O retorno da inocência

Eu tava vendo um documentário sobre o poder da meditação. No filme, eles acompanhavam um estudo com crianças saudáveis ou não, e também um grupo de soldados americanos que haviam voltado do Iraque cheios de traumas. Conversando com os soldados, o professor ouvia relatos diferentes ou semelhantes. Mas o que todos eles, de forma geral, queriam ou sentiam falta era a inocência perdida.

Obviamente não é preciso ser um soldado que volta do Iraque pra querer de volta a inocência perdida. Quando a gente nasce, a gente não sabe o que é possível ou não. São as desilusões que ensinam pra a gente que o fogo é bonito, mas queima, ou que a gente não pode voar.

Conversando com Gabriela sobre desilusão, a gente chegou a uma ideia: E se a gente fizesse uma meditação de reintegração muito forte, focando no sentimento de todas as vezes em que a gente foi feliz ou se sentiu amada? E o resultado, meus amigos, foi a reintegração da inocência e aceitação das minhas esquisitices. E afff realizei como sou esquisita, e tudo bem.

Ninguém consegue seguir em frente sem inocência. Sem inocência, a gente fica eternamente preso na matrix dos “já vi isso, sei onde vai dar. been there done that”. A inocência é a conquista que a gente ganha quando vira a página.

De certa forma, nos períodos pré-desilusão, minha vida sempre foi viver as coisas pela primeira vez. Parecia que tinha ficado em coma até os 27. Quando nasci, Matheus me chamava pra sair, e eu levava uma mochila cheia de coisas pra ir ali no bar. Tinha tudo dentro da mochila: escova de cabelo e de dente, remédio, comida, água, chinelo etc. Eu só ia no bar. Matheus dizia que eu não sabia sair, que eu, pra ir no bar, era um dos bandeirantes. Ele estava tão certo.

No único casamento em que fui, levei o presente numa caixa muito linda que eu fiz. I mean: eu levei o presente pra igreja e depois pra festa. E a noite inteira, fiquei segurando o fritador de coxinha.

É bom quando a gente aceita nossas esquisitices. Tem uma loja em Dublin em que eu passava horas dentro se deixassem: era uma loja de fitas e laços coloridos de costura. Eu comprava vários. Eu nunca soube por quê. Só sei que uma tarde, no jardim botânico, com meu one night stand e seu amigo, passeávamos de braços dados os três, e paramos de frente à rag tree. Era uma árvore dos desejos: as pessoas amarravam laços ou trapos e faziam pedidos na árvore. Theo disse: “Ah, mas a gente não tem nada. Que tipo estranho de pessoa andaria com fita?”; “eu ando”. E cortando em 3 uma fita azul que eu levava comigo na bolsa, fizemos nossos pedidos.

Não vou contar das mágicas que me aconteceram, nem dos taxis de estranhos em que entrei pra ir atrás de cigarros, nem de como fiquei rica, nem do como me amaram, nem das montanhas que subi com desconhecidos, nem das festas mágicas com o Mick Jagger. Mas tudo de melhor que já me aconteceu, eu devo aos momentos em que eu não tinha life skill nenhum. Saber das coisas é bom e deve ser legal ter todos os life skills aos 20, mas eu ainda não troco pela magia de ter acordado do coma tarde.

Que a inocência esteja com você.