Eu Estive Em Frente ao Portão

Na terça-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi entrevistado pelo Jô Soares. Ponderando sobre a potência de estar no poder, mencionou uma história sobre um general que, após dominar durante quase uma vida inteira o país, desconhecia trivialidades do cotidiano, devido ao costume de ser acompanhado por um grupo de bajuladores.

Cardoso justificava tal narrativa ao apontar como, após o término de seu mandato de oito anos como governante do país, tentava retornar a atividades bobas que, na época como presidente, eram-lhe negadas: abrir uma porta, decidir por uma manhã preguiçosa em companhia de uma leitura.

O exemplo era uma história para observássemos como é natural, diante de um cotidiano de afazeres distintos, perder parte de nossa humanidade de atos simples. Metáfora que simbolizei ao observar como, nos últimos anos, não sentia nenhuma capacidade técnica de realizar qualquer tipo de ficção.

Há quatro anos, iniciei a produção de críticas desenvolvidas nos polos da literatura, cinema, quadrinhos e televisão. Análises formatadas para um público amplo, sem uma profundidade estúpida de uma academia, mas funcional para desenvolver boas opiniões com argumentos. Desde esse início vacilante, a escrita se desenvolveu com maior qualidade e foi se adequando aos meus projetos. Hoje dedico grande parte de minhas análises a histórias em quadrinhos e literatura.

Quando refleti sobre a relação passada com a literatura, tive uma sensação de desgosto diante do fato de que boas ideias para contos nunca sairão do porão mental. E que hoje, mesmo que estivesse mergulhado em um desejo de escrita, seria incapaz de produzir um conto que considerasse aceitável.

A argumentação crítica e, portanto, postulada minimamente em uma tese que justifica minha fala, fez com minha escrita transitasse por um viés analítico. A ficção, embora apoiada em uma composição tão trabalhosa quanto a argumentação, ainda se relaciona com uma mística criativa, um trabalho que requer maior calculo mental inicial. A princípio, para se desenvolver uma história, selecionar o ambiente onde la séria inserida, os bons personagens que transitarão de um ponto a outro, provavelmente, em uma jornada modificadora.

Ainda que as duas vertentes utilizem bases semelhantes, não me considero mais íntimo da narrativa como fui outrora. Reconheço que velhos amigos, se ainda mantém a chama do afeto, podem se reaproximar rapidamente. Mas, por enquanto, permaneço tímido diante da vontade de trabalhar novamente com as palavras sem nenhuma argumentação aparente.

Após quatro anos com quase 350 artigos desenvolvidos, há um cansaço natural devido a um formato padrão de uma crítica. Acrescente-se a isso, as indisposições diárias e, internamente, sinto que estou há passos de desejar um entreato. Um retrocesso a minha composição primordial, um retorno a épocas primitivas de uma floresta literária. Mas a sensação é tal qual a de um presidente fora de exercício tentando se readaptar ao mundo natural.

As palavras parecem estranhas quando disponíveis abertamente. Afinal, em uma crítica, há um código interno e externo que obedeço. De fato, parece obsceno essa liberdade. Em contrapartida, mudou-se também a maneira a qual lido com a escrita e, consequentemente, como vejo o mundo.

Antigamente, tinha sempre um caderno de bolso a mão para anotar qualquer ideia. Embora tenha insistido nos últimos anos, aos poucos, o caderno permaneceu mais em casa do que em minhas viagens. Observar a vida como um objeto inspirador foi retirado do meu cotidiano para enfoques específicos de observação e análise: livros, quadrinhos, segue a roda.

Por isso, ao tentar lidar novamente com as palavras, as palavras livres a qual denominei, sinto impaciência. É como se houvesse um desconforto sem nome aparente. Porém, sinto que é necessário mudar de enfoque.

Quando Chico Buarque escreveu seu primeiro romance, o fez devido a uma crise com a música. Alegava falta de inspiração e viu na escrita uma maneira de se manter inserido dentro do processo artístico. Hoje alterna entre um novo livro e um novo disco. Em entrevistas, afirma que o recomeço de cada atividade é como uma redescoberta. Tudo parece tão novo que tem medo de falhar, como se tivesse perdido as habilidades anteriores: o uso das rimas, das métricas, das melodias.

Compartilho desta sensação. Longe de me definir como bom ou mau escritor, a ausência de familiaridade com as palavras livres tem me incomodado. Penso que deveria retirar velhos contos das gavetas e tentar reescreve-los. Mas esbarro na questão objetiva que se mantem toante: qual a motivação de voltar a escrever a ficção? Não há mais nenhum capricho interno que me permita escrever como impulso. Talvez o prazer se foi e com ele a sensação de que a ficção, minha ficção, é menor do que meu trabalho como crítico.

Ainda assim, o trabalho crítico oscila, parece fraco, repetido e merece ser reformulado. A espera de maior conhecimento, maior ponderação. E, talvez, pelo cansaço, eu possa enveredar para um caminho a qual afirmo ser impossível ou potencialmente improdutivo para mim.

O amor que tenho pela literatura é inegável mas, agora maduro, não sinto mais a compulsão de escrever como motivação para preencher um papel. Ser um artista sem definição aparente não é funcional. Assim, não me parece o bastante para desafiar o papel em branco novamente.” Contar o que?”, me pergunto.

Voltar a literatura a contragosto ou, eu diria, estranhando as composições mais naturais, tornou-se um desafio. Uma reformulação de um eu cotidiano anterior que não mais existe. Não posso ponderar se este será o reencontro derradeiro, dos diversos reencontros que fazemos na vida. Sei apenas que, ainda descontente com a fase atual, tenho curtas opções. Com um único jogo disponível em mãos, devo apostar.

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