A TESTEMUNHA

@Thaty Marcondes

As horas corriam desatentas: ponteiros atrás de si mesmos, numa louca caminhada apressada. Os minutos perseguiam os segundos que se atropelavam atrás das horas… Muitas voltas, trabalhamos tanto (disseram!) … Em vão… O desapego da precisão nas badaladas de hora cheia, hora e meia… Faltam quinze, suspirou o cuco. Um pêndulo teimava em se encostar ao outro, o disco central reclamava, as correntes rangiam o silêncio dos impotentes. Dependentes… Todo o maquinário, todas as roldanas, todos os encaixes, todas as porcas, parafusos, arruelas… O tempo, esse grande senhor, teimava em ser ameno, moroso, arrastado, tremendamente atrasado para as mentes doentes. A loucura tem pressa… Bate o coração em desalinho, o raciocínio em descompasso, a alma em desassossego, a vida bombeia sangue em ritmo três por quatro… falta um… uma falha… Compasso complexo: cheia, semicolcheia, lua nova, lua e meia, clave de sol sem fá… Onde, a música? Onde, o ritmo? Canto orfeônico. Or-fe-ô-ni-co, entendeu (aos gritos)?

Quanto a mim… Bem, tenho intimidade com Rivotril, Plasil, Gardenal, Lítio, Lexotan, Diazepan, Prozac, mas prefiro um coquetel noturno, como vodka com tomate cor de sangue, menta que apimenta o verde…

O gato… Foi o mio do gato. Aquele gato que mora dentro da parede. Ou terá sido o pio da coruja?

Sei que o vento assoviava um canto sofrido como o lamento das almas a correr em desespero por entre prédios e árvores, espiando janelas.

Um corvo esteve aqui e conversou comigo. Esperava, aflito, as badaladas da meia-noite, fumando seu charuto fedido. Eu nada disse, apenas ouvi. Então ele me convenceu, ao mostrar-me sua verdadeira face.

Doutor, afirmo que era ele: Edgar, agora transformado em ave de mau agouro!… Veja: o copo d’água ainda cheio e a pobre vítima afogada. Como pode? Ele afogou a pobre vítima com sua saliva fétida de fumo. Eu apenas emprestei os comprimidos, mas foi ele, eu juro! Maldito carnívoro sanguinário de asas! Fazendo-se educado, em lisuras a corromper-me nesse palácio grego.

Veja: esse acolchoado, esse branco invadindo o cômodo e tomando conta dos meus olhos, deixando-me sem ar, numa imensidão de eus que pairam sonâmbulos à minha volta. Acusaram-me sem pena ou defesa. Enjaularam-me como se fora um animal raivoso. Ninguém acredita no que houve. Fizeram-me imóvel, com amarras a apertar os braços presos ao peito em “x”, sem poder movimentar-me pelos jardins da imaginação. Mesmo assim implorei que me deixassem vê-lo. Só o senhor pode entender e amenizar minha dor, ajudar a olvidar as lembranças da noite de horror.

Não fiz nada errado, doutor. Juro! O senhor sabe que sou incapaz de qualquer ato de maldade. Tenho um compromisso com a natureza, estou em processo de transmutação, mas, desse jeito, minha evolução estanca e vou perder o prazo. Preciso urgentemente de seu socorro, para que eu não feneça desse jeito indecente e inescrupulosamente humano.

Doutor, posso imitar as borboletas? Queria tanto voar um pouquinho hoje… O senhor, por certo, após a cura milagrosa dessa alma que vos fala, será para sempre conhecido como grande cientista de mentes, aquele que libertou Lenora, arrancando de seu peito a pena cravada de um corvo, agora seca, sem nada mais a sangrar. Na última estrofe apenas a promessa, qual o grito derradeiro que ouvi sussurrado pela vítima: “Nunca mais…”.

Selecionado para publicação no livro colaborativo “O CORVO” — Editora Empíreo/2016

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