Os meus 20 anos e a crise existencial da meia idade

(Afinal, eu posso morrer aos 40 anos)

Se a vida tivesse um manual, aquele período sombrio dos 20 até os… bem, talvez até os 26 anos, seria um capítulo denominado “Tudo aquilo que não te ensinaram na escola, de uma vez só. Pegando fogo. Enquanto você equilibra pratos em um monociclo. Que também está pegando fogo.”. Parece exagerado, mas a partir do momento em que decidimos fazer uma faculdade, nos tornar adultos, buscar nossa independência, arranjar um emprego e ter uma vida social, percebemos que esse período da vida está muito bem descrito neste capítulo fictício.


Felizmente, nunca tive sofri com meus familiares me dizendo o que eu deveria fazer de faculdade. Foi decisão minha fazer Publicidade e entrar na faculdade com apenas 17 anos (faço aniversário no final do ano, então a disparidade com o resto da galera costuma ser alta). Tudo estava lindo e maravilhoso, até eu chegar na época atual e perceber que 4 anos se passaram e eu não cheguei a lugar algum.

Não possuo um emprego em agência, o conhecimento que eu obtive vai me servir pro resto da vida mas de vez em quando aparece um gosto amargo na boca e eu paro pra pensar “Eu poderia estar escrevendo um livro, guardando essa grana, dormindo…”.

É frustrante pensar que, quando saímos da escola, estamos preparados para uma prova em que devemos reproduzir um monte de merda que decoramos e nem ao menos aprendemos de verdade, mas não sabemos NADA sobre como a vida adulta funciona. Esse tempo gasto na preparação pro vestibular poderia ter sido utilizado com aulas sobre como funcionam impostos, como gerenciar seu dinheiro e outras coisas que REALMENTE utilizamos no cotidiano. Eu só fui aprender como essas coisas funcionam depois de me foder (no sentido monetário) e eu aposto que muitos que vão ler isso aqui, passaram por uma situação parecida.

Eu vejo amigos meus acabando de entrar na faculdade, todos felizes, alegres por essa nova etapa, pelo menos até certo ponto e então me viro pros meus velhos companheiros de guerra que me acompanham à 4 anos. Crises de ansiedade, incerteza sobre como seguir dali pra frente, problemas na família, noites sem dormir, pagar as contas… Tudo isso e a maioria deles não chegou aos 26 anos. O que aconteceu com aquela pessoa jovem e cheia de vontade que entrou na faculdade? É bizarro notar como o mundo é cruel neste sentido. O mercado de trabalho cobra uma experiência a qual não conseguimos ter, afinal, para termos experiência, necessitamos trabalhar e para trabalhar precisamos fazer cursos (além de faculdade) e sermos os melhores na entrevista e para isso, precisamos de tempo e não sei se percebeu, mas não temos esse tempo livre. Existem aqueles que tem sorte de conseguir ter a vida encaminhada nessa altura. Falo de sorte, por que a probabilidade de você se foder nesse período é bem alta.

Além disso, existem as interações sociais. Talvez eu seja meio recluso, o que não seria nenhuma novidade, mas as pessoas no geral cansam. Tenho um círculo de pessoas com quem eu GOSTO de conversar e tem um círculo ainda menor de amigos. Eu realmente me esforço pra manter essa galera perto de mim, por que eles significam alguma coisa. E todos são humanos, com seus problemas, vidas, defeitos, hobbies e estranhezas. É complicado administrar tudo isso sem ter algum colapso psicológico. É ainda pior quando percebemos que “Isso é bobeira, você tem só 20 anos.” é a resposta padrão quando você diz pra alguém que está estressado e a beira de explodir.

Nessas horas, você cansa das pessoas e resolve ir ler, passar horas no Tumblr ou lendo artigos randômicos na internet, fazer maratona de séries, jogar videogame… enfim, qualquer coisa que não necessitem do contato humano, apenas para manter a saúde mental por algumas horas. Veja bem, por algumas horas, não pro resto da vida. Eu ainda tenho um problema mais sério que é querer sair de casa mas simplesmente não sentir vontade e me sentir COMPLETAMENTE deslocado, e não é por falta de tentar. E eu sei que não sou só eu. Você sente uma ansiedade, enjoo e uma vontade gigante de desaparecer. Tudo isso por que te convidaram para ir num boteco tomar alguma coisa.

Junto disso tudo temos brigas com pessoas que gostamos, decepções amorosas, pessoas que chegam numa fase da vida e mudam completamente, pessoas que se afastam. Rola uma verdadeira manutenção no círculo social quando você chega nessa idade, mas por ser a primeira (provavelmente) de muitas, é a mais impactante e traumatizante. É um tapa na cara, seguido de uma bica na boca do estômago e alguém gritando no seu ouvido “BEM VINDO À VIDA ADULTA. É UMA MERDA, VOCÊ VAI ADORAR!”.

Chegamos aos 20 anos achando que temos o mundo inteiro aos nossos pés, que temos juventude de sobra e nada pode nos parar, até nos vermos sozinhos, tomando cerveja barata num boteco perto da faculdade olhando as pessoas indo de um lado pro outro na rua e pensando “Eu tenho duas décadas de vida, já fiz coisa pra caralho mas ao mesmo tempo, não fiz absolutamente nada.”. Nessa época da vida criamos vícios, criamos traumas e temos contato com coisas completamente novas.

É normal se sentir frustrado. Querer desistir da faculdade. Se trancar no quarto e ficar ali, de boas. Se sentir meio incompetente, afinal não consegue emprego. No fundo, acredito que nenhuma escola nos prepararia para isso. Ajudaria um pouco, mas nada supera a experiência. Depois de muito pensar sobre, eu resolvi fazer esse texto, talvez como um desabafo ou uma voz de ajuda para aqueles que passam por algo parecido e não sabem o que fazer.

Aprendi que, me punir por isso é besteira e que devemos fazer o melhor com as oportunidades. Que, por mais que existam dias terríveis, dias bons também existem. Que o importante é tentar, por que se não houver tentativa, não há como aprender com isso. Que algumas pessoas se afastam, mas pessoas incríveis entram na nossa vida. Que aos 20 anos, você ainda não encontrou amor de verdade e um dia você vai encontrar a pessoa certa, talvez você já conheça ela, só precisa de um timing melhor. Que todo o conhecimento é válido, desde os livros da faculdade até a clássica sabedoria do bar. Que beber sozinho (fazer muitas coisas sozinho aliás) é bom para a alma, mas que é sempre bom manter os amigos por perto. Mas a lição mais valiosa que eu aprendi foi: eu só tenho 20 anos e ainda vai ter muita coisa pela frente.

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