!”
“Melhor do que ficar com a babá/avós em casa!”
“Os pais trabalham o dia inteiro. Não tem com quem deixar, pelo menos está na escola!”

De certo, existem muitas razões pelas quais as crianças são submetidas a tantas atividades. Alguns acreditam ser este um importante investimento para a vida adulta; ou apenas por falta de tempo dos pais. No entanto, não há como julgar se está se certo ou errado. Mas será que já paramos para pensar em que momento brincam essas crianças? Do que brincam? Com quem brincam?

SERÁ QUE ELAS BRINCAM?

O brincar é uma importante manifestação. É através dele que a criança desenvolve diferentes habilidades — cognitivas, psíquicas, motoras e sociais. Brincando, a criança cria vínculo com o outro, constrói sua própria identidade, assimila regras, aprende a ter paciência, a ganhar e a perder, a trabalhar em equipe e, mais além, compreende o que é o convívio social.

Se partirmos do pressuposto de que a criança se constitui, também, através do brincar, pode-se dizer que é por meio deste ato que ela assimila diferentes comportamentos, modelos e papeis sociais presentes em nossa cultura.

E QUE CULTURA É ESSA?

Em uma sociedade em que meninas ainda são ensinadas sobre “feminilidade”, a serem delicadas e passivas e meninos sobre coragem e força, os brinquedos e brincadeiras não ficaram de fora e — AINDA — são subdivididos por “azul para eles e rosa para elas”.

Contudo, essa divisão nem sempre foi assim. Até o século XIX, as crianças (tanto meninos quanto meninas) usavam, em sua maioria, vestidos brancos: primeiro pela facilidade para trocar fraldas e por ser mais barato. A historiadora Jo B. Paoletti (em Pink and Blue: Telling The Boys from the Girls in America) explica que foi apenas após a Primeira Guerra Mundial que outros tons foram incluídos nas vestimentas.

No entanto, surpreendentemente e diferentemente dos dias atuais, o rosa era a cor “do menino” e o azul era a cor “da menina”. O rosa era visto como uma variação mais clara do vermelho — que, por sua vez, remetia à coragem e força por tratar-se de uma cor quente. Já o azul estava associado à bondade, delicadeza e tranquilidade. Não se sabe, ao certo, quando foi feita a inversão das cores, postulando o rosa apenas para meninas e azul para meninos, porém, acredita-se que tenha começado após a Segunda Guerra Mundial. A consagração desta divisão veio em meados dos anos 80, quando a indústria percebeu que era uma grande oportunidade mercadológica: brinquedos de meninas x brinquedos de meninos.

Ou seja, não existem razões genéticas, tampouco raízes ancestrais que “justifiquem” e “comprovem” a preferência por alguma cor ou brinquedo, mas sim toda uma indústria interessada por trás. Essas “pequenas” divisões implicam em desigualdades na medida em que o que é visto como “de menina” se torna inferior. As desigualdades de gênero impostas no nosso dia a dia são fruto de uma consciência e paradigma já “pré-estabelecidos” que foram construídos e vem sendo mantidos. Opressão, perpetuação de estereótipos, violência física e psicológica são apenas alguns exemplos das consequências da falta de preocupação com a abordagem desta temática desde a infância.

Entre as idades de 3 e 5 anos, as crianças começam a desenvolver sua identidade de gênero e a entender a diferença entre “menino e menina”. Quase imediatamente depois de se tornarem cientes disso, começam a desenvolver “estereótipos”, que se aplicam a si mesmos e aos outros, em uma tentativa de dar sentido e ganhar a compreensão sobre a sua própria identidade. Esses estereótipos são razoavelmente bem desenvolvidos entre os 5 e 7 anos de idade, tornando este um período crítico para lidar com a temática.

Quando internalizados, os estereótipos negativos impactam no entendimento que a criança tem do mundo a sua volta; na sua autoestima; e até mesmo em seu desempenho acadêmico. É, portanto, papel do adulto desenvolver um senso positivo a respeito das questões de gênero e equidade, trabalhando ativamente para neutralizar preconceitos e reduzir danos, contribuindo para a construção de uma infância sem violência física, psicológica e autônoma.

É preciso, urgentemente, voltar nosso olhar para a necessidade de uma educação livre de estereótipos de gênero. (Escrevi um pouco mais sobre isso por aqui.). O que ensinamos para as crianças quando dizemos que bonecas não são para meninos? E que carrinhos, jogos de bola e lutas não são coisas de menina? Devemos quebrar com esta lógica que só faz perpetuar desigualdades.

Que tal praticarmos um olhar cuidadoso à infância?

É necessário nos colocar em reflexão acerca do tema. Criar ambientes e espaços de brincar nos quais não haja diferenciação por gênero é importante para que meninos e meninas tenham acesso às mesmas oportunidades e escolhas e façam do ato do brincar um momento sem pressões sociais e seguro para se expressar de forma livre.

Texto escrito para o Blog da Caixa Cosmo

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