
É o remédio
Até pouco tempo atrás dizíamos que o Brasil não ía para frente porque o povo não se mexia. O Gigante dormia. Comparando-nos ao outro país do Mundo Novo de idade e proporções similares, os EUA, concluíamos que o que nos faltava era uma guerra civil.
Se isso já não era verdade então – Canudos e Farrapos foram guerras civis – com certeza não é verdade agora. De 2004 a 2007, mais pessoas foram mortas no Brasil que no Iraque e demais 11 maiores guerras do mundo somadas (Mapa da Violência 2013). Das 27 capitais estaduais brasileiras, 16 estão entre as 50 cidades com maiores taxas de homicídios do mundo (CCSPJP, México). Isso sem contar os que morrem em conflitos com a polícia. Em 2012, a polícia brasileira matou 4 vezes mais pessoas por habitante que a estadunidense e 126 vezes mais que a britânica (7º Anuário Brasileiro de Segurança Pública). Apesar de 70% dos mortos serem jovens negros de comunidades e periferias (IBGE), “a maioria dos homicídios no país não está relacionada à droga, e sim a essa cultura [da violência]” (J. J. Waiselfisz, FLACSO).
“O Homem Cordial” de Sérgio Buarque de Hollanda (sim, pai do Chico) não é gentil; é passional (cordis é coração em latim). O brasileiro é tudo menos complacente. A violência e vandalismo que se observa nos protestos de hoje não é novidade. Pelo contrário, é pouca comparada ao resto. Considerando-se que 150 milhões de brasileiros dependem de um sistema de saúde pública falido, onde 1/6 das cidades (800) não têm médicos, que metade das casas não têm coleta de esgoto e que 14 milhões ainda passam fome, o surpreendente é que os protestos não são mais violentos. Os ucranianos têm sido muito mais por razões muito menos emergenciais.
Ninguém deseja violência, pelo menos não aos seus próximos e iguais. Oxalá o que se vê hoje nas ruas seja o sintoma do duro tratamento que exige a cura do câncer que é o apartheid brasileiro.