os dois lados da moeda

e mais uma vez aconteceu. ele enviou a típica mensagem “oi, sumida”, como se eu não estivesse sempre ali, no mesmo lugar. respirei fundo e então respondi “oi, sumido”. conversamos um pouco e os quatro meses que passamos sem sequer nos falar se tornaram um pouco menos distante. ele perguntou se eu estava sozinha e essa foi a deixa para que eu o convidasse para tomar um vinho e assistir um filme qualquer.

passados cinco minutos, ele bateu à porta e eu tive certeza de que ele estava na frente do meu edifício muito antes do “oi, sumida”. cumprimentamo-nos e ― como sempre ― ele me trouxe um girassol. disse que era uma flor especial para uma pessoa mais especial ainda.

jantamos uma lasanha congelada e conversamos sobre assuntos aleatórios. como sempre, ele lavou e eu sequei a louça.

abrimos um vinho e eu coloquei click num aparelho de dvd antigo. desligamos na metade do filme e ficamos apenas no vinho e na conversa. ele esmiuçou os últimos quatro meses e eu lhe contei em detalhes como estava a faculdade.

o tempo voou, e às 2h15 ele disse que era hora de ir. respirei fundo mais uma vez e o convidei para dormir ali, já que estava tarde para dirigir e havia quatro garrafas de vinzelo sobre a mesa de centro. ele aceitou, e então eu arrumei um colchão na sala enquanto ele escovava os dentes no banheiro. na hora de deitar, após pensar muito, espontaneamente eu deitei no colchão da sala, junto a ele. perguntei-me se não era muito arriscado, mas não importava. eu queria aproveitá-lo ao máximo, pois sabia que pela manhã ele partiria. conversamos mais, trocamos beijos e carícias e enfim dormimos.

já pela manhã, acordei sentindo cheiro de café e bolo de caneca. sorri, fui até a cozinha e avistei o girassol em um vaso em cima da mesa e ao fundo ele tirando a segunda caneca do micro-ondas. naquele instante, desejei que aquele momento se repetisse todas as manhãs. ele me deu um beijo na testa e tomamos aquele café maravilhoso que só ele sabia preparar.

enquanto ele ajeitava a mesa, fui tomar banho. quando saí, ele estava sentado no sofá com a mochila nas costas. aquilo que eu chamava de “e lá vamos nós”—sim, como no desenho do pica-pau—mais uma vez chegava ao fim. eu sabia que aconteceria, e mesmo assim era doloroso aceitar. então mais uma vez fui forte, e sem dizer nada, abri a porta para ele. ele me beijou, dessa vez na boca, e disse que continuaríamos conversando. mesmo eu sabendo que não iríamos conversar, concordei. então mais uma vez o vi partindo. tranquei a porta, sorri e sussurrei “até mais” pra mim mesma. segui a vida, ávida pela próxima vez.


cheguei ao edifício dela às 18h05. passou uma hora até que eu conseguisse tomar coragem para enviar a típica mensagem. haviam se passado quatro meses desde a última vez. ela agora fazia faculdade, onde tem vários caras legais que com certeza a fariam mais feliz que eu. não queria atrapalhá-la, pois sabia dos efeitos que minha ausência causava. mas ela era a única mulher em que eu podia confiar totalmente. a única que me ouvia como ninguém. a única que me fazia bem. estava recordando nossos momentos felizes quando ela enfim respondeu “oi, sumido”.

meu coração bateu mais forte e meu sorriso foi de orelha a orelha. ainda havia chance para nós. conversamos um pouco e ela me convidou para subir tomar um vinho e assistir um filme. podia apostar que o filme era click. esperei uns cinco minutos para subir, não queria que ela desconfiasse que eu já estivesse ali. peguei o girassol e uma carta no banco passageiro, me olhei no espelho retrovisor e ensaiei subir. respirei fundo, larguei a carta novamente no banco e fui em direção ao prédio.

quando abriu a porta, avistei o apartamento decorado da mesma forma de quando o deixei pela última vez. ela estava linda, e merecia muito mais que apenas um girassol. cumprimentamo-nos, eu a elogiei muito menos do que gostaria e então fomos jantar. enquanto ela sorridente tirava a lasanha congelada do micro-ondas, tomei uma decisão: ela não merecia aquela vida de idas e voltas, então ou eu ficaria para sempre, ou partiria pela manhã e a deixaria viver sua vida com alguém que realmente a merecia.

jantamos e conversamos sobre coisas bobas. depois, eu lavei e ela secou a louça. formávamos uma ótima equipe.

abrimos uma garrafa de vinzelo, ela colocou click e deitou em meu peito. aquilo era bom. eu desliguei o filme e nos concentramos no vinho e na conversa.

foi muito bom poder contar o que havia se passado em minha vida, mas foi melhor ainda poder ouvir o que ela vinha fazendo. eu queria me acostumar com aquela vida, queria ouvi-la contar como foi o dia, e não os últimos quatro meses.

as horas passaram como se fossem minutos, e eu decidi que era hora de ir. ela me convidou pra ficar, e se mostrou toda preocupada comigo, porque havíamos bebido quatro garrafas de vinho e eu precisava dirigir por 50 minutos até chegar em casa. ela ajeitou um colchão na sala pra mim, mas a vontade mesmo era deitar-me com ela. surpreendi-me quando eu dei boa noite e ela deitou ao meu lado. nos beijamos, conversamos mais e eu a observei dormir.

de manhã, levantei cedo, coloquei o vaso de girassol em cima da mesa e fui preparar o café. sorri quando notei o quão organizada era, e o quanto eu aprendia quando estávamos juntos. então ela acordou e ficou me observando por um tempo na entrada da cozinha. eu sabia que ela desejava uma relação estável, e que passava por aquela situação porque realmente gostava de mim. tomamos café e, enquanto ela tomava banho, arrumei minha mochila e a esperei sentado no sofá olhando as fotos de paisagem que ela adorava tirar.

quando ela voltou, sabia que eu partiria. uma lágrima ensaiou escorrer, mas ela era forte. abriu a porta para mim, e eu lhe dei um beijo que sabia ser de despedida. eu queria ficar. aquele era o lugar certo com a pessoa certa. mas a vida não era assim. fui embora sem olhar para trás, deixando a pessoa que mais me fez feliz.

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