Sou negra, sou parda ou sou apenas moreninha?

Sou negra, sou parda ou sou apenas moreninha? Confesso que essa pergunta só começou a me incomodar depois que o racismo começou a aparecer para mim. Cresci ouvindo que eu era moreninha, negra não. Minha família sempre disse que éramos uma família de pessoas morenas, mas jamais negras. A gente não usava essa palavra. Não sei o motivo.

Desde cedo minha mãe nunca soube como “controlar” meu cabelo “rebelde”. Por isso, aos 11 anos, ele foi alisado pela primeira vez. Minhas reclamações com ele eram várias. Comecei a ficar adolescente, as coisas pioraram. Minha aceitação nunca acontecia e eu nunca sabia como eu era ou como podia me “definir”. Minhas amigas tinham “cabelo bom” e eu sempre ía à escola de cabelo preso, afinal de contas “domar o pixain era difícil” (era assim que as pessoas se referiam ao meu cabelo). Por querer sempre ter cabelo liso, ou eu alisava quando tinha dinheiro ou então vivia com ele preso. As piadas com minhas características físicas também sempre foram presentes, o rosto e o nariz largos também denunciavam minha etnia, mas eu não queria ser negra, não me falaram que eu era negra e nem que ser negra era algo bom. Eu me via apenas moreninha.

A adolescência é a pior fase para uma pessoa negra. Você quer se encaixar nos grupos da escola, você quer fazer parte de algo e quando você não tem referência, tudo fica sem rumo e perdido. Foi assim comigo. Não se falava muito sobre racismo, não se falava muito sobre quem poderíamos ser ou sobre o projetar para o futuro. Por um tempo, acreditei que seria empregada doméstica como minha mãe porque, na minha cabeça, era o máximo que eu podia conseguir ser. E não que ser empregada doméstica seja algo ruim, eu simplesmente achava que eu não poderia ser mais nada além daquilo, que eu não teria capacidade de fazer uma faculdade, por exemplo. E lembro que eu era incentivada a acreditar nisso. “Você tem que aprender a cozinhar porque quando for trabalhar, vai saber fazer comida boa para seus patrões”. Eu ouvi isso.

A adolescência também traz a rejeição por parte dos garotos. Suas amigas são brancas, os garotos namoram meninas brancas e uma menina negra aparecer namorando só se ela fosse muito bonita (padrão negra americana). As outras que eram “comuns”(eu), eram as que ajudavam na lição de casa, eram as que serviam para ser apenas colega de classe. E nisso eu me encaixava bem. Passei todo o colegial com o pensamento de que tudo bem eu não ser bonita e não arrumar namoradinhos, pelo menos eu era inteligente. E assim crescem várias meninas todos os dias, acreditando não ser capaz de muita coisa por não se encaixar num padrão aceitável.

Eu por Raphael Gallo

Durante a vida adulta, continuei me negando. Comecei a evitar pegar sol, queria que minha pele ficasse mais clara. Aliás, eu tenho a pele clara para uma negra e escura para uma branca, por isso, as dúvidas seguiam na minha cabeça. Eu continuava sendo rejeitada pelos homens e alisando o cabelo. Queria muito fazer parte de algo, me reconhecer em algo. Entrei na faculdade e comecei a ver meninas com seus cabelos afros e a ver também as várias piadas que elas ouviam. Inclusive, eu fui uma dessas pessoas que fez piada. Acho que era mais uma tentativa de dizer que agora meu cabelo era liso e eu não precisava ser vista como negra. Mas foi durante a faculdade que comecei a me reconhecer, o conhecimento traz empoderamento e foi o que aconteceu comigo. Uma colega de classe foi a responsável por eu me olhar e ver o quanto eu parecia com ela também, isso aconteceu em 2010. Parei de alisar o cabelo, comecei a ler sobre discriminação racial e comecei a perceber que se eu não tenho traços de pessoa branca, é porque não sou branca, mesmo tendo a pele um pouco mais clara.

Hoje entendo isso, mas naquela época, não. Naquela época, eu deixava passar. Deixei passar quando me chamaram de “preta feia”, deixei passar quando um entrevistado perguntou se eu iria tirar a peruca para falar com ele, deixei passar quando falavam que eu devia continuar alisando o cabelo porque parecia um ninho de passarinho, deixei passar quando um crush disse que gostava de “moreninha” porque elas eram melhor de cama, deixei passar quando me chamaram de macaca, deixei passar quando me falaram que eu parecia suja , deixei passar quando pediram para eu prender meu cabelo.

O racismo comigo é muito mais disfarçado, mas eu sei perfeitamente o quanto deve ser muito mais difícil para moça negra que tem a pele mais escura que a minha, para a moça negra que é gorda, para a moça negra que é mãe solo. O racismo vem em forma de brincadeira, é velado. E nós estamos tão acostumados com essas piadas que deixamos passar, deixamos passar toda a humilhação que nos fazem viver diariamente.

Agora, após me conhecer melhor, posso revidar contra as piadas em torno da minha etnia, posso falar, posso dar voz a outras mulheres que ainda são silenciadas e sofrem com o racismo diariamente. Denunciem sempre, seja qual for a ofensa.