55km

(ouvindo: Counting Crows — “Possibility Days”)

— E aí, cara, tudo certo? Faz tempo que não te vejo.

— Fala, rapaz! Como você tá?

— Tô bem, mano. Que tem feito de bom? Continua escrevendo?

— Cara, conheci uma menina linda! Quer dizer, eu já a conhecia, posso dizer que finalmente a encontrei de fato. Você sabe como eu sou, abaixo a guarda com certa facilidade. Mas é diferente aqui. Ela tem um brilho diferente. Sabe aquele tipo de alma magnética, que atrai a todos, não importa onde estiver? Ei-la! Sabe aquele tipo de sorriso que floresce em qualquer estação, que te obriga a sorrir de volta por pior que esteja o seu humor? Ela tem! Rodei alguns quilômetros para ir ao seu encontro. Esperei. Desisti por alguns segundos. No instante em que liguei o carro para ir embora, o telefone tocou. Alívio. Estava a caminho. Mais espera. Banda no palco, atenção no lado oposto. Então surgiu: trajes pretos, cabelos mel, a boca de um rosa inquietante cujas curvas e ondulações dos lábios tive certeza de que se encaixariam perfeitamente aos meus. O abraço quente como um cobertor naquela madrugada gélida. Parei encarando-a. Havia um novelo de palavras embaraçadas no meio da garganta. Os nós não se desfizeram. Só sorri feito uma criança que acabara de ganhar a primeira bicicleta. Percebi de imediato que ao menor encontro de olhares ficaria preso. “Mãos quentes, coração gelado”, ela disse quando nos despedimos. E por aí você vai dizer que estou, de novo, caindo em armadilha, eu sei. Mas eu não me preocuparia, depois de tantas quedas, já não me permito me deslumbrar. Admiração, apenas.

No entanto, voltei a vê-la no dia seguinte. Precisava ouvir sua voz cantando, rindo, descontraindo. Trocamos poucas palavras. Fiquei ali, de frente, observando cada detalhe, me alimentando das rápidas fitadas esporádicas que recebia. Subitamente me dei conta do quanto havia me feito bem aquele curto espaço de tempo, nas últimas horas, com ela por perto. Fui embora sem saber quando vou vê-la, sequer quando/se vamos nos falar novamente. Passar por isso sabendo que não passa de um devaneio não faz mal algum e…

— Caraca! Você gamou mesmo nela!

— Hahahaha do que você tá falando? Você perguntou se eu continuava escrevendo, não foi? Tenho trabalhado nisso que acabei de te dizer, tá bem cru ainda, né? Bom, deixa eu ir, preciso comprar pão.

;)

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