Sobre bons moços, feminismo e solidão da mulher negra
Desde muito nova, aprendi que mulher que grita ou que expressa os sentimentos de forma mais enérgica é uma descontrolada, é histérica, é doida, é louca. Sempre foi assim, o machismo nos moldou a acreditar nisso. Aprendi também que se você chora, expressa sentimentos ou algo assim, você é fraca. Se você faz isso na frente do homem que está te deixando ou que se relaciona com você, você é mais fraca ainda, é coitadinha. Mulher tem que fazer isso em silêncio, às escondidas, é a regra. Com isso, fomos condicionadas a sermos seres angelicais, que choram de emoção, mas de tristeza, não, pelo menos não para algum homem olhar. Que riem, mas nada de gargalhadas com o volume mais elevado. Que demonstram sentimentos, mas nada de exaltar isso, se não é vista como louca.
Eu nunca consegui me encaixar nisso, porque sou intensa, sou enérgica, eu choro, grito, me estresso, eu digo “eu te amo”, eu repreendo quando precisa, eu não sei ser nada de delicada e nem angelical. Por isso, muitas vezes, sou vista como descontrolada, àquela que não sabe lidar com rejeição, a depressivazinha que não dar conta de lidar com suas tristezas, a “surtada” como me chamaram no Sarahah.
Mas quem sou eu para me esconder tanto? Eu não consigo ser diferente do que sou, eu demonstro, eu digo o que me doi, é claro que por ter me calado muitas vezes, isso se transformou numa ferida chamada depressão, mas eu to aprendendo a expor mais isso para que essa ferida sangre menos. Mas a depressão é outro papo. A questão aqui é como somos cobradas mesmo quando demonstramos o que sentimos, e como somos rotulada quando fazemos quaisquer coisas que expressem quem somos. Ser mulher é ser rotulada como insegura e surtada a todo momento, é não ser feliz demais ou triste demais, e mesmo assim ainda vão nos julgar, principalmente com quem nos relacionamos afetivamente.
Se relacionando com bons moços
Eu já me relacionei com vários tipos de caras, desde ao que quase me bateu, até ao que fez chantagem emocional, ao que gritava comigo, ao que me diminuiu, ao que me expôs. Com todos, sofri. Mas os que mais me magoaram foram os bons moços. Sim, os bons moços. Porque os bons moços — aqueles que falam manso, que parecem dedicados, que “são de família”, que dizem que você é maravilhosa o tempo todo, que te mimam — são esses que você nunca imagina que vão te magoar, mas quando acontece, é daquelas que são capazes de fazer você perder o chão.
Porque o agressivo, o machistinha nato, de primeira já mostra as caras, então, se você opta continuar se relacionando, você já está preparada — ou deveria — para a decepção. Mas o bom moço não tem esses traços e você se entrega. Quem não se entregaria? O moço “faz tudo” para que a relação ande, ele te leva aos céus para depois dizer “olha, não é bem assim, não foi nada disso, eu tô saindo fora, mas foi legal. Tá?”. Ou então ele aparece em um relacionamento com outra pessoa sem te avisar.
O bom moço te entrega flores e te espinha depois, é o primeiro a te rotular “eu nem fiz nada, mas ela ficou descontrolada”, é o que te afunda sorrindo e é o que ninguém desconfia que fará isso, é o que faz as pessoas duvidarem de você. Afinal, quem é que vai acreditar em você, aos prantos, falando daquele príncipe que fala manso? Eu creio que o desconstruídão/feministo/esquerdomacho é o mais perigoso mesmo. Porque ele sabe claramente qual é a nossa causa e tem muito bem alinhado o discurso pra seduzir as próximas.
O bom moço é o que faz posts imensos em apoio às causas feministas, mas quando se tratar do pau dele, ele não pensará duas vezes para te pisar e te tratar como inútil. É o que vai te diminuir com palavras sutis e tom de voz manso. É o que diz “mulheres no poder”, mas quando precisa pisar em uma, ele esquece o gênero, ele só pensa com o pinto. É o que faz você se questionar se está reclamando a toa ou não “como pode um homem desse ter feito o que fez?”, é o que ameniza toda a situação fazendo você achar que está exagerando demais.
Eu já sofri com homens assim, minhas amigas já sofreram também, as amigas das minhas amigas também e essa corrente não cessa. Não cessa porque sempre vai ter uma de nós que vai abraçar esse bom moço e dizer que não foi nada demais e ele vai continuar reproduzindo isso no próximo relacionamento e a corrente não se quebra. Enquanto continuarmos apoiando erros dos homens, nós não vamos pra frente. Vamos continuar sendo manipuladas.
A solidão da mulher negra X Bons moços
Vamos falar de racismo dentro desse contexto?
Mas o que tem a ver, Thay? Tem a ver algumas coisas. Já falei em um texto sobre a solidão da mulher negra e como isso impacta na vida afetiva de mulheres negras. Pois bem, vamos falar exatamente como isso acontece quando um desses bons moços resolve agir com uma mulher negra.
A nossa dificuldade em relacionar é muito grande, a hiperssexualização em cima dos nossos corpos faz com que sejamos sempre as boas de cama, mas nunca as que merecem ser assumidas. Aí quando aparece esse bom moço nos “dando o céu”, acreditamos que agora vai dar certo, quando a irresponsabilidade afetiva deles nos atinge, voltamos à estaca zero. É um lembrete gritando no nosso ouvido de que não somos merecedoras de algo tão bom, é a autoestima que vai até o chão e é outro lembrete de que se já foi difícil viver o céu com o bom moço, imagina quando vai aparecer outro novamente. Isso mexe com o passado de todas nós, com tudo o que fomos forçadas a acreditar, mexe com nosso ego.
Não é unicamente a irresponsabilidade, é o desrespeito conosco enquanto mulheres e em último lugar na pirâmide social.
Quando esse bom moço vem, ele sabe preencher todos os seus vazios para que você cada vez fique mais ligada a ele, mas quando ele precisa sair disso, ele arranca tudo de uma vez, fazendo àquela que já foi abandonada e menosprezada várias vezes, sentir novamente a sensação dessa dor. Mas como eles mesmos dizem, as mulheres negras são fortes e por causa disso, acham também que aguentamos qualquer coisa, que podemos nos ferir de todas as formas que isso vai ser suportado. Eu já ouvi isso.
Não estou dizendo que mulheres brancas não sofrem, longe de mim dizer isso, afinal, cada dor é individual. Mas para mim, que já fui tão trocada nos relacionamentos, isso tem um peso maior. Porém, eu continuo aí me relacionando e conhecendo gente nova, uma hora acerto ou não. Quem sabe?
Apaixonar-se é perfeitamente normal, é algo comum ao ser humano, ser mal caráter também, mas podemos escolher não ser. Podemos escolher sermos responsáveis pelo o que despertamos nas outras pessoas.
Moças, cuidado, se protejam desses bons moços.
