Eu fiz um aborto

Texto originalmente publicado no Superela

A pedidos, a autora não quis se identificar.

Era aniversário da minha sobrinha, dia de festa. Afinal, o que mais alegre do que celebrar a vida? Que ironia! Eu estava apreensiva. Pudera! Acabara de descobrir que estava grávida. Em meio ao social, sorria. Era preciso disfarçar tamanho medo. Eu já estava decidida interromper a gravidez, antes mesmo da certeza. Eu fiz um aborto, mas a bula do remédio não diz quão dolorido isso é.

Havia planejado, uma semana seria o suficiente para os preparativos. Um exame aqui, outro acolá e o temido transvaginal. “Olha mãezinha, está bem pequenino, mas já dá pra ouvir os batimentos cardíacos”. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, estava ali escutando bater o coração de um ser que não significava nada, além de desespero. Eu estava desesperada com aquilo. Uma gravidez que não queria, algo não desejado, um parceiro que não era fixo, uma família sem condições financeiras e nem psicológicas para receber um bebê. O que eu iria fazer da vida? Era desesperador.

Remédio comprado, chegou o dia. Introduz aqui, abaixa, agora fica com suas pernas para o alto. É o tutorial, o que mais poderia dar errado? Meu coração acelera de medo, disfarço. Sou forte. Começam os calafrios. “É normal, logo cessa” é o que me dizem. Todos dormem e meu pensamento me julga, me condena e me questiona “e se você não conseguir?”. O medo atrelado às cólicas me aterrorizam. As horas passam e nada além de dor. O choro vem.

Já se passam 6h e as cólicas aumentam. No meio das pernas, sai sangue. Vou pro banheiro. Ligo o chuveiro na esperança de lavar a alma, as dores aumentam. Sento na privada e aguardo vir. A dica? Dar descarga sem olhar. Foi o que fiz.

⁃ Ei, você tá bem?

⁃ Eu tô! (No meu pensamento: “sou forte”, mas me sentia fraca)

Promessa cumprida.

Eu fiz um aborto. Mas o que a internet não conta é que você se sentirá sozinha, com medo e se culpará. Ela não conta que, além das dores físicas, seu psicológico te lembrará que esse trabalho é todo seu. Que a responsabilidade é toda sua e que é você sozinha que tem que lidar com o corpo expelindo algo que não deseja, a internet não conta que isso te acompanhará por dias, meses, anos e até a vida toda.

Ela te aconselha a fazer em um lugar que você se sinta confortável e familiar, mas não lhe alerta que voltar ali será reviver. Não te previne dos olhares, tampouco dos comentários quando o assunto vem à tona. Seus amigos? Pelo menos 80% deles te julgará, sem falar nos que você nem terá coragem de contar. A noite chega e a prece vem “queria ser estéril”, mesmo ciente do arrependimento que vem logo em seguida (leia mais aqui).

Seus relacionamentos nunca mais serão os mesmos. Sua vida sexual foi marcada. Um ato e a preocupação. Já se passaram 30 dias e chegou o dia de refazer os exames. O medo vem. A única batida que gostaria de ouvir é a do meu próprio coração. Eu fiz um aborto e talvez meu maior assassinato seja a minha paz.

Já faz 40 minutos que deixo a água cair, sobre minha cabeça e sob meus olhos, na esperança de me purificar. Hoje, pela primeira vez, me importei quando alguém me chamou de assassina e disse que eu jamais teria paz. Ainda choro. Passo a mão em minha vagina e penso “suja”. Penso em te mandar mensagem, mas eu sou forte. Amanhã passa.

Não quero ler seu “o que eu posso fazer?”, sei que é o seu melhor, mas é pouco.

Tô com medo de me arrepender de te procurar. Afinal, o que mudaria?

Tenho medo desse meu choro não passar de uma fuga de menina não amada querendo causar. logo eu que me julgava tão inabalável.

Não me julguem, sou humana.

Imagem: Ramona Zordini — via Pinterest