Sobre a geração tombamento, sobre padrão

Thayse Lopes
Jun 13, 2017 · 2 min read
Foto: Pinterest

Ter espaço de voz numa sociedade racista e misógina é complicado demais, ainda mais se você é uma mulher e negra. A dificuldade da mulher negra ter destaque é enorme. Quando ela não se encaixa nesse padrão da “ geração tombamento”, ela é silenciada ainda mais.

Numa pesquisa rápida na internet, vi que a denominação para “geração tombamento” é a valorização da estética das pessoas negras e suas atuações políticas dentro e fora do movimento negro. É uma forma de empoderar jovens negros. Acho incrível, de verdade, mas há coisas que me incomodam e somente posso falar por mim.

O que tenho visto é que esse “padrão negra tombamento desqualifica” e menospreza as outras mulheres negras que não se encaixam nesse estilo e não têm grana para bancar isso. A preterição da mulher negra já é tão evidente e ainda reforçamos isso quando “aceitamos” no nosso convívio apenas quando a moça tem tranças multicoloridas, muitas tatuagens, batons de todas as cores e roupas extremamente estilosas. Vocês acham que não? Recentemente, eu estava conversando com um amiga, também negra, e ela me contou que antes se encaixava nesse padrão tombamento e com isso era sempre convidada para melhores festas, ficava com os homens mais bonitos, era requisitada. Quando ela resolveu ser “mais comum”, percebeu o quanto os convites sumiram, como era silenciada nas rodas de conversas, como passava despercebidas nos locais. Ou seja, reforçamos o empoderamento pela estética e silenciamos as mulheres que não se encaixam nisso.

Ao mesmo tempo que valorizo as palavras de Rincon SapiciênciaQue pretas e pretos estão se amando”, temo que estamos amando apenas os estilosos, os tombamentos e estamos esquecendo dos outros perfis e os deixando de lado, assim como a sociedade faz há anos. Os espaços de voz para a população negra ainda são pequenos e me parece que estamos adotando comportamentos dentro do próprio movimento negro que silenciam uma população que não tem acesso à metade dos milhares de acessórios que nós temos.

Me parece que estamos dizendo às muitas meninas negras “se você não for estilosa, não tiver um tênis foda, umas tranças maneiras ou um black gigante, umas tattoos incríveis, uns batons coloridos, então, desculpa, mas você não pode andar comigo”. Me parece que a menina que mora na favela, que mal tem grana para comprar roupa, vai nos olhar e dizer “nunca vou ter R$ 300,00 para trançar meus cabelos”. Estética é importante? É sim. Mas não é só isso que importa.

O preto é lindo, mulheres pretas são lindas, sejam as tombamentos ou somente a moça que não curte se arrumar tanto. Essa que não curte se arrumar tanto tem que ter o mesmo espaço de voz que nós porque o movimento negro é união e não preterição.

Thayse Lopes

Written by

Journalist, photographer, social media. Author: www.tivesindromedopanico.com.br

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