A moral da história de Bohemian Rhapsody

The Cine Buzz Stop
Jan 14 · 8 min read
Rami Malek interpretando Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody

É importante deixar claro que o longa “Bohemian Rhapsod” não se trata de um documentário e, portanto, não é uma biografia fidedigna de Freddie Mercury e da banda Queen.

Mas, se já é difícil adaptar um livro para o cinema sem receber críticas do público, quem dirá quando a adaptação é a vida de uma figura real e repleta de fãs pelo mundo que acompanharam e ainda acompanham a carreira de um dos maiores cantores do rock.

Portanto, minha avaliação do roteiro de “Bohemian Rhapsody” será especificamente sobre a obra cinematográfica, ainda que faça alguns comentários biográficos, afinal, mesmo não sendo um documentário, o filme tenta ser realista em quase toda a sua duração.

Há diversos desencontros entre a realidade de Freddie Mercury e o Queen, mas focarei naqueles que prejudicaram a obra. Não me interessa aqui, por exemplo, dizer que a entrada de Freddie na banda foi um pouco diferente na vida real, que antes do Live Aid a banda havia se reunido para gravar o álbum “The Works” e fazer uma turnê mundial para divulga-lo, bem como a negociação de “Bohemian Rhapsody” como single para tocar nas rádios com o executivo da gravadora EMI que acabou se recusando a gravar no filme, mas que na realidade tal diretor (Ray Foster — Mike Myers) nunca existiu. Contudo, o então chefe da EMI teria realmente achado a música longa, só que ele era muito fã da banda. Não vejo também como falhas de roteiro já que o intuito é fazer um drama, criar uma história fictícia, em cima de um personagem real. Mas é complicado explicar isso ao fã e demonstrá-lo como funciona a arte de roteiro ficcional sobre casos reais.

Então, no que peca o roteiro de “Bohemian Rhapsody”?

Foco em Mary Austin e pouca importância a Jim Hutton

Freddye Mercury e Mary Austin

No longa-metragem, Mary Austin (Lucy Boynton) e Freddie Mercury (Rami Malek) se conhecem na noite de apresentação da banda que logo depois no mesmo dia o aceitaria como vocalista. Até aí nada demais se o roteiro não tivesse dado tanta importância para Mary que só teve um relacionamento com Freddie quando ele já era líder da banda. Não que ela não tivesse importância, pelo contrário, o próprio cantor a descreveu como o “amor da minha vida” e delegou a ela a missão de colocar suas cinzas em um lugar secreto para que ninguém, nem seus pais, soubessem do paradeiro. O problema foi ter deixado de lado o outro amor de Freddie.

Freddie Mercury em uma das raras imagens públicas com seu esposo Jim Hutton

Já a relação com Jim foi mais intensa e importante para a vida do astro. Eles se conheceram em 1984 numa boate, mas Jim negou uma bebida oferecida pelo cantor e não o reconheceu. Em 1985 se reencontram e começam uma relação que dura até a morte de Freddie Mercury, em 1991. Já no filme, o reencontro é dado logo antes de Freddie se apresentar no Live Aid, show para arrecadar fundos contra a fome na África. Entretanto, o filme coloca Jim Hutton (Aaron McCusker) em último plano, reaparecendo na vida de Freddie um pouco antes da apresentação beneficente na África do Sul.

Apesar da vida privada do casal ter ficado afastada dos holofotes da mídia, era a oportunidade para o roteiro mostrar a importância de Jim na vida do cantor. Jim lançou ainda, em 1994, um livro intitulado “Mercury and Me”, relatando a memória da relação entre os dois. O que faltou no filme foi a importância de Jim Hutton na vida de Freddie Mercury após o diagnóstico de Aids, pois foi quem ajudou nos cuidados do astro enquanto a doença se agravava. Não apenas ajudou como se manteve firme no relacionamento com Freddie, que havia dito a Jim que entenderia caso ele quisesse romper o casamento. Jim Hutton ficou ao lado de Freddie Mercury até sua morte.

Moralista e Imoralista ao mesmo tempo

O roteiro de “Bohemian Rhapsody” ora trata a vida de Freddie Mercury com moralismo ora o julga imoral. Em um certo momento, o cantor é visto como desajustado e excessivo em seu comportamento pois leva uma vida de festa e orgias, diferente do grupo que leva uma vida ideal de família tradicional, ainda que o baterista seja infiel a sua esposa.

Por outro lado, o filme retrata essa “devassidão” de forma moderada. Freddie Mercury era muito mais porra loca do que o personagem de “Bohemian Rhapsody”, como se não quisesse mostrar. Não era um comportamento errado, apenas uma maneira diferente de viver a vida.

O grande problema com o roteiro do filme é que faz parecer que quem o escreveu desconhece a história de Freddie Mercury e seus dilemas, focando em outro aspecto de sua vida, a de um astro gay que contraiu HIV. Ignora-se que o antes de se tornar cantor do Queen e mesmo durante as apresentações, Freddie Mercury foi constantemente alvo de racismo, embora o filme trate isso muito moderadamente. Além disso, a própria homossexualidade do astro não é tratada com profundidade, como, por exemplo, a fato de que perturbava o cantor ver os integrantes da banda com suas respectivas esposas e ele em sua solidão, o que o faz buscar um estilo de vida mais inconsequente, mas que também é o que dará cara as músicas a partir de então, tal qual a experiência vivida em boates gays. A todo momento Freddie é condenado por seu estilo sem ao menos surgir uma crítica a esse moralismo por parte dos outros membros do Queen.

O mais grotesco é que por ser baseado numa história real, faz com que o público veja Freddie Mercury de uma forma completamente diferente do que ele de fato foi, bem como dá um ar tradicionalista e moral aos demais. Só que a realidade era bem diferente. Cito o fato de que é sabido que um dos organizadores das festinhas não era o vocalista do Queen, mas sim, o guitarrista, Brian May (atuado como Gwilym Lee no longa-metragem).

Outro aspecto é que o filme mostra Freddie como um coitado ao ser arrastado para uma vida inconsequente de sexo e drogas pela manipulação de seu agente Paul Prenter (Allen Leech). Em vez disso, o astro era quem buscava esse estilo de vida hedonista para suprir sua depressão e solidão por ser gay em meio a amigos heterossexuais de vida comum e feliz. Ele então é vítima de um traidor, seu agente, e não uma pessoa que sofria e buscava na vida libertina o alívio de seu sofrimento.

Em “Bohemian Rhapsody”, Freddie Mercury é apenas um gay escalafobético e imoral, e não o artista que deu alma ao Queen, seja no visual, seja na composição das letras, tudo relacionado a sua sexualidade e conflitos internos. O que falar de “Good Old Fashioned Lover Boy”, “Don’t Stop Me Now” e “Get Down Make Love” senão elementos de sua vida como a sexualidade e o hedonismo e, por que não, uma crítica ao próprio moralismo de seus colegas de banda? A sexualidade de Freddie Mercury estava lá na cara de todos desde o início, e os membros do Queen e o público roqueiro branco hetero e cis apenas se divertiam com tudo achando que era só um poser no palco.

A separação do Queen foi um acordo de cavalheiros

Para o roteiro de “Bohemian Rhapsody”, Freddie Mercury é tido como um traidor ao aceita um contrato milionário para lançar sua carreira solo e deixar a banda, o que frustra todos os demais integrantes. Mas a verdade é que todos aceitaram a separação para que cada um cuidasse de sua carreira. O baterista, Roger Taylor (interpretado no filme por Bem Hardy), gravou em 1981 seu primeiro álbum solo “Fun in Space” e, em 1983, o álbum “Strange Frontier”. Em 1983, Brian May realizou o projeto solo “Star Fleet Project” contanto com a participação de grandes nomes do rock como Eddie Van Halen e Phil Chen. O que houve não foi exatamente uma separação, mas uma pausa nas turnês em 1983, já que três dos integrantes tinham famílias com quem gostariam de passar um tempo. Tanto que no mesmo ano a banda deu seguimento na produção do álbum seguinte (“The Works”) e lançando-o um ano depois e que trouxe singles como “Radio Ga Ga” e “I Want To Break Free”.

A descoberta da doença

Freddie descobriu-se soropositivo e portador da Aids em 1987, mas o anúncio público foi feito em novembro de 1991, quando veio a falecer um dia depois. O personagem principal do filme é o Freddie Mercury. Alterar drasticamente uma parte importante de sua biografia é um erro crasso. Parece que o roteirista quis vincular a Aids com o retorno da banda e a performance no Live Aid, sem maiores consequências e falta de importância para o quadro clínico do artista. Aliás, nesse momento Mary é colocada de lado, sendo que é ela quem dá a notícia ao cantor já que ele não atendia às ligações dos médicos. O fato é que o Live Aid não foi uma desculpa para a banda se reencontrar.


Sempre aprendi que no cinema não importa se o roteiro e a direção deixem a desejar se a edição for milagrosa. Alguns filmes têm uma edição tão fantástica que o editor é quem acaba virando roteirista e diretor ao mesmo tempo. O filme “Tubarão”, de 1975, teria sido uma produção totalmente amadora se não fosse graças ao incrível trabalho da editora Verna Fields, rendendo a ela o Oscar de Melhor Montagem e o prêmio Eddie Awards da America Cinema Editors, ambos em 1976. No entanto, esse não é o caso de “Bohamian Rhapsody”, incapaz de salvar os problemas do roteiro.

Em todo caso, “Bohemian Rhapsody” é um ótimo filme e vale destacar a ótima atuação de Rami Malek como Freddie Mercury, com grandes chances de levar o Oscar no prêmio de Melhor Ator, embora as reboladas e trejeitos tenham aparecido timidamente e faltou-lhe um manejo melhor do microfone na performance durante o Live Aid para ficar realmente parecido com o vocalista do Queen. Pequenos detalhes que não comprometem a atuação.

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Análise crítica e psicanalítica de roteiros de filmes que fazem barulho na internet por muito pouco. Por Vinni Corrêa: escritor e observador de roteiros.