Nós, as bruxas

Tem muito tempo que a gente, enquanto espécie humana, viveu numa sociedade matriarcal. Naquela sociedade ainda tribal, tinha um ritual de procriacao, já que como a gente bem sabe, mulheres que vivem juntas menstruam juntas. Naquele ritual de reproducao em determinadas noites do mes, lindamente sincronizada com alguma fase da lua, homens e mulheres iam já com a intencao de procriar. E procriavam.

Um dia, como era de se esperar que acontecesse mais cedo ou mais tarde, uma mulher ousou nao querer ir. Como aquela era uma sociedade matriarcal, ao invés de queimar a mulher ou fuzilá-la por se recusar o exercício do “servico militar”, a tribo apenas expulsou a mulher da sociedade, pois já que ela nao concordava com aquela parte tao importante pro grupo, nao fazia sentido que ela fizesse parte dele. Justo.

A mulher foi embora sozinha pra floresta, pra viver à sua própria sorte. E foi quando tudo comecou: Na floresta, sozinha, sem a protecao do grupo, nem tampouco de homens com suas técnicas de caca, a mulher se viu se relacionando somente com seus pensamentos e com a natureza. Sem caes domesticados que lhe ajudassem a cacar, a mulher domesticou o gato. O gato é, por excelencia, o animal que a mulher domesticou. O gato podia lhe trazer pequenos animais pra comer… ratos e outras cacas. Durante o dia, a mulher dormia em lugares seguros, e à noite, guiada pela lua e suas fases, a mulher passava a maior parte acordada, pois lidava melhor com os predadores da noite. Sua menstruacao nao era mais sincronizada com a do grupo, seus desejos também nao.

Sem as vantagens plantis da tribo, a mulher comia o que encontrava, e foi aprendendo quais plantas selvagens se come, quais matam, quais curam, quais cascas de árvore sao medicinais, quais abrem portais na mente e no universo. A mulher se tornou uma selvagem, e ainda assim, e talvez por causa disto mesmo, especialista em cura.

Na tribo, se alguém estava muito doente, e já nao tinham mais a quem recorrer, se lembravam que a mulher que foi expulsa e vivia na floresta, ela conhecia ervas, ela sabia o que fazer. Levavam o doente até ela. Ele voltava curado. Ela era mágica. Ela se comunicava com a natureza, porque, sozinha, nao tinha com quem se comunicar. E do jeito que a natureza diz aos animais que tá chegando uma tsunami, a natureza dizia a mulher coisas que outros nao conseguiam ver à frente. E aí soube-se que a mulher via o futuro. E se via também sozinha, sem filhos, com seus gatos, com sua intuicao e sua telepatia com o divino.

As mulheres que viviam no grupo eram felizes e encaixadas, com seus filhos e regras, e famílias. A mulher na floresta era uma rebelde. Um mistério. Às vezes, aparecia na floresta, atrás da mulher, um homem insatisfeito com a sociedade em que vivia, mas sem os culhoes de dizer nao. E ele se apaixonava pela mulher da floresta. E aquele caso de amor passageiro era o mais longe que ele chegou de ser um rebelde. Depois, como os doentes que voltavam da floresta curados, o homem também se curava da leve dúvida que teve por um momento: ser ele mesmo ou ser o grupo. Ele voltava pro grupo como o cachorro volta pra casa do dono.

Nao vou dizer que a mulher na floresta nao sofria. Ela morria. Mas ela também sabia a cura pra ressuscitar a si mesma. Tava tudo na sua cozinha. Com o tempo, vem homem e vai homem, vem doente e vai doente, ela foi percebendo seu lugar no mundo. Ela era a curandeira. Nunca estaria na roda da procriacao. Ela acendia a fogueira dentro daqueles que já nao tinham fogo queimando por dentro. Um dia ela mesma seria queimada viva numa fogueira, mas isso é outra história.

Depois de lutar e de muitas vezes desejar querer ser como as pessoas da tribo que desejam coisas que lhe garantem uma vida tranquila e menos solitária, comecou a entender que a felicidade dela é diferente da felicidade das outras. Neste momento, seus gatos chegam com pequenos ratinhos, que ela come, depois ela toma um chá que ela sabe que tem o efeito de levar embora todos os pensamentos sobre aqueles que foram embora. Ela sabe que tudo, no final, é vento. E tudo bem.