Para as mulheres

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Quando decido debater sobre feminismo com um homem, normalmente tento ser didática porque como são homens, eles não têm vivência sobre o que uma mulher sofre. Decidi adotar essa postura afim de tentar “educar” de uma certa forma. É claro que nem sempre a paciência reina, mas eu me esforço. Mas não acho que todas as mulheres que militam têm paciência e eu entendo perfeitamente, é desgastante mesmo.

Mas se com homens eu sou didática por questões óbvias, com mulheres que reproduzem machismo, eu sinto tristeza. Não que eu não explique e seja didática também, mas fico tão magoada a ponto de não conseguir responder muito algumas coisas. Algumas vezes eu consigo manter uma discussão, mas em outras, dependendo do que a mulher fala, eu fico imóvel. Fico paralisada por não conseguir entender como uma mulher acha que a dor da outra é “mimimi”.

Ontem fiz um post no meu Facebook sobre o perigo que os homens ~héteros, em sua maioria~oferecem no carnaval e as discussões foram intensas, dentre elas, mulheres me atacando (alguns comentários foram removidos), mulheres dizendo que eu preciso ir lavar roupa e várias coisas. E sabe? Elas estão no direito de discordar de mim, porém, não têm o direito de me agredir verbalmente. Mas felizmente eu acredito em discussões pela internet, porque acho que um ou outro a gente consegue conversar e entender os pontos de vista. Não há verdades absolutas e eu gosto do debate, desde que ele seja argumentativo e sem ofensas. No entanto, as ofensas, ultimamente, têm partido muito mais de mulheres. Isso me choca. Me choca porque estamos lutando para que elas tenham mais direitos e mesmo assim somos atacadas como loucas, histéricas e todos esses xingamentos óbvios.

Ainda voltando a falar sobre essa reprodução do machismo por parte das mulheres, é algo que é difícil entender, mas aí me lembro que eu também já julguei outras mulheres, e aí lembro de como os textos produzidos por feministas me fizeram sair da situação de caos em que eu estava — relacionamento abusivo, solidão, julgamentos. Me lembro ainda como foi bom saber que várias mulheres estavam juntas defendendo umas às outras e mesmo que as outras não compartilhassem dos mesmos ideais, ainda assim, era uma luta por todas. Porém, quando outras apontam, julgam, nos mandam lavar louça e apoiam covardias de homens, isso entristece, isso magoa e muito.

Não acho que mulher tenha que se denominar feminista ou militante ferrenha da causa, mas eu acredito muito que todas as mulheres podem se unir e defender umas às outras. Acredito muito que não temos que ser rivais, acredito muito que podemos ser solidárias umas com as outras quando a sociedade nos julga inferior, acredito que podemos nos compadecer umas das outras. Por outro lado, assim como eu já estive do lado reprodutor do machismo, creio que as mulheres ainda nessa situação só precisem de informação. Porém, quando vivemos num mundo em que todos os fatores externos nos influenciam, é mais difícil mudar esse tipo de pensamento.

O feminismo é igualdade de gênero, é a luta das mulheres por oportunidades iguais, é a luta para sermos vista pela sociedade como ser humano e não como um aparelho reprodutor. Mas quando a gente só olha o próprio umbigo fica difícil se colocar no lugar da moça assediada, da moça estuprada, da moça humilhada, da moça que recebe menos que o colega na mesma função, da moça gorda que é rejeitada, da moça xingada por ser mulher, da moça menosprezada por ser mulher, da moça que mal sai na rua a noite por ter medo de ser violentada, da moça que é abandonada pelo companheiro durante a gravidez, da moça que é impedida de usar roupa curta porque o rapaz na rua pode chama-la de puta, da moça que chora por não ser aceita.

No entanto, acredito que eu consiga dialogar mais e que mentes melhorem e criem seres humanos melhores que nós. Eu acredito que cada texto na internet vai servir para que uma mulher leia e consiga sair de uma situação de risco (como já aconteceu). Não tem como eu me calar para o que milhares de mulheres sofrem porque eu conheço essa dor de perto.

No mais, vamos continuar. Ninguém falou que seria fácil. E até as moças reprodutoras do machismo merecem nossa solidariedade, é difícil se ver livre dessa praga mesmo.