Contrapoetas
“Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar”. Ontem foi dia dele: Carlos Drummond de Andrade. Eu nem gosto de poetas, mas abro aspas para ele, não, para fala dele. Tenho vivido de escrever a fala dos outros mesmo.
Estou em modo automático. Ouvia os outros falando nisso, mas nunca entendi bem como funcionava. Até que estou aqui. Errando vírgulas, períodos, tempos verbais, mas nunca usando pontos finais. Sempre tentando. Sempre reclamando em baixo tom para não incomodar. Poupo dos meus lamentos e os acumulo dentro de mim. Ninguém merece mais do que já passa por conta própria. A vida, Deus, o destino se encarregam de dar o fardo a cada um.
Sem delongas. Findo com aquilo que rio – e ainda empobreço usando rimas e entrelinhas.
Quando você me ouvir cantar, venha! Não creia! Eu não corro perigo. Digo, não digo, não ligo. Deixo no ar. Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar. Tudo vai mal. Tudo. Tudo é igual quando eu canto e sou mudo. Mas eu não minto, não minto. Estou longe e perto. Sinto alegrias, tristezas e brinco. Quando você me ouvir chorar, tente! Não cante! Não conte comigo! Falo, não calo, não falo. Deixo sangrar. Algumas lágrimas bastam pra consolar. Tudo vai mal. Tudo. Tudo mudou. Não me iludo e, contudo, a mesma porta sem trinco, o mesmo teto e a mesma lua a furar nosso zinco. Meu amor, tudo em volta está deserto. Tudo certo. Tudo certo como dois e dois são cinco.
De Caetano, mas na voz de Gal. Uma delícia.
https://youtu.be/0vV6msFH7LU
