Quem quer ser Taylor Swift?
Título alternativo: “Como garotas brancas gostariam muito de ser excluídas dessa narrativa da qual nunca pediram para fazer parte, mas fazem, e têm responsabilidade por ela”.

Eu e Taylor Swift temos pouco em comum.
Cresci em uma porção de casas estranhas: uma rua em que mataram um policial militar e colocaram fogo no cabelo de uma travesti; um prédio caindo aos pedaços que contou com uma icônica infestação de ratazanas lá por 2002; o subsolo de uma igreja evangélica; os fundos do terreno de uma senhora solitária e alcoólatra que jurava que a própria cunhada queria matá-la; um apartamento bonito em que só moramos por três meses porque ser pobre tem dessas reviravoltas; uma quitinete, onde meu quarto era o sofá da sala. Descobri o feminismo aos 17 anos, lendo sobre culpabilização de vítimas de estupros. Entrei na faculdade como cotista de escola pública. Meu pai ficou contente, porque trabalhava doze horas por dia em um shopping para que a gente pudesse estudar mesmo.
Taylor Swift cresceu em uma fazenda de árvores de Natal, na maior potência econômica e sociocultural do mundo. Seus pais eram corretores de imóveis loiros com bochechas rosadas, que a levavam regularmente para fazer aulas de teatro em Nova York. Eventualmente, a família se mudou para Nashville, onde Taylor assinou seu primeiro contrato com uma gravadora aos 14 anos. A nova casa dos Swift tinha dois andares e um lago.
Quando eu tinha 14 anos, e morava nos fundos da casa da senhora alcoólatra, descobri Taylor Swift. You Belong With Me tocava o tempo todo na falecida Mix TV. Todas as minhas amigas estavam obcecadas pela música. Escrita pela própria Taylor, a faixa narra um desastre amoroso clássico: uma garota comum se apaixona por uma pessoa que já tem uma namorada — e, pior ainda, uma namorada incrível, embora aparentemente incompatível com o interesse romântico em questão.
Com vocais fracos e um clipe apenas fofo, You Belong With Me alcançou o segundo lugar na parada mais importante dos Estados Unidos por um motivo simples: todo mundo já foi a garota comum retratada na canção e se identificou com ela.
A identificação com Taylor Swift — do amor ao ódio
Foi justamente essa imagem de girl next door gente-como-a-gente que trouxe Taylor Swift até aqui. Paixonites-bobas-mas-catastróficas são um sofrimento universal que a americana sempre soube retratar com maestria em suas letras. A razão pela qual a cantora continua sendo uma das poucas artistas a vender mais de um milhão de álbuns em plena era do streaming é que, em algum ponto (ou vários) de nossa vida amorosa, todos nós já fomos Taylor Swift. O fator identificação é fundamental na equação do sucesso comercial da moça.
Crushes que não nos amam à parte, o mundo aconteceu. Descobri o feminismo aos 17 anos lendo sobre culpabilização de vítimas de estupro em um dos muitos blogs sobre o assunto que surgiram nos últimos anos. A internet popularizou movimentos e demandas sociais. Uma onda de conservadorismo político exacerbado aparenta varrer o planeta. Passamos a viver a maior crise humanitária do século com a migração de refugiados. As discussões sobre temáticas políticas invadem nosso feed das redes sociais diariamente. De repente, não foi mais possível continuar indiferente.
Para Taylor, foi.
Taylor Swift seguiu sua carreira à revelia de todas essas questões. Como pessoa pública, a cantora sempre se expressou como um ser apolítico e isento de opiniões. Enquanto assistia a linha evolutiva de Lady Gaga levantando a bandeira dos direitos LGBT em Born this Way até a expressão do encontro máximo entre militância social e cultura pop no Lemonade de Beyoncé, Taylor continuou cantando sobre suas (e nossas) desventuras amorosas. Salvo raras manifestações de empatia por clamores populares — como na ocasião em que doou uma quantia considerável para ajudar Kesha durante o processo que a cantora movia contra Dr. Luke — Swift permanecia calada sobre desigualdades sociais. Em um mundo que não tolera mais o silêncio por parte de seus ídolos, Taylor parecia viver em uma realidade paralela. O silêncio por quem detém qualquer tipo de poder ou influência é ensurdecedor em 2017. Isenção é omissão.
O fator equacional identificação se tornou uma incógnita. Embora o público ainda continuasse dançando Shake it Off na balada e cantarolando Blank Space no carro, ninguém mais queria se identificar com Taylor Swift.
Taylor Swift e privilégios sociais

Taylor Swift é a personificação de uma série de privilégios sociais estruturais que, como status quo, trouxeram o mundo até o estado caótico que vivenciamos hoje. Ela é branca, loira, de olhos claros, estadunidense, magra, rica, heteronormativa e omissa. Como se não bastasse, a cantora também coleciona ações que são a perfeita representação da bolha cor-de-rosa privilegiada em que vive — como a apropriação do conceito de girl power para atacar outra mulher no videoclipe de Bad Blood, ou a forma como fez uma discussão sobre racismo, gordofobia e padrões de beleza iniciada por Nicki Minaj se tornar totalmente sobre ela às vésperas do VMA 2015, para citar algumas das mais graves.
A ascensão de Taylor como estrela pop é uma moeda com dois lados absolutamente paradoxais: enquanto se tornava um dos maiores sucessos comerciais desse século e elemento fundamental da cultura pop contemporânea, Swift também despontava como o próprio símbolo personificado do problema social que vivemos atualmente.
A grande questão é que parte dos críticos ferrenhos de Taylor é, também, o símbolo personificado do problema social que vivemos atualmente.
Eu e Taylor Swift temos pouco em comum: ambas escrevemos, sofremos por amor e somos a mesma garota branca com uma porrada de privilégios que, muitas vezes, não conseguimos ver um palmo à frente do nosso próprio nariz. Nós duas somos parte do problema.
Eu, você e privilégios sociais

Eu já amei Taylor Swift. Já odiei Taylor Swift. Já critiquei Taylor Swift. E o pior de tudo: já fui Taylor Swift.
As críticas a Taylor e sua normatividade por parte de pessoas brancas e/ou heterossexuais funciona como uma espécie de projeção freudiana. Postamos emojis de cobra e a achamos absolutamente escrota por cometer falhas que nós, enquanto pessoas privilegiadas, reproduzimos da mesma maneira. Taylor Swift é o reflexo de muitas coisas que odiamos no mundo, mas, também, o espelho de privilégios que enxergamos — e odiamos — em nós mesmos. A estrutura que beneficia pessoas como Swift é a que beneficia pessoas como a gente.
Criticar Taylor Swift de forma ferrenha é uma maneira de nos distanciarmos dela. Quando pessoas brancas percebem o absurdo dos extremos do privilégio branco na vida e carreira da cantora, sentem como se não se beneficiassem do mesmo sistema — ou, ao menos, que se beneficiam com alguma consciência.
Com isso, não quero dizer que não devemos criticar Taylor Swift, ou qualquer outra celebridade privilegiada (o que inclui homens, frequentemente tratados de forma mais branda pela opinião pública) que dê mancadas graves — pelo contrário. Eu quero que a gente critique cada vez mais.
O que inclui a nós mesmos enquanto pessoas que se beneficiam de privilégios sociais.
A treta de Taylor com a Katy Perry já deu o que tinha que dar, assim como aquele ranço que temos da garota com quem “não vamos com a cara” desde o ensino médio. Criticamos a falta de diversidade na lista de namorados da moça sem refletir muito sobre quantos relacionamentos tivemos com pessoas que não correspondam aos padrões eurocêntricos de beleza. Ficamos horrorizados com o silêncio de Swift sobre questões sociais, enquanto colocamos hashtags #ForaTemer em nosso perfis e assinamos petições online sobre a Amazônia achando que fizemos nossa parte, #militamos. Discutimos sobre o silenciamento de Nicki Minaj naquela briga de 2015, mas seguimos sem problematizar nosso próprio privilégio branco todos os dias e relativizando formas de violência individuais e institucionais contra pessoas negras. Taylor Swift, muitas vezes, é escrota sim. E nós também.
Ninguém quer ser Taylor Swift. Então, que não sejamos.
