Capital paulista produz 12,5 mil toneladas de lixo por dia

Políticas públicas voltadas aos resíduos não surtiram efeito fora da legislação, apontam especialistas

Em 2015, o Estado de São Paulo foi responsável por 62.585 toneladas diárias de lixo. O termo correto, no entanto, é resíduo, pois não desaparece após o descarte. Para a educadora ambiental Patrícia Blauth, não há como jogá-lo fora, e sim devolver cada material para seu ciclo produtivo, na indústria ou na agricultura. A reciclagem trabalha com esse princípio: transforma resíduo em um novo produto. Apesar dos projetos criados para melhorar este cenário, os números pouco diminuíram.

A Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS) foi aprovada em 2010 e desde então incentiva ações para cuidar do manejo irregular dos resíduos sólidos e a eliminação dos lixões. Ela surgiu para impulsionar mudanças nos hábitos da população, desde a destinação apropriada até evitar a geração.

Conforme a PNRS, todos os municípios brasileiros precisam de um Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PGIRS). É um gerenciamento que cada cidade pretende realizar em um período de 20 anos, sobre os resíduos. Ele exige de governos, empresas e cidadãos a recuperação máxima dos produtos recicláveis. Desde 2012, a cidade de São Paulo conta com esse plano, reelaborado em 2014. Ele dá ênfase à separação dos resíduos, coleta seletiva e educação ambiental.

No entanto, especialistas destacam que, na prática, a execução dessas atividades é bem diferente do esperado. “Existe um planejamento de primeiro mundo no papel, mas o gerenciamento ainda é ineficiente”, indica o gestor ambiental Jetro Menezes. Apesar da boa recepção dessas novas políticas públicas, muitas instituições e indivíduos não a seguem fielmente. Essas medidas vão surtir efeito caso a supervisão se torne parte do projeto. “Falta fiscalização, educação ambiental e arranjos institucionais para responsabilizar as empresas geradoras de resíduos nocivos à saúde e ao meio ambiente”, ressalta.

35% dos resíduos produzidos diariamente em São Paulo poderiam ser reciclados

De acordo com o livro Gestão Contemporânea dos Resíduos Sólidos, do Instituto Macuco, na capital paulista a coleta do lixo convencional se aproxima a 100%. Em relação aos recicláveis, o número cai para 78%. “A coleta seletiva da prefeitura ainda não abrange todas as regiões e grande parte dos cidadãos continuam a descartar incorretamente em aterros e lixões”, alega a educadora, bióloga e gestora ambiental Érica Sena.

Lixão

Ainda há muitos lixões em funcionamento. Um dos motivos dessa defasagem é o desconhecimento da população, produtora de 1,4 kg de lixo por dia, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE). “Faltam programas de educação ambiental que sensibilizem a sociedade para diminuir o consumo e alertem a importância de separar o lixo”, esclarece.

Conforme o Ministério do Meio Ambiente e o Panorama dos Resíduos Sólidos do Brasil de 2015, feito pela ABRELPE, quase 30 milhões de toneladas de resíduos foram parar em lixões, isto é, dos 5.561 municípios brasileiros, 3.346 continuavam realizando tal descarte. Em 2016, o número caiu para 3.334. Somente os paulistanos produzem 12,5 mil toneladas de lixo diárias. Destas, 3% são destinadas à reciclagem. Este reaproveitamento poderia ser de 35% do total.

Melhorar a gestão pública, aperfeiçoar a coleta seletiva e pensar em leis mais punitivas são as sugestões dos especialistas. O diagnóstico individual de cada região da metrópole, levando em conta a sua realidade isolada, pode ser uma alternativa: “Assim atendem as necessidades locais e ampliam a participação dos cidadãos para diminuir os impactos dos resíduos sólidos nas grandes cidades como São Paulo”, propõe Jetro. Além disso, a educadora Érica não descarta as campanhas de educação ambiental com enfoque nos 5R’s — repensar, reduzir, recusar, reutilizar e reciclar.

O gestor ambiental e permacultor Diego Rizzo, acredita na educação ambiental como engajamento e sensibilização dos cidadãos. A dificuldade está no fato de que isso depende, principalmente, da aceitação da população. “Não podemos obrigar um indivíduo a estudar e se informar sobre o assunto. É uma escolha”, enfatiza.

A Cidade de São Paulo possui o Programa de Educação Ambiental e Comunicação Social em Resíduos Sólidos — PEACS. Ele motiva a realização de atividades com caráter pedagógico e o consumo sustentável. Porém, o PEACS não é desenvolvido na prática. Um Projeto de Lei do Senado, ainda não sancionado, inclui a educação ambiental na grade curricular tanto do Ensino Fundamental quanto do Médio.

Nas ruas

Jesus de Assis é catador há 8 anos. Apesar de ser operador de perfuradeira, ele encontrou na reciclagem uma alternativa ao desemprego. “Vale a pena trabalhar com isso porque é um material que você não compra, e sim pega ou ganha”, conta. O retorno varia entre R$1.000 e R$1.300 mensais, trabalhando de domingo a domingo. “Ganhamos por centavos, então preciso juntar uma tonelada de papelão pra ganhar R$150”, explica.

“Preciso juntar uma tonelada de papelão pra ganhar 150 reais”, conta Jesus

É indispensável a separação dos resíduos para não prejudicar o meio ambiente. De acordo com Assis, poucas pessoas fazem isso: “Infelizmente está tudo misturado no meio do lixo. Se você quiser pegar tem de abrir os sacos e tirar os materiais, senão o lixeiro leva embora”, diz. Porém, ele já foi humilhado por isso: “Fui chamado de mendigo. Pensam que catador de papelão é um coitado, entretanto, este é um serviço sincero e honesto”, revela.

Quando começou a trabalhar, Jesus utilizava um carrinho de mão, mas após cinco anos conseguiu comprar um carro.

Além da reciclagem, projetos sustentáveis fáceis e baratos podem ser feitos pela população. Rizzo dá o exemplo da compostagem, processo onde a matéria orgânica é transformada em adubo. Para ele, a gestão descentralizada dos resíduos é válida. “O caminho participativo e colaborativo desenvolve várias alternativas bacanas para serem implantadas em São Paulo”, finaliza.

Matéria produzida em parceria com Mábily Regina, para o jornal FAPCOMUNICA, da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação .