Cotas pra quê?

Animação Bino e Fino

Ontem, em uma decisão histórica, a USP aprovou o sistema de cotas. Uma vitória, já que a instituição é um dos grandes sonhos de vários estudantes, porém, com um vestibular dos mais concorridos do país.

Teve uma época, no auge da minha ignorância, que eu era contra cotas. “Nossa, isso é mais uma forma de racismo”, era o pensamento, assim como de várias pessoas. Mas vamos lá.

Temos uma população de 54% de negros, mais da metade. A maioria dessas pessoas são pobres, nem precisa pesquisa para saber disso, né? Quantos negros ricos vc conhece? Pois é. A qualidade de ensino nas escolas públicas não é das melhores (eu estudei em escola pública) e maioria desses alunos não têm grana para pagar cursinho, não tem uma estrutura familiar ou financeira para que eles se dediquem exclusivamente aos estudos, caso queiram passar em universidades públicas. Aí se eles quiserem estudar em universidades privadas, como que paga se é pobre e tem que, muitas vezes, bancar o sustento da família? Isso falando de maioria da população negra nesse país. Tenham calma.

Na maioria das vezes, você tem que decidir entre estudar pra entrar na universidade pública ou ir trabalhar para quem sabe conseguir ajudar em casa e pagar uma universidade privada (o que não é barato).

Vamos pensar além: Quem são os médicos que atendem vocês? Brancos ou negros? Quem é a moça do caixa de supermercado? Branca ou negra, na maioria das vezes? Seu chefe é branco ou negro?

Aí, como li em alguns posts e comentários, vc pode dizer “mas existe branco pobre”, mas é claro que existe, gente, e as cotas são raciais e sociais. Mas sabemos que muitas vezes as oportunidades de emprego para uma pessoa branca e uma pessoa negra são completamente diferentes. O racismo tão ali do ladinho fazendo o contratante pensar “esse menino negro tem o mesmo currículo desse menino branco, vou dar o emprego do branco”. Isso acontece muito, nem precisa dizer que tô mentindo.

Mas vamos falar de cotas de novo: quando você tem 54% de população negra e os cargos de “destaque” são de pessoas brancas, alguma coisa está errada. Não? Por que isso acontece? Cadê essas pessoas que não estão gerenciando bancos, não estão a frente de grandes companhias, não estão sendo médicos, advogados ou demais profissões que exigem curso superior? Será que esse povo todo sempre quis empregos mais modestos e não quiseram estudar ou eles realmente não têm acesso a um curso superior?

As cotas são necessárias para “corrigir” esse erro histórico e, quem sabe, daqui uns 40 anos, não sejam mais necessárias e aí a tal meritocracia funcione porque, meus amigos, nem sempre o esforço nos dar oportunidade. Eu me formei pelo sistema de cotas e pelo Prouni e se eu fosse esperar conseguir trabalhar, pagar aluguel, comer e ainda assim pagar cursinho para passar numa universidade, eu ainda não teria me formado.

Enquanto for notícia que fulano foi o primeiro negro a atingir tal cargo de poder, então ainda temos um longo caminho a trilhar.