O isento
Já dizia um ditado “quem não conhece sua história está fadada a repeti-la”. Quem confirma isso é o seu João, dono do bar daqui da esquina. Por infelicidade do destino, e também por falta de conhecimento, comprou um lote de cervejas chocas para seu estabelecimento na semana passada. O que causou bastante fuá e reclamações no happy hour dos boêmios, pseudointelectuais e pseudofilósofos da universidade ao lado.
A lição, por mais dura que tenha sido, foi aprendida. E Pedro, filho do Seu Jão (como é conhecido), agora já sabe e evitará repetir o erro do pai no futuro: não comprar cerveja “zoada”.
Mas antes que eu me perca, mais ainda, a frase citada no começo deste texto não serve somente para casos e causos do cotidiano da nossa louca sociedade. Bom se fosse! A frase é indispensável para o momento em que estamos vivendo (para leituras futuras, o texto é de Agosto de 2017).
De fato, quem não conhece sua história está fadado a repeti-la. Entretanto, a quem essa frase se dirige é o que tem tirado meu valioso (para mim, ok?) sono à noite. Há aqueles que não a conhecem por ingenuidade, sendo os mesmos que no passado, ou atualmente, não tiveram chances e oportunidades de estudar, conhecer e saber e os acontecimentos.
Dessa forma, estes mesmos estão suscetíveis a reproduzir erros e pensamentos de um grupo de pessoas mais intelectualizadas, que às vezes se aproveitam da situação e perpetuam o status quo.
Atualmente a elite, que é um lobo, vem se disfarçando de ovelha. Quase sempre há a figura de um bom moço, que tenta apaziguar. Outro perpetua o senso comum na cara dura, mas de forma educada. Ou ainda surge um como justiceiro. Mas às vezes aparece um desmascarado e fala tudo o que dá na telha, sem se preocupar com o que pode acontecer.
Nos últimos dias, no estado da Virginia (EUA), para preservar os interesses da elite e da extrema direita, grupos autodeclarados como nazistas e outros como membros da Ku Klux Klan, saíram às ruas defendendo a supremacia e a superioridade branca, a homofobia, o xenofobismo, antissemitismo, a intolerância religiosa, etc.
Resumindo: o conservadorismo, na sua forma mais nua e crua, promoveu um show de horrores dignos como os vistos nas ruas alemãs na década de 30.
Nesta “festa do branco”, foram as ruas na sua grande maioria quem compactuava com as ideias extremistas. Porém, todavia e no entanto, o ato contou com mais um convidado especial: quem era contra esses ideais. Você já pode imaginar o que aconteceu: T-R-E-T-A.
Um homem, ligado a essa nova ‘juventude hitleriana’, atropelou uma multidão que estavam protestando contra eles. Originalmente, o desfile seria pacifico (como se isso pudesse ser possível). O que não aconteceu.
Em declarações, o falastrão, digo, atual presidente americano, Donald Trump, classificou o protesto dos ANTI-NAZISTAS como “violento e que fere a liberdade de expressão”. Bom, mas se tratando desse homem, sabemos quem ele é, o que ele defende (xenofobia, racismo, elitismo, etc, na qual se compactua com muitas coisas do que o grupo defendia) e que ele não tem problema nenhum em não tentar esconder isso.
O problema são as pessoas que compram esse discurso. O problema é quem é politizado, estudado e instruído, e que compra esse papo e consequentemente repercute entre os ingênuos. Com isso, se cria um novo grupo de pessoas:os isentos.
Se tratando de nazismo/fascimo, como diria o Arnaldo, a regra é clara: não há dialogo e nem meio termo. Mas para o isento, impedir e atacar as manifestações nazistas é atacar e ferir a democracia.
Para o isento, não há problema nenhum esse desfile ocorrido, aliás, “qual o problema disso? Isso é garantir o direito de expressão!”. Para o isento, não há problema se a policia, no dia da passeata, estava lá para DEFENDER os manifestantes em gritar suas idéias nazistas e não detê-los. Para o isento, a policia agiu certo em prender os que atacaram os nazistas, porque esses sim são os ruins da história, pois feriram a democracia e a liberdade de expressão.
Para o isento também, apesar dele não gostar, ou não se importar para esta ameaça, do nazismo/fascismo, os dois lados do ato são farinha do mesmo saco. Quando questionado sobre o perigo de se permitir o nazismo e de suas mortes, ele estufa o peito, ergue e a voz, e diz convicto de seu argumento: “Mas e o comunismo?! Não conta?! Stalin matou mais de 300 trilhões! Sua indignação é seletiva!”.
Para o isento, não há diferença entre quem ataca a minoria e de quem a defende. Isso porque, para o isento, há uso da violência (física ou verbal) para garantir os direitos das minorias, porque pra ele “quem usa de violência perde a razão”. E para ele, ninguém o precisa defender, pois ele é ‘deboísta’.
Não é segredo que esquerda é inimiga da direita e não apenas adversária politica. Mas para o isento, as duas são a mesma coisa. Para o isento, o comunismo e as pessoas que lutam contra os abusos da intolerância — no caso os nazistas — são tão violentos e intolerantes contra quem lutam.
Diz o ditado que quem não faz nada, pelo menos não atrapalha. Mas para o isento, isso é o contrário. Se tratando de discursos de extremismo, nazismo e fascismo, a isenção é tomar partido. Pois defender estas “liberdades de expressões” (nem preciso dizer que isso é ódio disfarçado de opinião e de expressão), é defender nazista SIM.
Logo, o isento é tão inimigo quanto os nazistas para aqueles que foram protestar contra o desfile hitleriano. Agora, se tratando de isento, fica o ditado: “quem se cala, consente”.
Há que se pensar nesta situação sobre o paradoxo da intolerância. Para Karl Popper:
“Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto destes.” (The Open Society and Its Enemys, 1945).
Karl Também diz: “ “Nós devemos portanto declarar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante.” Logo, não há possibilidade de manter na normalidade discursos intolerantes como liberdades de expressão numa sociedade que se preza pela tolerância.
E um detalhe: Karl Popper foi um dos nomes mais famosos da filosofia liberal. Filosofia esta que muitos isentos seguem. Na realidade, muitos se dizem liberais, mas estão disfarçados, sendo pré extremista também.
Dito isso, realmente, quem não conhece sua história está condenado a repeti-la.
