Para ti, Forrest.

Essa não é uma história de amor e eles não acabam juntos.

A primeira vez que eu assisti Forrest Gump eu não tinha a menor noção da complexidade, do ensinamento e o significado que esse filme faria na minha vida. Era só uma tarde sem-nada-de-útil-pra-pensar e eu te pedi uma indicação de filme.

- Meu filme preferido é Forrest Gump e você é minha Jenny.

É assim que a nossa curiosidade é aguçada. Alguém te compara a um personagem fictício e você precisa desesperadamente descobrir o que aquilo significa com a mesma importância que Stephen Hawking precisava pesquisar sobre buracos negros. Sem exagero nenhum.

Você não tinha um QI abaixo da média e nem a pureza singela que o personagem levava na alma, mas tinha aquela ingenuidade boba e muitas vezes inconsequente que me fez encontrar um encanto descompromissado na trama — e em você, naquele maio de 2009.

Jenny foi sua fiel companheira desde os primeiros momentos da vida; na infância, o encorajava; conforme crescia, aparecia em momentos importantes da sua vida para ensinar o significado de lealdade e tranquilizar seu coração dos acontecimentos tortuosos do mundo — que ele via constantemente na sua vida agitada como militar e que, coincidentemente, era a mesma profissão que você exercia.

Foram encontros e desencontros durante todo um processo cinematográfico da mesma forma que foram encontros e desencontros na nossa vida real.

Jenny aqui. Jenny acolá. Dois amigos que o destino cismava em pregar peças e eles faziam questão de cair em todas.

Foi assim com a gente. Mas eles não acabam juntos.

Jenny era inteligente e independente, me identifico com todas as suas características. Ela desbravava o mundo em busca de liberdade, tanto física quanto espiritual. E eu era igualzinha.

O filme acabou na morte de Jenny com Forrest visitando seu túmulo pelo resto da vida. Nunca tiveram uma vida juntos, não aquelas vidas normais de gente que fica junto a vida inteira. Seu amor foi composto por episódios esporádicos de entrega mútua de uma liberdade que muitos não constroem em anos de casamento.

A gente foi assim por quase dois anos.

Mas na vida real, a vida muda a gente, outras gentes mudam a gente e a nossa personalidade é traiçoeira. O ser humano não é previsível como em filmes românticos.

A pureza do Forrest se transformou em inconsequência. O jeito sincero e livre de Jenny expôs sua alma. Essa não é uma história de amor. Essa é uma história humana sobre um quase amor.

Dessas que a gente começa como um roteiro dos sonhos e o tempo desgastante transforma os mocinhos em vilões da própria sorte.

- Meu filme preferido é Forrest Gump e você é minha Jenny.

Essa frase me ensina que a nossa leitura do mundo é feita a partir do momento em que vivemos. Adaptamos nossas emoções e senso crítico de acordo com a nossa realidade atual — que são compostas por mudanças constantes dentro de atuais e novos atuais mundos em que estamos inseridos.

Forrest amava Jenny como mulher. Jenny amava Forrest como amigo. Eu te amava como homem, você me amava como amiga. Na tua leitura, Forrest amava Jenny como amiga. Na minha leitura, Jenny amava forrest como homem, mas sua liberdade a deixava refém de alguns estigmas que a sociedade impusera a ela sobre as prisões de amar alguém.

As nossas personalidades eram contrastantes até para desenvolvermos um roteiro sobre as nossas vidas.

A morte de Jenny foi a morte da nossa história. Os encontros se acabaram com um ponto final impactante até para os mais esperançosos: um baque de desentendidos, traições e pressões da vida moderna que quiseram nos perecer.

Essa não é uma história de amor e eles não acabam juntos. Eles acabaram com um corte. Corte de cena. O conto precisava acabar antes que um novo reencontro os fizesse voltar a uma ilusão cinematográfica.

Eu precisava contar essa história assim como Forrest precisou contar a sua história sentado naquele banco, como na capa desse famoso filme.

Eu era um Forrest ou você era uma Jenny?

O final desse texto não faz mais sentido. Os personagens trocaram suas vestis assim como nossas experiências nos fazem mudar.

Eu precisava correr.

- Run, Forrest, run.

Nós precisávamos correr em sentidos opostos. E mesmo se a terra é redonda como nos ensinou Galileu Galilei, nós não nos encontrávamos do outro lado, porque essa não é uma história de amor e eles não acabam juntos.

Assim como Forrest e Jenny.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.