Barcelona x Atlético: A “ausência” de Messi

No meio da semana, o Barcelona foi eliminado da Champions League pelo Atlético de Madrid. Analisei os dados do jogo e o que me chamou a atenção foi em como a “ausência” de Messi interferiu no jogo. Veja o grafo abaixo:

A imagem se refere ao primeiro jogo entre as equipes. Os jogadores estão divididos por posições (sinalizado pelas cores), tem os passes como conexões e o tamanho do nó se refere a centralidade de intermediações, que é a frequência com que um jogador aparece entre as trocas de passes da equipe.

Repare que Messi aparece como o principal hub dessa rede. Ao todo, o argentino recebeu 92 bolas de seus companheiros, principalmente de Daniel Alves (20 vezes), que por sua vez recebeu a bola de Piqué outras 20 vezes. Do outro lado do campo, aparece Alba fazendo suas principais ligações com Iniesta (18 vezes) e Neymar (14 vezes). O brasileiro, inclusive, é o quarto que mais aparece entre as conexões do time.

Na tabela dos cinco atletas que mais aparecem entre os passes, estão Messi (8,28), Jordi Alba (6,69), Piqué (6,18), Neymar (5,02) e Daniel Alves (4,16).

É sabido que o jogo do Barcelona é construído pelas pontas, porém, neste jogo, o setor direito pendeu mais pela centralização das jogadas - e na imagem isso fica ainda mais claro. A bola saía com Piqué, que abria para Daniel Alves, que buscou jogar pelo centro, com Messi. Do lado oposto, apesar de uma tendência mais vertical, a bola também passeava mais centralizada, mas por conta de Iniesta: Alba recebia a bola de Mascherano, fazia a ligação direta com Neymar ou imbicava com o careca espanhol, pelo meio.

Apesar de Iniesta ter recebido mais bolas do lateral durante a partida, sua participação entre as ações gerais do time foi menor. E isso ocorreu por se manter mais preso a mesma zona de ação (setor centro-esquerdo) — tudo fica mais interessante quando fazemos o paralelo com Rakitic.

Os meias do time catalão, apesar não se esconderem do jogo, não participaram tanto das jogadas como Messi — o argentino foi o único atleta da partida a trocar ao menos um passe com todos os jogadores de linha de sua equipe. Isso fica mais evidente analisando o mapa de movimentação dos três, individualmente.

Rakitic, apesar de atuar mais pelo lado direito, flutua por outros setores do campo, mas sem tocar tanto na bola. Iniesta, por sua vez, ficou muito mais preso a uma faixa do campo (centro-esquerda), buscando troca de passes com Neymar (18 passes), Alba (17 passes) e Messi (13 passes), que atuou em uma região mais central, pendendo para o lado direito.

O resultado final foi 2 a 1 para o Barça, de virada. Mas aí veio o segundo jogo e as coisas mudaram.

A postura mais agressiva do Atlético de Madrid, por jogar em casa e precisar do resultado, impediu que o Barcelona tivesse sucesso no mesmo estilo de jogo que foi visto no Camp Nou. Povoar o meio de campo ajudou a tirar Messi do centro, onde jogou bem e desequilibrou na partida anterior. Mas o grande diferencial do time de Madrid, para mim, foi a utilização dos laterais.

A liberdade para atacar que Filipe Luis e, principalmente, Juanfran tiveram durante o jogo fez com que Daniel Alves e Jordi Alba tivessem que se preocupar com a marcação (principalmente no primeiro tempo), diminuindo a incidência das jogadas que funcionaram tão bem em Barcelona (Mascherano-Alba-Iniesta-Messi/Neymar; Mascherano-Alba-Neymar; Piqué-Daniel Alves-Messi). Um bom exemplo disso são os alvos de Iniesta: Alba (17 no primeiro jogo, 24 no segundo), Neymar (18 no primeiro jogo, 12 no segundo) e Messi (13 no primeiro jogo, 3 no segundo) — todos esse bloqueios fizeram com que o argentino recebesse apenas 44 bolas durante os 90 minutos do Vicente Calderón (menos da metade do primeiro jogo).

E todo esse blá-blá-blá é para explicar o grafo do segundo jogo: mesmo tentando, Lionel não conseguiu arquitetar as jogadas do Barcelona. A bola não chegava aos seus pés e, quando isso acontecia, suas opções eram limitadas. Por conta disso, Busquets aumentou sua frequência na troca de passes (no segundo jogo, o espanhol foi o único a trocar passes com todos os atletas de seu time), fazendo com que o jogo ficasse mais preso no setor defensivo do meio-campo.

Repare em como os nós dos jogadores de defesa, e sem tanta saída de bola, aparecem maiores e em como a constância dos jogadores de ataque diminuiu quase que pela metade entre os cinco principais atletas com maior frequência de conexões: Busquets (6,92), Messi (4,66), Piqué (4,03), Neymar (2,85) e Macherano (2,68). Isso é aplicação tática.

Mas por que a análise de redes é tão útil para uma análise de futebol?

Por que sempre há um padrão, um caminho comum a se seguir (até mesmo num jogo de futebol, onde isso não parece tão óbvio). Em uma entrevista para Cléber Machado, Juan Carlos Osório, quando treinador do São Paulo, disse que se Messi é impossível de ser marcado, deve-se marcar quem toca a bola para ele. E Simeone mostrou saber bem com fazer isso.