Do horrível que somos nós

Foto por Katie Chase no Unsplash

De repente, parece que o mundo deu errado ou está andando para trás — e nem tem a ver com o eclipse solar desses dias ou todas as teorias apocalípticas em torno dele. A coisa é muito menos mística, mais de carne e osso. Mais reveladora do horrível que somos nós.

Uma professora foi espancada por um aluno dentro de uma escola e houve quem achasse justo, já que poucos dias antes ela teria considerado válido que um certo deputado levasse uma ovada. Ovada, no caso, é um ovo de galinha quebrado na cabeça de alguém, aquilo que as crianças faziam (ainda fazem?) nos aniversários uns dos outros na época de escola. Além do ovo, jogavam farinha. Era uma meleca, mas me parecia bastante inofensivo. Não acharia equiparável a um espancamento. E acho que, por mais que as pessoas sejam contra jogar ovos na cabeça das pessoas por aí, precisam saber diferenciar uma ovada de um espancamento.

Foto por Kace Rodriguez no Unsplash

Só que uma professora apanhou de um aluno e houve quem achasse justo. Houve quem equiparasse uma ovada (além de tudo, dada por outra pessoa, não pela professora) a um espancamento. Espancamento, no caso, foram socos e chutes dados a ponto de deixar o rosto da mulher sangrando. E alguém achou justo que uma professora, no exercício de sua profissão, sofresse violência — isso já é o suficiente para mostrar que nós, enquanto sociedade, nos perdemos em algum lugar e escorregamos para dentro da barbárie. Nem o olho por olho e dente por dente vale mais, já que as equivalências estão distorcidas. Voltamos para antes do Antigo Testamento. Se alguém falar de amor ao próximo, então, é certeza que será crucificado. Talvez literalmente.

Outro caso ilustrativo: um rapaz de 23 anos foi estuprado em Minas Gerais, postou um relato numa rede social, e a primeira ação de alguns homens foi cobrar que as feministas, que lutam contra o estupro, se manifestassem. Pois, para eles, se as feministas só se preocupassem com o estupro feminino, não eram a favor na igualdade de verdade. Um rapaz havia acabado de sofrer uma violência, o criminoso ainda não havia sequer sido encontrado, e já havia quem usasse o assunto como motivo para briga com grupos dos quais não gostava (para quem tiver curiosidade de saber, grupos feministas se solidarizaram sim com o rapaz, só que os sujeitos que reclamaram provavelmente nem acompanhavam o trabalho de tais grupos para saber disso).

Também teve aquelas pessoas defendendo a “liberdade de expressão” mesmo no caso de apologia ao nazismo. Nazismo, no caso, foi (ou é?) um movimento de extrema-direita que rejeitava a luta de classes e apoiava teorias de hierarquia racial e darwinismo social, tendo matado cerca de 11 milhões de pessoas, entre judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, prisioneiros de guerra soviéticos, Testemunhas de Jeová e deficientes físicos e mentais. Nazismo não é uma ideologia ou visão de mundo, não é uma opinião. Seria como alguém achar que todos os ruivos, ou todos os canhotos, deveriam ser mortos, e achar justo defender essa ideia com base na “liberdade de expressão”.

Nota: até já houve um movimento que perseguiu ruivos e canhotos. Chamava-se Inquisição e perseguia pessoas “diferentes”, o que podia indicar que eram “bruxas” ou ligadas ao diabo. Inquisição, nazismo, a brutalidade dos dias atuais. É, não parece que mudamos tanto da Antiguidade para cá…