Bird Box: o pior cego é aquele que quis assistir

The Cine Buzz Stop
Jan 2, 2019 · 22 min read

Uma teoria psicanalítica sobre coisas que ninguém percebeu no roteiro

Uma mistura de Fim dos Tempos com Um Lugar Silencioso e uma espécie de Ensaio Sobre a Cegueira para Idiotas (explicarei isso) com técnicas de terror chinês como Visões com a temática clichê de cenário pós-apocalíptico, Bird Box prende toda a atenção na atuação de Sandra Bullock e deixa em segundo plano o terror e o suspense, mais fracos que a atuação do pior ator do filme e mais próximo de um filme de aventura da Sessão da Tarde, faltando apenas um cachorrinho fofinho e mais inteligente que os humanos que ajudaria a personagem principal em suas burradas. Resumindo: tanto buzz para afogar a abelha no próprio mel.

Não é o interesse aqui comparar o filme à história do livro Bird Box por dois motivos: primeiro porque não li o livro e segundo porque são duas obras distintas ainda que o filme tentasse reproduzir o livro. Não discutirei também inverossimilidades de muitas cenas como a impossibilidade da sobrevivência da mãe, suas duas crianças e, claro, dos pássaros, na descida do riacho, entre outras passagens no roteiro.

O título em português do filme (Às Cegas) tem muito mais sentido do que o título traduzido para o livro (Caixa de Pássaros) e até mesmo o título original “Bird Box”.

Resolvi, portanto, criar minha teoria porque sempre tem aquelas pessoas que praticamente te chamam de idiota quando você não gosta de um filme: “ainnn, você não gostou porque não entendeu o filme”. Entendi tão bem que me fez ver o quão ruim ele é. Antes não tivesse entendido, assim de repente o acharia uma obra prima. Pelo roteiro fraquíssimo do filme e por muitos psicólogos charlatões de feira se achando o máximo por terem descoberto a linguagem PNL (Programação Neurolinguística) da trama, fiz minha análise psicanalítica e de estrutura do roteiro para desvendar sobre o que realmente trata Bird Box e o porquê dele ser tão ruim. Não leve esse texto tão a sério a não ser sobre o filme ser um dos piores da década. O texto é grande, então, se estiver muito curioso, vai logo para o último parágrafo com a explicação final sobre o que se trata o filme, mas vai perder o melhor.

OS PROBLEMAS DO ROTEIRO

Já no início do filme sabemos que apenas Malorie (Sandra Bullock) e as crianças sobrevivem ao enigmático caos instalado no mundo causando pânico e autodestruição das pessoas. Elas são as únicas a descerem um riacho num barco usando vendas, o que é muita loucura, já que a personagem de Sandra Bullock é incapaz de pegar um galho, um cabo de vassoura ou um guarda-chuva para servir de muleta, prótese usada por qualquer cego para conseguir caminhar pelas ruas. Esse é um dos elementos mais irritantes do filme, pois uma pessoa imbecil a esse ponto jamais conseguiria sobreviver um único dia.

Malorie é posta como uma mulher depressiva e solitária prestes a dar à luz uma criança indesejada. O quadro que ela pinta é uma representação da própria personagem: antissocial e incapaz de conectar-se com as pessoas. E representa o desafio que ela passará nas próximas cenas: conseguir conviver com estranhos num fundo negro. A música que ela está ouvindo enquanto pinta também é altamente depressiva e pode falar sobre a condição suicida da personagem, o que é fundamental para compreendê-la e porque os eventos sinistros acontecem.

Mas há muitos furos em Bird Box e creio que sejam devido ao fato de que o roteirista quis trazer um suspense à trama para que os telespectadores ficassem do início ao fim do filme se perguntando o que eram aquelas coisas. Péssimo roteirista!

Em uma das cenas iniciais, Malorie, a pedido de sua irmã Jessica (Sarah Paulson), liga a TV para saber o que está havendo e causando espanto nas pessoas. Nesse momento, apenas sinais de suicídio coletivo ou surto psicótico em massa na Rússia. Aqui começa a infeliz tática do roteirista em ludibriar o telespectador. Mas segura essa parte pois discutiremos isso mais a frente tanto em furo no roteiro quanto no desenvolvimento da teoria.

Grávida, Malorie vai ao hospital com a irmã para uma rotina e verificar como está o bebê. Há diversas pessoas no centro médico mas a personagem foca seu olhar em uma mulher falando ao celular. Por qual motivo? Vamos supor que seja intuição de que algo aconteceria com ela, pois as pessoas acreditam nisso. Mas é ridículo e explicarei. Logo depois, quando Malorie está para sair do hospital, ela vê essa mesma mulher batendo com a cabeça no vidro. Aí temos um grande problema. Malorie teve a intuição de que algo errado aconteceria com aquela mulher sendo que todas as pessoas ali iriam sofrer com o mesmo problema. Dentre várias pessoas ali, somente esta personagem tem a visão naquele instante. Isso demonstra uma falta de onipresença da coisa que provoca os ataques (vírus, surto psicótico, fantasmas, deuses, demônios, aliens?). Tanto na cena dos ataques na TV quanto no surto da mulher que estava ao telefone, em nenhum momento há indícios físicos da coisa que ataca, não há um sequer indício, e isto é importante para perceber um dos maiores furos de Bird Box só para causar suspense no telespectador.

Num momento seguinte, quando as irmãs fogem do tumulto com o carro, Jessica é quem passa a ter uma visão. Aqui também não há qualquer aparição física da coisa e Malorie não é atingida pelo o que quer que seja o distúrbio. A partir daí, psicólogos das mais variadas correntes dão seu arremate de que o filme fala sobre a depressão e como ela atinge as pessoas e pode afetar qualquer um. Na verdade, não há motivo para suspeitar disso, uma vez que Malorie é altamente depressiva e deveria estar muito mais suscetível à alucinação do que sua irmã que não apresentava depressão. O que podemos afirmar é: embora tenha de estar com os olhos abertos, os ataques são aleatórios.

Passando por vários trechos medíocres até que Malorie adentre a casa que compartilhará com um grupo, não vale a pena tecer comentários pois em nada acrescenta à teoria. Já na casa, vemos personagens clichês como o valentão que sempre tem razão, aqueles que uma hora ou outra vão trair o grupo e uma mulher ingênua que põe todos em risco e situações que transformam a casa num verdadeiro Big Brother.

Lembra que no início Malorie e sua irmã assistiram ao noticiário? Aqui também o grupo assiste ao noticiário sobre os eventos sinistros. Não vou falar aqui sobre um grande furo, pois quero causar em você leitor mais suspense do que causou o filme. Mas note que para a transmissão ser cortada, há apenas duas explicações: ou a coisa tem poder sobre transmissão de sinais de telecomunicação (o que mais para frente dará em outro furo) ou ela afetou as pessoas do estúdio, o que seria impossível por ser um ambiente fechado sem qualquer abertura para o exterior. Vamos seguir então com a primeira hipótese que seria a mais plausível. Então, mais uma vez, dê uma segurada aí.

Passamos por mais outro personagem clichê, típico em filmes de terror: o solitário leitor que tem explicação cristã para fenômenos sinistros.

Bird Box alterna entre os momentos finais de tentativa de sobrevivência de Malorie e as duas crianças e o que aconteceu antes deles tomarem a insana decisão de descerem vendados uma corredeira. E de volta ao rio, enquanto a personagem principal tenta comunicação pelo rádio (ué, funciona? A coisa não intervém em sinais de telecomunicação?), ela vê a agitação dos pássaros que ela tem em uma caixa (olha de onde vem o nome do filme!) e então começa a ouvir vozes chamando pelo seu nome. Para tudo aqui que eu quero descer! Descarte totalmente a ideia de um vírus. Ela não está contaminada e está ouvindo coisas. Ficamos com a possibilidade sobrenatural ou extraterrestre. Nisso, o roteiro passa a enfrentar um problema. Como eu disse, ela não está contaminada, em nenhum momento abriu os olhos. Mesmo assim, a coisa parece conseguir tentar exercer alguma influência psicológica sobre Malorie. Então, já podemos supor que a parada aqui é psicológica, certo? Não tenha tanta certeza assim, pois o roteirista vai errar muito para deixar você confuso sobre o que é essa coisa. Mas sabemos que a coisa consegue saber seu nome, falar com você, ter voz feminina ou masculina e saber também sua localização, embora até esse momento o filme não nos mostra interação física da tal coisa senão exclusivamente pela mente… ainda.

Já de volta ao momento anterior na casa, seu dono, Greg (BD Wong), sugere saber sobre o que está ocorrendo lá fora pelo sistema de câmeras. Diferente do que pensa o sabichão (Douglas — John Malkovich), a ideia não é tola. Pelo contrário, é ótima, se não fosse pelo furo do roteiro. Lembra das suas situações em que os personagens assistiram à TV? Pois é, em nenhuma delas as pessoas sofreram qualquer influência por estarem assistindo. Apenas a interrupção do sinal da programação. Mas parece que a coisa já funciona diferente aqui e, mesmo amarrado, Greg tem a visão e consegue ser controlado e tem um surto psicótico. Outro fato é que nesse momento a coisa começa a ter influência física: ela faz folhas voarem e tem sombra (que também vemos em outros momentos posteriores de Bird Box) e respeita as leis da física pois é feita pelo sol assim como todos os demais elementos do jardim que aparece em uma das câmeras e que é vista por Greg. Dessa forma, além de vírus, podemos descartar a possibilidade de que a coisa seja também um fantasma, demônios, deuses ou qualquer coisa da ordem sobrenatural, pois há respeito às leis da física. Além disso, fica claro aqui que o surto apenas acontece se a coisa estiver próxima a você, embora ela não tenha atacado quando o grupo assistiu ao noticiário mesmo ela estando por ali.

Voltando para o drama do riacho, Malorie segue no bote com as crianças e enquanto estão vendados, ela ouve alguém oferecer ajuda. Eis que depois surge um homem no meio do rio junto com vários questionamentos ao que já foi apresentado sobre a(s) criatura(s) — aqui já assumo a possibilidade do plural:

1. As criaturas parecem fracas e não sem tanto efeito assim sobre as pessoas caso estejam vendadas. Para isso, ela(s) precisa(m) de lacaios;

2. Para ter tais lacaios, a(s) coisa(s) precisaria(m) controlar (e não apenas influenciar) a mente dessas pessoas muito suscetíveis a esse controle;

3. Nesse instante, os pássaros não sentem a presença da(s) coisa(s) e só ficam atordoados no momento da luta. Portanto, não sentem a presença da(s) criatura(s);

4. Se o cara está com a mente controlada pela(s) coisa(s) e se ela(s) sabe(m) a localização de Malorie, temos:

a) Se a(s) coisa(s) estava(m) lá por que os pássaros não sentiram a presença?

b) Por que apenas um lacaio estava no local?

Erros medíocres no roteiro que serviram apenas para o péssimo escritor deixar o telespectador no suspense.

A cena se volta para a casa quando o grupo decide sair com o carro para buscar mantimentos em um mercado. Eles não sabem ainda o que é a coisa e, por isso, em vez de saírem de muleta, preferem tentar com um carro todo coberto. Até aí ok! O problema é que no início do filme as ruas estão tomadas por carros acidentados e incendiados, impossibilitando a passagem. Mesmo assim, lá vão eles e mais furos no roteiro. Para conseguirem chegar ao destino, eles usam o GPS e o identificador de objeto por aproximação. O GPS funciona por satélite e, como vimos, deveria ter tido seus sinais cortados pela(s) criatura(s). Mas funcionava que era uma beleza. Tudo ia bem (incrível) até que o identificador de objetos sentiu a presença de algo — logo, algo físico — se aproximando pela frente e por trás, e depois, pelos lados. A coisa não apenas se aproxima como consegue exercer força sobre o carro, agitando-o. Mas qual a diferença aqui do carro para a casa já que não há qualquer possibilidade de o grupo ver o exterior? A única hipótese plausível é a de que a(s) criatura(s) sejam sensíveis a movimentos, podendo detectar qualquer coisa que e mova. Sendo assim, não adiantaria ficar em casa andando de um lado para o outro pois seria possível saber em que casa as pessoas estariam e, inclusive, exercer força física sobre a casa. Mas não é o que acontece. Aqui concluímos definitivamente de que o monstro (vou chamá-lo assim) é também um ser físico, embora invisíveis a olho humano. Quer dizer, invisíveis quando o roteiro quer que sejam invisíveis para enganar o telespectador. Lição de Bird Box: é mais seguro um cego ir ao mercado do que alguém que enxerga descer uma corredeira.

Após passarem pela provação do carro, o grupo escolhido para a tarefa finalmente chega ao mercado. Decorrido algum tempo, os personagens ouvem alguém trancado em um recinto que é um armazém. Nesse instante os pássaros ficam doidos. Ou seja, há algo de errado. Mas na cena anterior em que teve o ataque no rio, mas que representava algo acontecido posteriormente à dinâmica de grupo, os pássaros não tiveram qualquer aborrecimento. O homem diz estar sendo perseguido por “eles” (e aqui podemos definir como criaturas, isso, no plural) e pede para deixarem-no sair. O grupo abre a porta e nisso o cara tenta abduzi-los. Um dos personagens empurra o cara para dentro do recinto e acaba indo junto trancado. Eis que ele tem a visão e morre. Mas, que armazém é esse que tem exposição para o exterior? O que o cara faz lá trancado só para atrair pessoas a um mercado que está trancado? Isso somente seria possível se o agressor for um zumbi, totalmente controlado por alguém que o fizesse ficar ali exclusivamente para esse fim. As criaturas agora também expõem como funciona seu poder, ainda que não seja tão claro. Ou seja, podemos desconfiar que o poder que ela exerce sobre as pessoas não é psicológico. Mas veremos ainda o quão ruim é o roteiro que deixa vários furos sobre isso.

Dando uma pausa nos furos, tenho de comentar sobre as irritantes cenas em que Malorie corre vendada pela floresta, o que faz o filme ser um Ensaio Sobre a Cegueira para tapados (com trocadilho), pois nenhum ser inteligente correria vendado pela floresta, ainda mais sem usar qualquer muleta. Óbvio que uma pessoa assim jamais sobreviveria um dia às cegas. Tão irritante quanto é o personagem Douglas se achar certo sobretudo e, no final das contas, de fato estar, ao menos na maioria das vezes.

De retorno ao péssimo roteiro de Bird Box, vamos para a cena em que chega um novo visitante à casa: Gary (Tom Hallander). Com sua chegada, nada de anormal é realmente percebido, afinal, parece ser uma pessoa normal embora Douglas fique desconfiado (ai, ele tava certo!!!). Os pássaros não demonstram qualquer sinal das criaturas, um grande furo no roteiro. Tanto na cena do rio como na cena do mercado, os dois lacaios somente poderiam atuar sendo controlados pelas criaturas. Mas aqui, Gary parece uma pessoa normal até o momento em que demonstra ser um dos “loucos” que sofrem uma influência diferente das criaturas, ajudando-as a fazerem os demais abrirem os olhos. Só que para isso, para passar por uma pessoa normal, Gary teria que ser de fato Gary, embora “louco”, ou seja, sem qualquer controle direto das criaturas. Aqui supomos então que o controle é psicológico, pois afinal, são os loucos os maravilhados pelo horror das criaturas. O roteiro nos leva então a crer nisso, que a parada é psicológica e que os loucos não se matam após terem as visões, mas fazem os outros se matarem. Bom, tudo começa com Gary espalhando umas imagens desenhadas que seriam das criaturas. Algumas, espécies de polvos (Call of Cthulhu — O Chamado de Cthulhu: vá até o quadro mais abaixo para ver um explicação sobre isso). Confirmamos de uma vez por todas que a coisa é no plural. E quando o “louco” sobe as escadas para o quarto onde Malorie e Olympia (Danielle Macdonald) estão parindo seus filhos para abrir as janelas e fazê-las verem seus ídolos é que seus olhos mudam e vemos a influência das criaturas. Significa dizer que antes ele não estava sob influência e era apenas um louco que amava as criaturas ou foi uma tática medíocre para só agora o telespectador ver essa ação nos olhos dos lacaios? E se os olhos mudam, não significa dizer que há uma influência direta (e não indireta e psicológica) dos monstros? Lembra, os pássaros não se manifestaram nem quando os desenhos foram colocados na mesa. Note ainda que o olho de Gary muda antes mesmo dele abrir a janela. Isso força a ideia de que o poder das criaturas é psicológico. O que não parece ser verdade. Tanto Olympia como Cheryl (Jacki Weaver) abrem seus olhos para as criaturas (uma de forma espontânea e a outra forçadamente). Nesse instante, vemos que os olhos de ambas são transformados ganhando umas varizes escuras. Isso não havia ocorrido até então no filme. Nem com a mulher no hospital, nem com a irmã de Malorie, cujos olhos se avermelham e se enchem de lágrimas mas não é clara a contaminação das varizes.

Olhos de Jessica sem as varizes (cena de Bird Box)
Nessa cena (que mais parece maquiagem borrada), já após o acidente e, consequentemente, à visão, é que Jessica parece ter as varizes escuras nos olhos.

Mesmo que ignoremos isso tratando como algo supérfluo e sem impacto no roteiro, há o seguinte questionamento: se as pessoas somente são contaminadas se olharem para as criaturas, se tal contaminação somente pode ser feita de forma física, ou seja, mesmo conseguindo fazer as pessoas ouvirem suas “vozes”, é somente pelo olhar que elas são infectadas, e se precisa passar pelo olho, portanto, não sendo psicológico, como as pessoas se suicidam? Para demonstrar que não há argumento no roteiro para que o ataque seja psicológico, basta vermos que obrigatoriamente as criaturas precisam adentrar pela retina do olho, uma ação física. Sem isso, é impossível ter o controle das pessoas. Você já deve ter ouvido falar em insetos zumbis. Por exemplo, formigas que são contaminadas por fungos e estes tomam o controle do inseto comandando seu cérebro. É exatamente isso o que os monstros então a fazer. Para ter acesso ao cérebro das pessoas e comandá-las, tal como os fungos, transformando as pessoas em zumbis, eles precisam entrar pelos olhos. Logo, as pessoas não teriam visões, mas sim, as próprias criaturas é que tomariam o controle do corpo delas. Mas, para sustentar — pessimamente — o suspense, fica a ideia de que elas são tomadas por um medo e acabam por se suicidarem. Mas os monstros são parasitas (e idiotas pelo visto, pois que parasita mata seu hospedeiro?).

O Chamado de Cthulhu é um conto de horror do escritor H. P. Lovecraft cujo personagem de mesmo nome do conto é possuidor de tentáculos no rosto (bem como outros personagens do autor), muito semelhante a algumas das imagens de Gary. Os monstros do mundo de H. P. Lovecraft também provocam às vezes morte e loucura nas pessoas e representam a tentação de destruição do ser humano. August Derleth, o maior interprete das obras de Lovecraft, acrescentou teorias do cristianismo aos mitos de Cthulhu, como a dualidade entre bem e mal, distorcendo o teor caótico do original.

Após várias mortes e sobrarem apenas Malorie, Tom (Trevante Rhodes), que desde o início deu em cima da personagem de Sandra Bullock, e as crianças, alguém finalmente faz contato pelo rádio, mensagem essa que não é interceptada nem pelos monstros nem por seus lacaios. Um homem diz que há um lugar e que o caminho é pelo riacho. Com todo aquele horror acontecendo, o homem que se identifica como Rick (Pruitt Taylor Vince) em nenhum momento diz que é cego e como conseguiu esse lugar, nem mesmo porque ele é imune ou mais fácil de sobreviver ao caos. Apenas diz que eles devem seguir pelas corredeiras, sem crianças pois com elas não é possível seguir viagem, e ainda que num dos trechos alguém teria de olhar. Porra, tá de sacanagem, né? Ninguém acreditaria nessa merda. Mas a estúpida foi lá descer corredeira com vendas em direção a algo que ela não tinha ideia do que era.

A essa altura, já não me preocupo com a mediocridade do roteiro em relação aos “loucos” indo de casa em casa para saber se ainda há gente para eles mostrarem a beleza das criaturas. Nem mesmo a cena — pior que qualquer filme de ação — de Tom vendado acertando de primeira os tiros nos lacaios. O ponto interessante é que Tom sacrificou sua vida para que Malorie fugisse com as crianças, não apenas distraindo os “loucos” como também tirando a própria venda para impedi-los. Nisso, ele é tomado pela visão. Só que antes de ser totalmente controlado, ele ainda consegue desferir um tiro no último lacaio, até que se mata. Se Tom consegue ter um raro momento de alguns poucos segundos de controle de si para atirar no capanga dos monstros, isso demonstra mais uma vez que o problema não é psicológico, mas sim, de um controle parasitário sobre o cérebro da pessoa.

Ufa, estamos chegando ao final do filme, o pior de Bird Box. Malorie e as crianças, após cenas inverossímeis das quais não comentarei, chegam à floresta com uma trilha perfeita para que ela possa correr vendada. Após algumas tentativas de persuasão psicológica dos monstros simulando a voz de Malorie para atrair as crianças e as vozes de Jessica e Tom para atrair Malorie, e da tosca cena dos monstros invisíveis movendo as árvores, eis que eles chegam ao seu destino, um santuário onde nem os monstros nem os lacaios se arriscam a invadir. As pessoas do santuário sabem da modificação nos olhos dos contaminados e revistam Malorie e as crianças, quebrando mais uma vez os psicólogos que encheram a internet de teoria sobre espiritualidade, medo e depressão. O local santo faz com que os pássaros fiquem tranquilos sem sentir qualquer presença das criaturas que já tínhamos confirmado que eram mais para monstros extraterrestres, mas já voltam aqui a uma ideia demoníaca, impedidos que são de adentrar o lugar sacro.

PERFIL PSICANALÍTICO E TEORIA EM BIRD BOX

O ataque começa na Rússia

Por que? Por que começar em um país e não generalizadamente? A explicação é simples: americano (o autor do livro é americano) ainda vive uma guerra fria com os russos e obviamente quis começar um surto por lá. Ou, o que é muito provável em minha opinião: russo bebe pra caramba então é mais suscetível a ter visões.

Suicídio coletivo (psicose em massa)

O mundo está neurótico e os monstros nada mais seriam do que invenções (imaginação) das pessoas transmitidos por um efeito conhecido como psicose em massa. As pessoas são contaminadas. Seria uma ideia muito interessante e faria do filme uma obra grandiosa (não sei como a questão é tratada no livro), mas o roteiro do filme estraga totalmente essa possibilidade ao colocar uma entidade real querendo causar um mal, pois ela acontece mesmo naqueles em que o surto psicótico não está presente.

Deus vingativo

A entidade é tratada com magnificência beleza, o que não nos parece a ideia de um monstro ou mesmo demônios. Americano tem mania de fazer livros/filmes com mensagens judaico-cristãs e não é diferente em Bird Box. Não seria muito supor que os eventos trágicos seriam obra de um deus vingador sobre a humanidade que continua a comer a maçã com os olhos, mesclando os pecados capitais de luxúria (desejar a beleza vista), a gula (insaciabilidade resolvida no fim da própria vida), avareza (as pessoas são extremamente materialistas e a personagem principal escapa por abrir mão disso e amar as crianças), ira (um mundo tomado por pessoas com sentimento de ódio, raiva — mas o Deus pode ficar irado?), inveja (invejar a beleza que é vista), vaidade (as pessoas precisam ver para serem “contaminadas”) e a preguiça (na verdade o único controverso ao meu ver, pois as pessoas precisam ficar sedentárias no escuro para sobreviverem). A visão seria uma epifania, uma revelação que precisa ser compartilhada com todos. Mas ela só é compartilhada pelos “loucos”, já que os “sãos”, egoístas, vão direto para a luz (não vá para a luz, Caroline) gozar o absoluto (explícito na cena em que a mulher entra no carro pegando fogo).

Reacionários Vs Revolucionários

Os monstros poderiam ser o futuro, a promessa de um mundo melhor que só os “loucos” revolucionários se aventuram a buscar. Para os reacionários, esse futuro é incerto e pode trazer desgraça, por isso é melhor não enxergá-los, pois não há nada para ver senão o fim. Cegar-se a esse futuro promissório sem garantias e apoiar-se na nostalgia do paraíso já instalado (com a venda você não enxerga as mudanças e mantém a memória no passado) é a maneira de enfrentar o terror dos monstros revolucionários. Seria uma ótima ideia metafórica que tenho certeza de que o autor não pensou.

Onde estão os autistas?

Os cegos apenas não enxergam a beleza do monstro porque não podem enxergar. Mas e os autistas? Eles nem enxergariam beleza nem desgraça, apenas cagariam para tal entidade vendo apenas irrelevância nela e se interessando por outras coisas mais banais.

Problemas mentais te livram da depressão

Para muitos psicólogos, Bird Box é uma metáfora para a depressão. Após vermos o filme concluímos que pessoas com problemas mentais, especialmente as psicóticas, não sofrem depressão. O interessante é que na prática a depressão grave pode causar psicose. Se a visão causa depressão profunda, as pessoas poderiam ter surtos psicóticos (se tornarem loucas segundo o roteirista) e, pronto, elas não se matariam, apenas adorariam as criaturas.

Caixa de Pássaro (Bird Box)

O título do filme é a peça mais infeliz. Não há qualquer metáfora para os pássaros, nem mesmo para a caixa que só aparece na descida da corredeira e sem papel importante. Seria melhor o filme ter ficado sem nome da mesma forma que as crianças ficaram. E o final ainda traz uma contradição entre o isolamento/aprisionamento e a liberdade do voo do bando de pássaros.

Conclusão psicanalítica

Bird Box não é sobre depressão. A influência dos monstros nas pessoas sequer é psicológica uma vez que a mente não é afetada, pois cegos não sofrem do ataque das criaturas, embora possam ter depressão como qualquer pessoa. O efeito é físico e químico: é preciso olhar, é preciso passar pela retina. Talvez nem precise passar pela tradução de nossos neurônios, muito provavelmente as entidades funcionem como parasitas e sua mensagem ao passar pelos olhos vai direto para a nossa mente sem que tenhamos condições de interpretar e refutar aquela imagem. O que traz um furo muito grande, pois, se não é mental, como os monstros fariam a tortura psicológica que fizeram com a personagem de Sandra Bullock (Malorie) na floresta — se poderiam fazer isso, por que não o fizeram para fazer as pessoas se matarem mesmo vendadas, mas não, em vez disso, tinham que fazê-las olharem –; e se é mental, por que diabos seria necessário olhar já que a maior parte das pessoas não precisa ver para crer? O furo continua pois tudo indica que o processo é mental, já que os “loucos” conseguem “enxergar” os demônios de forma distinta das demais pessoas, passando a adorá-los e até mesmo a ajudá-los a “desvendar” as pessoas.

Então sobre o que é Bird Box?

É sobre a psicopatia narcísica do monstro. Um bicho recalcado que sofreu bullying pela cultura cristã de que todo monstro é feio. Criando resistência a toda essa opressão, os monstros se unem num movimento para forçar seus opressores na visão da beleza que há neles e então destruir seus opressores. O que faz desse demônio um ente histérico, pois deseja que todos estejam vivos para enxergar sua beleza, mas também deseja matá-los. São psicopatas porque a única intenção desses profanos alienígenas vindos do inferno é matar. Mas não pura e simplesmente arrancar a vida das pessoas tal qual muitos vilões de filmes de terror como Jason, de Sexta-Feira 13, ou Leatherface, em Massacre da Serra Elétrica, ou ainda Michael Myers, assassino em série de Halloween, mas matar de uma forma muito específica: fazer o humano enxergar sua beleza e daí sim fazê-lo destruir a própria vida. Há um prazer nisso. Um verdadeiro psicopata.

Nossos maiores medos são, na verdade, nosso maior tesão. Tememos a morte por não sabermos o que há do “outro lado” mas desejamos intensamente esse “outro lado”, o paraíso, o que poderia explicar os suicídios no filme ao “vermos” a beleza da tal coisa. Mas além de cegos, ateus não seriam facilmente convencidos a irem para esse “outro lado”. Além disso, algumas pessoas enfrentam o medo da morte desafiando-a: como a prática de esportes radicais extremos (pleonasmo mesmo). Para você ter ideia de como a morte nos desperta medo, mas também tesão, muitos de nós buscamos essa experiência de quase morte brincando em montanha russa ou mesmo assistindo a péssimos filmes de terror como Bird Box para nos causar terror e susto, mas só de brincadeirinha, pois não queremos mesmo morrer, mas viver sua experiência, a não ser que tenhamos a certeza de que há o “outro lado”. Como ninguém tem, preferimos a nostalgia do paraíso criado na Terra à incerteza de um lugar prometido. Isso é um grande problema no roteiro do filme pois há uma cena em que a mulher que tenta ajudar a personagem de Sandra Bullock tem uma imagem de sua mãe — que já morreu. Ver a mãe e querer caminhar até ela não é necessariamente um medo, mas sim, uma nostalgia do tempo feliz em que ela era uma figura presente em sua vida. O medo, por sua vez, teria um efeito em muitos casos de querer matar o outro para manter a própria sobrevivência. A trama não tem amarras e faz com que o filme fique confuso nas ideias que quer passar, muitas vezes até formando uma contradição pelo fraco roteiro.

Finalizando, Bird Box tem muito mais a ver com estresse traumático da maternidade, mas o faz de forma rasa, como se em qualquer mulher grávida o instinto de sobrevivência falaria mais alto, enquanto que em pessoas muito “noiadas” haveria maior chance de elas matarem as crianças por dois motivos: primeiro pela dúvida de querer ser mãe e segundo por que pouco provavelmente uma pessoa com depressão e neurose iria querer enfrentar tais medos e desejar ver seus filhos sofrerem, preferindo matá-los. Mas aí não seria necessário olhar para os monstros narcisistas e acabaria com o filme logo no início.

A maternidade, assunto pouco explorado pelos psicólogos teóricos de plantão, é o tema chave do filme, tema também do filme Um Lugar Silencioso (mas executado de forma muito mais perspicaz — inclusive pelo elemento silêncio que envolve muito mais o telespectador do que a cegueira, já que não podemos nos vendar e continuar assistindo ao filme, mas podemos ficar em silêncio e ficarmos angustiados juntos com os personagens). Minha teoria é de que ninguém ali vê os monstros. Na verdade, nada daquilo acontece. Tudo não passa de um surto psicótico de uma única personagem, a de Sandra Bullock, Malorie. Altamente depressiva, com sinais fortes de morfose regressiva, ela apresenta grande indicativo de sofrer depressão psicótica. Com a aproximação de ter o filho, consciência que toma quando a irmã toca no assunto, é justamente quando os episódios sinistros começam. Uma defensiva de Malorie contra a ideia de ter a criança. Ela começa então a ter tais visões e destrói a todos pois é assim que ela enxerga o mundo com ela tendo de cuidar de uma criança, tirando todos os vínculos dela, inclusive da irmã, para dar toda a atenção a um ser que ela não deseja. Até seu namorado Tom é vítima, pois também é alguém que ela se conectou. Para ela seria como perder a própria vida. A metáfora do filme é fazer do bebê (que é um parasita — no sentido biológico da coisa, não me entendam mal, pois acho bebês a coisa mais linda, só ficam horrendos quando crescem — pois só faz consumir os nutrientes da mãe) o monstro invisível: a criança também é invisível, sendo possível de ser vista apenas por imagens de ultrassom — mas tá lá –, assim como as sombras do monstro, mas que mesmo sem podermos ver, todo mundo diz ser a coisa mais bela da vida, um verdadeiro milagre. A história portanto não passa de um surto psicótico da personagem principal que tem de passar por sua provação para aceitar a gravidez e a ideia de que pela frente terá de cuidar de um serumaninho. Os lacaios são nossos familiares e a sociedade tentando forçar as pessoas da ideia de que temos que ter filhos, “vejam como são lindos”, bem como os fanáticos admiradores de Bird Box fazendo você acreditar que o filme é maravilhoso, quando não chega nem perto de ser ruim de tão merda que é. Tá, mas e os pássaros, o que tem a ver? Porra nenhuma, foi só algo que o autor do livro achou interessante para o título. Pronto, é isso, e você perdeu seu tempo assistindo a algo e depois crendo que o significado era outro nada a ver.


Trecho editado em 4 de janeiro de 2019:

Monstro = desejo de destruição

Malorie = psiquê hiperrecalcada

O cenário apocalíptico é, portanto, o desejo recalcado da personagem principal que goza (satisfaz-se) no surto psicótico que ela tem em que todos a sua volta acabam por morrer, patologia agravada pela depressão e medo devido à possibilidade de se tornar mãe.

Com a camisa de Os Pássaros (The Birds), de Hitchcock, e, ao fundo, urubus

The Cine Buzz Stop

Written by

Análise crítica e psicanalítica de roteiros de filmes que fazem barulho na internet por muito pouco. Por Vinni Corrêa: escritor e observador de roteiros.

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