As kombis que encontrei por aí

Uma história sem sentido nenhum (e esse é o propósito)

Thaynara Moretti
Nov 3 · 4 min read

Não sei te dizer quando a ansiedade entrou na minha vida. Eu era uma criança, brincando com meus brinquedos e de repente, estava sentada num consultório com uma psicóloga de óculos redondos dizendo “conta até 10 inspirando bem fundo e depois expira contando de novo”.

Tinha aproximadamente 14 anos nessa época. Meus pais tinham mudado para Manaus (AM) e não tive outra opção senão ir junto. Todos os dias se resumiam em pensar quando voltaria para São Paulo, quando reveria meus amigos, quando meus sonhos sairiam do “pause” que a vida deu… Pode ser que foi aí que tudo começou.

Voltei para São Paulo, mas a vozinha continuava na minha cabeça e ao invés de dúvidas sobre uma possível mudança, eram questionamentos sobre o que raios eu seria quando crescesse. Algumas dúvidas mal resolvidas aqui e outras ali me tornaram ansiosa e afetaram no meu sistema químico.

São quase 10 anos vivendo com ansiedade. Houve dias que quis que tudo desaparecesse e outros que a sede de viver era tão grande que queria todos os dias de uma vez só. No começo, me recusava a aceitar que não estava bem e precisava de ajuda. De uns anos pra cá, tenho aprendido a conviver com ela e tratá-la como uma amiga.

Costumo dizer que a ansiedade já não é mais o meu monstrinho, ela faz parte de mim. A pessoa que eu sou que sente, sonha, almeja, quer, investe e faz. Chegou num ponto do meu tratamento que criei alguns métodos para aliviar os sintomas. Atenção plena em atividades simples como tomar banho, pentear o cabelo, brincar com o meu cachorro, respirar consciente, etc. E o mais importante: o caça às kombis.

Sempre achei kombis um automóvel curioso. Não é um carro, nem uma van e nem um caminhão, mas pode fazer um pouco a função de cada. Com seu aspecto rústico e não tão glamourizado, as kombis têm se tornado cada vez menos comuns nas ruas. Foi aí que nasceu a mania de procurar kombis enquanto eu ia pro trabalho.

Comecei a andar não mais refletindo situações da minha vida ou me agoniando pelo que pode acontecer, mas caçando literalmente kombis pelo caminho. Prestava tanta atenção que um dia achei uma moeda de 50 centavos no chão e guardei de lembrança, porque antes andava tão imersa na confusão mental que isso seria impossível.

Teve dias que colocava música no último volume e ia olhando todos os cantos. Reparei mais no verde lindo que tem no caminho, as ruas que são bem quentes no calor, uma padaria de esquina que nunca tinha visto, um senhor que sempre limpa a rua cantando, uma menina que passeia com um cachorro igual ao meu, um casal que sai juntos para trabalhar todos os dias, um menino que sorri pra mim sempre que eu passo (um dia sorri de volta) e enfim, passei a reparar tanta coisa que, de repente, não se tratava mais só de buscar as kombis.

Acho que encontrei umas três ou quatro kombis desde que iniciei a caça. Às vezes me lembrava de fotografar e outras ficava tão feliz porque (finalmente) encontrei uma que nem lembrava dessa pressão do registro. Quando encontrava, prestava atenção nelas, se contavam uma história, a cor e a textura do capô. Eu que sempre desanimava com tudo, ao me ver animada com uma kombi, comecei a entender algumas coisas.

A vida é feita de pequenos momentos. Deixamos muitas sensações passarem por vivermos preocupados com o amanhã e com um possível sentido de estarmos aqui. A busca pelo existencialismo tem nos deixado doentes. Ao tratar cada segundo do nosso tempo como único e irreversível, passamos a enxergar as circunstâncias com mais ternura e gratidão. De que vale termos tudo resolvido do porquê estamos aqui e o que queremos dessa existência se não sabemos aproveitar o que cada dia nos oferece?

Ta tudo bem querer encontrar um propósito. Tudo bem querer fazer a diferença dentro da própria perspectiva. Tudo certo em querer mudar. O que não podemos fazer é perder aquilo que nos torna únicos e diferentes: nossos pequenos momentos. Rir a toa, tomar chuva, sentir cheiro de grama, correr na praia, abraçar os avós, andar de mão dada, passarinho cantando na rua, textura do cabelo da pessoa amada, etc. Então voltando ao que dizia, o que me surpreendeu mesmo ao estar caçando kombis por aí, foi que jamais imaginei me encontrar no percurso.

Celebre seus pequenos momentos. Faça seus dias contarem e não conte os dias. Viva intensamente cada segundo porque não vai voltar. E entenda que o mundo é um reflexo da forma como você o enxerga. O sentido da vida é a gente que dá, na realidade ele não existe. Tudo é uma questão de ponto de vista. Então a única pessoa no seu caminho, sempre será você mesmo.


Se quiser conversar mais sobre isso, me manda um e-mail e a gente pode bater aquele papo! thaynaramoretti@outlook.com

Thaynara Moretti

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Escrever é a minha arte — e meu abismo.

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