Divulgar ciências like a ciência!

Wesley Santos
Dec 28, 2013 · 6 min read

Essa é a primeira vez que uso esse serviço de blog para escrever sobre qualquer assunto fora do meu blog principal. Vejo esse espaço como um espaço mais informal que o Do Nano ao Macro mas, ao mesmo tempo, um local mais formal para organizar minhas ideias do que as redes sociais, por exemplo.

Já faz um certo tempo em que queria escrever sobre esse assunto, mas não sabia por onde começar. Acredito que o melhor é situá-lo a par de algumas informações antes de sair falando coisas que você talvez não entenda e me chame de maluco!

Alguns meses atrás teve início uma série de publicações, tanto em blogs como em redes sociais sobre uma possível crise em blogs de ciências. A tal crise seria sustentada pelo fato de que o número médio de novos blogs e de postagens publicadas diminuíram ao longo do tempo. Várias opiniões de diversos blogueiros de ciências (muitos cientistas mas, também, jornalistas e outros amantes da ciência) foram apontados: poucas pessoas acessam o conteúdo (o que acabaria desestimulando o autor a continuar); falta de tempo (me incluo nesse grupo, inclusive) e; muitos o faziam para divulgar aquilo que fazem em seus laboratórios ou quando liam algo interessante relacionado às suas pesquisas: ou seja, acabou a pesquisa, acabou o assunto. Há, porém, alguns que acreditam que não há uma crise real. Imagino que, para eles, os blogs seriam como aqueles filhos já casados (eles existem e estão bem e, às vezes, aparece na casa dos pais para dar ‘oi’).

Penso eu que, de certa forma, todo mundo está certo.

Blogar sobre ciências no Brasil é praticamente falar para um grupo muito pequeno de pessoas. Sim, um grupo seleto de indivíduos que, ao meu ver, anseia em ter acesso a conteúdo científico mais acurado e preciso que aqueles divulgados pelas grandes mídias que, por serem mais populares, são acessados por X vezes mais pessoas do que o número de acessos de diversos blogs de ciências juntos.

Blogar sobre ciências (em qualquer lugar no mundo) é um trabalho penoso e que, a grande maioria, o faz por simples prazer em escrever e divulgar (tanto por mérito pessoal, ou qualquer que seja o motivo). A maioria dos divulgadores não ganham para escrever. É necessário dispor de um tempo (mesmo entre os entendidos do assunto que irão escrever) para bolar o texto, buscar uma imagem bacana e pesquisar para ver se informação que está sendo transpassada é a correta (ou aquilo que julgamos como correta no momento científico). Esse tempo “desperdiçado” poderia estar sendo empregado em outros afazeres, como escrever um projeto para mestrado/doutorado, escrevendo relatórios, trabalhando, passeando com o(a) companheiro(a), etc. Blogar consome tempo.

Blogar sobre ciências é falar sobre aquilo que você sabe. De nada adianta eu fazer uma mega postagem sobre ‘eletrodinâmica quântica’ se metade do que escrevi nem sequer eu entendo. Parece natural, ao meu ver, que blogs de ciências se especializem em uma área em detrimento de outra. Como a maioria dos blogs são mantidos por uma pessoa e essa pessoa é formada em tal área, esperamos que ela saiba mais sobre uma área que outra.


Eu poderia elencar mais alguns pontos que foram citados, mas resolvi ficar nesses mais evidentes. Percebi que me alonguei muito em minha primeira postagem e tem chão pela frente ainda. Para mim, vejo que existe uma crise nos blogs de ciências, mas em outro nível: o de troca de informações entre blogueiros.

Permita-me explicar: hoje eu posso perfeitamente conversar com qualquer pessoa em qualquer lugar da Terra usando as ferramentas que disponho, como as redes sociais. Entretanto, como eu observei ao longo do tempo, as redes sociais não são lá um lugar muito propício a um debate claro. Ignoremos o fato de que os debates que estou falando seja realmente relevante para o assunto (não aquele lenga-lenga quem ninguém entende ou quando um xinga a mãe do outro). Minha experiência como ‘interneteiro’ é a seguinte: ninguém gosta de ler textos extensos na internet. Provavelmente muitos que abriram esse texto e viram a barrinha de rolagem pequena aqui do lado já fizeram uma cara feia e deixaram o texto de lado. Um debate na internet exige sua atenção na leitura e que, muitas vezes, a exige por horas a fio. Não me admira que muitos xinguem uns aos outros: a pessoa pode até ter a argumentação na cabeça, mas mandar a pessoa para aquele lugar é muito mais rápido e direto ao ponto.

O que eu quero dizer ao leitor que pacientemente chegou até aqui: acredito que para divulgarmos com mais qualidade a ciência entre os brasileiros na internet, precisamos nós (os blogueiros) sairmos da internet.

Sim, alguns amigos mais próximos irão rir da minha cara e dizer “você, sair da internet?” Sim, sair da internet. Vejo que precisamos reunir os blogueiros e demais divulgadores de ciências em um espaço que não seja a internet. Em um ambiente em que muitos pós-graduandos estão acostumados (mais ou menos na verdade) e que permita que as novidades e as experiências de cada um flua de forma muito melhor que por e-mail, carta, telégrafo ou Facebook: uma reunião!

Cientistas estão acostumados a ir em diversos eventos de suas áreas de atuação. Os chamados congressos, reuniões, semanas e workshops são espaços onde o pós-graduando encontra seus pares em termos de pesquisa e atividade. Nesses locais, você acaba descobrindo o nome de algum kit que faz aquele mesmo serviço que você faz em seu laboratório de forma mais rápida e eficaz. Descobre que tal erro que sempre teima em aparecer em alguma atividade é sanado de alguma forma por outra pessoa que tinha o mesmo problema. É nesses lugares em que pesquisadores com temas em comum podem se juntar para trabalharem juntos em algo maior.

Vejo que um dos problemas (não estou dizendo, já aviso de antemão, que a crise se deva a ESSE problema em específico) da crise na divulgação científica (se ela de fato existe aos olhos do leitor) se deva a uma falta de um diálogo desse tipo entre blogueiros. Seria interessantíssimo a criação de um evento que reúna divulgadores de ciências do Brasil em um mesmo espaço por alguns dias. Apontar quais as dificuldades que enfrentam (ferramentas do próprio serviço de blog; transpor algum assunto em específico, etc.), compartilhar com os colegas alguns importantes dados acerca do perfil dos visitantes (será que são mais leigos ou mais ‘por dentro do assunto’ os visitantes?; como moldar as postagens de modo a chamar a atenção sem ser aquele sensacionalista interessado em cliques?) e, por que não como uma forma dos blogueiros se conhecerem ‘ao vivo’ e compartilharem ideias além de blogs e divulgações. Quem sabe aquele parceiro de pesquisa ideal que você está esperando é um blogueiro também e você nem sabia?

Proponho a criação de uma reunião (congresso, evento, qualquer coisa) voltado para divulgadores de ciências (independente de qual meio). Acredito que devemos tornar a divulgação científica mais com cara de ciência. Os blogs e sites são, como comparação bem grosseira, as revistas científicas as quais publicamos os nossos trabalhos. As leituras e ficar algumas horas sentado frente ao computador seria nossas atividades em laboratório. Está faltando um equivalente nosso para os congressos científicos; um espaço onde trocamos informações e aprendemos mais sobre o assunto.

Após mais de quatro anos mantendo um blog de ciências, eu sei que escrever sobre essa senhora de quatro séculos é trabalhoso mas acredito que a união de todos os divulgadores (desde os mais experientes aos mais novos) de ciências no Brasil permitirá que divulguemos ciência com cada vez mais qualidade tanto aos já interessados leitores que temos como aos novos que iremos conquistar. E, quem sabe, não conseguimos mostrar ao pesquisador (e ao leitor) brasileiro que publicar bastante não significa publicar bem. Uma boa postagem/artigo pode valer muito mais que sete escritos de qualquer forma.

Se você chegou até aqui, muito obrigado e peço que ajude a passar esse pensamento adiante. Posso estar certo ou errado, mas gostaria de ver os blogueiros reunidos em torno da causa principal: divulgar ciência. Independente se há uma crise ou não.

    Wesley Santos

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