A ODISSEIA DO NOSSO ULISSES INTERIOR

Propor-se a fazer faculdade longe de casa é uma odisseia só para heróis no estilo de Ulisses. Aprender a lidar, inicialmente, com a distancia já seria um episódio para esgotar-se a saúde mental, mas o que torna esse movimento uma odisseia é o que vem depois, para além da distancia. É que quando passado o esplendor inicial da nova faculdade, dos novos amigos, da nova cidade e tudo que é novidade a nossos olhos, a realidade nós arrebata e mostra que a vida não é o que, nas noites na nossa antiga vida, nós sonhávamos.

Homem olhando o passado pela janela. by: Susano Correia

Percebemos que não teremos mais o aconchego das nossas camas arrumadas e cheirosas, não teremos o amor incondicional de nossos pais nas horas difíceis e principalmente não teremos a segurança de se estar onde sempre se esteve. Mudar é importantíssimo, crescer se insere intrinsecamente nesse processo de mudança, de se desconstruir e construir incessantemente em busca do melhor de nós, mas isso não tira, nem por um segundo, as dificuldades dessa odisseia. Acordar em um quarto diferente do dos últimos 18 anos, andar em ruas desconhecidas em busca de nós mesmos, estar sozinho mesmo em meio a tantos rostos pré-conhecidos é uma tarefa árdua, que retira de nós muito das nossas forças, obrigando-nos a crescer a cada noite dormida envolto por um silêncio noturno que nos ensurdece tamanha a potência ou cada manhã que acordamos desejando, mesmo que por um segundo sequer, poder ser fraco e desabar no colo de nossos pais.

Homem face a face com o abismo. by: Susano Correia

Mas não, crescer é assumir as responsabilidades das nossas próprias escolhas, e sabendo que viver é a única maneira de nós salvarmos, seguimos lutando contra os monstros de 7 cabeças que aparecem como a Hidra apareceu para Ulisses em sua própria jornada. Sentir-nos-emos demasiado solitários em nossa odisseia, não teremos mais a companhia costumeira de tempos passados que constituímos com tamanha dificuldade, teremos a nós mesmo, e o processo de auto-suficiência não se concluí tão rapidamente, portanto, a solidão é companheira certa. Teremos responsabilidades que dependerão unicamente de nossa maturidade para ser factível, as louças sujas, a cama desarrumada, os textos que precisam ser lidos para a faculdade, tudo dependera de nós, finalmente seremos donos de nossas próprias circunstancias, e se não a salvarmos não salvaremos a nós mesmo, assim a outrora tão sonhada independência, agora se mostrará mais como um fardo do que como liberdade. Contemplaremos na solidão nosso próprio abismo em buscas de respostas e forças para nos mantermos caminhando, lutaremos contra monstros que nós mesmos criamos, e aquele que achávamos se esconder embaixo da cama já não provoca tanto medo assim. Viveremos sentindo uma eterna saudade do nosso próprio passado, que mesmo nos momentos que estivermos distraídos, sentiremos ela ao fundo, e quando estivermos sozinhos, muitas vezes olhando pela janela do ônibus que nós leva para nossa nova casa nessa nova cidade, lembraremos nostalgicamente de momentos e histórias passadas que nós tirarão sorrisos bobos para não tirar lágrimas.

Só que apesar de tudo isso, continuaremos lutando e tentando concluir nossa odisseia, e por quê? Provavelmente porque a vida é sobre saber seguir e se adaptar, é aprender a tornar-se cada dia mais forte e estar cada vez mais preparado para o dia seguinte. Mesmo estando longe de casa, dos amigos e da família, nós sabemos que agora a vida depende de nós, o cenário mudou e com isso mudamos também, dia após dia. As tristezas com o passar do tempo são sentidas diferentes e se tornam menos destrutivas, a felicidade é mais bem aproveitada e momentos de paz são substanciais no dia-a-dia. Aprendemos que solidão só se vale a pena abrir mão se for em troca de uma verdadeira companhia, e talvez ela não seja tão dolorida quanto parecia antes, as noites se tornam mais leves e menos escuras com o passar do tempo e os dias mais ensolarados e recheados de bom dia. Descobrimos em nós o poder da arte, que muitas vezes vai nos aliviar da vida sem aliviar do viver, nós dando coragem e auto-confiança para continuar. E olhando a nossa volta vemos quantos tomam o mesmo caminho que a gente, e estão passando por sua própria odisseia tentando, como nós, se tornar mais forte que Ulisses, lutando com seus próprios monstros interiores, olhando para seus abismos em busca de respostas que muitas vezes só cabem a elas mesma encontrar.

E nada paga o sentimento de após toda essa odisseia chegar a nossa casa assim como Ulisses chega a Ítaca passado-se 10 anos, esse sentir único de matar a saudades da família e amigos, deitar no sofá como fazíamos anteriormente quando nem imaginávamos o que nos esperava do lado de fora, sem preocupações e reenergizando a nós mesmo para logo voltar a nossa odisseia, pois depois que saímos pela primeira vez e nos introduzimos na nossa odisseia é impossível voltar a o que era antes. A vida anda para frente, e saber se colocar em marcha é doloroso muitas vezes, mas como diria Guimarães Rosa, o que ela quer da gente é coragem.

Regresso as raízes.