A vida é uma merda?

A vida é uma grande merda. Não tenho um carro do ano, não tenho casa, não tenho nada. Tenho um fusca velho caindo aos pedaços, moro de aluguel, sofro de rinite alérgica por causa da poeira que entra na casa todos os dias.

Não tenho amigos. Não tenho uma pessoa sequer para chamar de “amorzinho”. Sou um bosta. Não tenho diploma de universidade nenhuma. E, como vocês já devem saber, passo o dia todo reclamando. A grama do vizinho é sempre mais verde. A galinha, mais gorda. Além de tudo, sou invejosa.

Eu, no fundo, não consigo me animar com notícias de sucesso dos outros. Vivo me comparando com outras pessoas, exigindo o tempo todo que eu seja melhor do que elas. Ou, para ser mais sincera, que elas fracassem. Só assim mesmo para eu me sentir melhor.

Eu vivo reclamando. Não tenho gratidão por ninguém, nem mesmo quando me fazem favores inimagináveis. Sinto que é obrigação das pessoas me ajudarem. Em suma, não sou feliz.

E passo o dia todo tentando esquecer da minha infelicidade. Para isso, assisto à séries e leio livros. Posso dizer que sou feliz nesses poucos momentos. Mas, quando o livro acaba, a tela da série passa os últimos créditos, me lembro de quem sou. Me lembro dos meus infortúnios, das minhas preocupações, do meu estresse diário. E lembro, ainda, de coisas terríveis que fiz há anos, ou fico imaginando como será o futuro, e isso me sufoca tanto a ponto de mal conseguir respirar. Nesses momentos de ansiedade e sufocamento total, apenas uma coisa me aquieta por dentro: saber que tenho o poder de acabar com tudo isso. Eu sei que pode parecer egoísmo da minha parte, mas só de lembrar que eu tenho a opção da morte, que ela existe lá e eu posso usá-la como saída de emergência, já sinto minhas esperanças completamente renovadas.

Um dia desses, enquanto eu sentia a grama da praça nas minhas costas e braços, eu olhei para cima e vi. O que eu vi mudou tudo na minha vida. A Lua estava tão linda, e as estrelas, infinitas. O céu todo estava deslumbrante e também infinito. E foi aí que eu senti, pela primeira vez, parte de toda essa Criação. Essa criação que foi originada de uma sucessão incrível de acasos.

Eu me senti tão pequena e desprezível, um átomo dentro de um outro átomo, dentro de um Universo infinito e maravilhoso, que percebi que os meus problemas e as minhas preocupações não significam nada. Eu não significo nada. Sou apenas poeira de estrelas, apenas uma parte extremamente microscópica diante da imensidão do Universo.

E foi aí que pela primeira vez tudo mudou. Eu mudei.