O papel da mosca
Vermelho. Longe de qualquer sombra, o sol parece me queimar em cada átomo constituinte do meu braço — de coloração já obviamente diferente do outro — além de um calor sufocante, uma certa dor começa pequena nas pontas dos meus dedos, enquanto meu estômago expressa sua mágoa pela comida apimentada de pouco.
Acostumada a qualquer desconforto, minha mente já não processa as ruas, nem as calçadas, e vaga por histórias fictícias e aleatórias que cria, alimentando meus devaneios — quase sempre infantis e estultos — diante da vida, mantendo-me alienada do que o mundo insiste em considerar real.
Preciso escrever para o blog. Impressionante, desde o café-da-manhã não tenho mais nada com que me preocupar além do fato de que preciso escrever para um blog. Perturbador, também, é que no processo de tantas circunstâncias nenhuma palavra me ocorre, em absoluto.
Uma mosca entra pela fresta da janela, ligeira e impaciente como quem tem pressa. Verde, daquelas que não podem evitar seu destino e viver sua mediocridade (não entendo o papel das moscas) em apenas um dia. Se minha vida se resumisse em apenas um dia, eu também teria pressa.
Um dia decisivo. Ação e pensamento orquestrados com dinamismo e singularidade, pode soar desesperador para a maioria, para mim, poderia ser a salvação. Não racionalizar a vida seria, quem sabe, a exata dose de ousadia que me falta para acabar com o medo. Aceitar gostos amargos seria como colocar minha língua à prova, ao invés de passar uma vida sabendo apenas da insossa saliva diária.
Sim, tenho pressa. Mas o semáforo continua vermelho.
*Repostado de um blog, vindo de um tempo longínquo em que ainda se escrevia em blogs.