O Nazismo acabou com o movimento dos direitos LGBTQ

Transexuais em frente ao Institut für Sexual Wissenschaft em Berlim, Alemanha, na década de 1920. Fonte: http://ojl.beuth-hochschule.de/en/sites/245.

Muito recentemente, o Conselho de Ministros da Alemanha aprovou uma lei¹ que eliminará as condenações de dezenas de milhares de homens alemães por “atos homossexuais” sob a então lei anti-gay, conhecida como Parágrafo 17⁵². Aquela lei datava de 1871, quando o primeiro código de leis da Alemanha Moderna foi criado.

A lei foi revogada em 1994. Mas houve também um movimento forte para eliminar a lei em 1929, como parte do movimento de direitos LGBTQ que existia na época. Isso foi antes dos Nazistas ascenderem ao poder, ampliarem as leis anti-gay, e então iniciarem a aniquilar europeus gays e transgêneros.

A estória de quão perto a Alemanha — e boa parte da Europa — chegou de libertar seus cidadãos LGBTQ antes de violentamente reverter essa tendência sob novos regimes autoritários é um exemplo prático mostrando que a história dos direitos LGBTQ não é um registro de constante progresso.

O primeiro movimento de liberação LGBTQ

Na década de 1920, Berlim tinha quase 100 bares e cafés gays e lésbicos. Viena tinha cerca de uma dúzia de livrarias, clubes e cafés gays. Em Paris, certas quadras eram conhecidas por abertas demonstrações da vida noturna gay e trans. Até mesmo Florença, na Itália, tinha seu próprio distrito gay, assim como muitas cidades europeias menores.

Filmes começaram a mostrar personagens gays³ com empatia. Protestos eram organizados contra representações ofensivas de pessoas LGBTQ impressas ou em palcos. E empreendedores da mídia perceberam que havia um público leitor na classe média gay e trans, a quem eles poderiam atender.

Especialmente dirigindo essa nova era de tolerância estavam os médicos e cientistas que começaram a olhar para a homossexualidade e o “travestismo” (uma palavra da época que englobava pessoas trans) como uma característica natural com a qual alguns nasciam, e não um “desvio moral”. A estória de Lili Elbe e a primeira cirurgia de mudança de sexo (sic.) moderna, que se tornou famosa no recente filme “A Garota Dinamarquesa”4, refletiam essas tendências.

Por exemplo, Berlim abrir seu Instituto para Pesquisa Sexual em 1919, o local onde a palavra “transsexual” foi criada, e onde as pessoas poderiam receber aconselhamento e outros serviços. Seu médico principal, Magnus Hirschfeld, também consultou no caso da mudança de sexo (sic.) de Lili Elbe.

Conectada a este instituto estava uma organização chamada de “Comitê Científico-Humanitário”. Com o lema de “justiça através da ciência”, este grupo de cientistas e pessoas LGBTQ promoveram direitos iguais, argumentando que pessoas LGBTQ não eram aberrações da natureza.

Muitas capitais europeias possuíam uma sede do grupo, que patrocinava palestras e buscava a revogação do “Parágrafo 175” na Alemanha. Juntos de outros grupos liberais e políticos, eles sucederam em influenciar o comitê do parlamento alemão a recomendar a revogação ao governo federal em 1929.

O retrocesso

Enquanto estes desenvolvimentos não significaram o fim de séculos de intolerância, os anos 1920 e o começo dos anos 1930 certamente pareciam o começo do fim. Por outro lado, a maior número de pessoas trans e gays “fora do armário” provocou a oposição.

Um repórter francês, lamentando a presença de pessoas LGBTQ fora do armário em público, queixou-se5 “o contágio… está corrompendo todos os ambientes”. a Polícia de Berlim disse que revistas destinadas a homens gays — que eles chamavam de “material impresso obsceno”6 — estavam se proliferando. Em Viena, palestras do “Comitê Científico-Humanitário” poderiam estar lotadas de apoiadores, mas um foi atacado7 por jovens homens lançando bombas de odor. Um conselheiro da cidade parisiense em 1933 chamou de “crise moral” o fato de que pessoas gays, conhecidas como “invertidos” na época, pudessem ser vistas em público.

“Longe de mim querer ser fascista”, o conselheiro disse5, “mas ao mesmo tempo, temos que concordar que em alguns pontos aqueles regimes fizeram, às vezes, algum bem”. Um dia Hitler e Mussolini acordaram e disseram, “O escândalo já se arrastou por tempo demais” E… os “invertidos” foram perseguidos para fora da Alemanha e Itália no dia seguinte.

A ascensão do fascismo

É essa vontade de fazer sacrifícios sanguinários de minorias em troca da “normalidade” ou prosperidade que faz com que observadores façam desconfortáveis comparações entre aquela época e hoje.

Nos anos 30, a Depressão espalhou preocupação econômica, enquanto lutas políticas em parlamentos europeus tendiam a se espalhar pelas ruas e causar brigas de rua8 entre a Direita e a Esquerda. Partidos fascistas ofereciam aos europeus a escolha de estabilidade ao preço da democracia. Tolerância de minorias era desestabilizante, eles diziam. Expandir liberdade dava a pessoas “indesejáveis” a liberdade de prejudicar a segurança e ameaçar a cultura moral tradicional6. Pessoas gays e trans eram um alvo evidente.

O que aconteceu em seguida mostra a velocidade na qual uma geração de progresso pode ser ter todo seu trabalho invertido.

O pesadelo

Um dia em Maio de 1933, estudantes “puros” vestindo camisas brancas marcharam em frente ao Instituto de Pesquisa Sexual de Berlim — aquele porto seguro para pessoas LGBTQ — chamando o de “não-alemão”. Mais tarde, uma multidão carregou sua biblioteca para ser queimada. Pouco depois, seu chefe foi preso9.

Quando o líder nazista Adolf Hitler precisou justificar10 prender e assassinar antigos aliados políticos em 1934, ele disse que eles eram gays. Esse atiçado fanatismo11 anti-gay da Gestapo (polícia secreta oficial da Alemanha Nazista), abriu uma agência especial anti-gay12. Durante os anos seguintes, a Gestapo prendeu mais de 8.500 homens gays7, muito provavelmente utilizando uma lista de nomes e endereços obtida no Instituto de Pesquisa Sexual. Não só o Parágrafo 175 não foi revogado, conforme um comitê parlamentário havia recomendado alguns anos antes, como também foi expandido para ser mais abrangente e punitivo.

Conforme a Gestapo se espalhou pela Europa, ela expandiu a caça. Em Viena, eles pegaram7 todos os homens gays em listas policiais e questionaram eles, tentando fazer com que dissessem mais nomes. Os sortudos iam para a cadeia. Os menos sortudos iam para os campos de concentração de Buchenwald e Dachau7. Na parte conquistada da França, a polícia de Alsace trabalhou com a Gestapo para prender pelo menos 200 homens e enviá-los a campos de concentração. A Itália, com um regime fascista obcecado pela virilidade, enviou pelo menos 300 homens gays para campos brutais durante o período da guerra, declarando-os como “perigosos para a integridade da raça”.

O número total de europeus presos por serem LGBTQ sob o fascismo é impossível de se conhecer por causa da falta de fontes confiáveis. Mas uma estimativa moderada é de que haviam entre muitas dezenas de milhares até 100 mil prisões somente no período da guerra.

Sob essas condições assustadoras, muito mais pessoas LGBTQ na Europa cuidadosamente esconderam sua verdadeira sexualidade para evitar suspeitas, casando com membros do sexo oposto, por exemplo. Ainda, se eles tivessem sido notáveis membros da comunidade gay e trans antes do fascismo ascender ao poder, como Lotte Hahm, uma lésbica berlinense dona de um clube, era, já seria tarde demais para se esconder. Ela foi enviada a um campo de concentração.

Nesses campos, homens gays eram marcados com um triângulo rosa. Nestes locais de terror, homens com triângulos rosas eram separados para abuso extra. Eles eram mecanicamente estuprados, castrados, escolhidos para experimentos médicos e assassinados para o prazer sádico de guardas, até mesmo quando não eram condenados à “liquidação”. Um homem gay atribuiu sua sobrevivência por ter trocado seu triângulo rosa por um vermelho — indicando que ele era somente um Comunista. Eles eram rejeitados e tormentados por seus colegas de grupo também.

O iminente perigo de regredir

Não estamos mais na Europa dos anos 1930. E fazer comparações superficiais entre agora e aquela época só produz conclusões superficiais.

Mas com as novas formas de autoritarismo consolidadas procurando expansão na Europa e além, é valido pensar sobre o destino da comunidade LGBTQ europeia nos anos 1930 e 1940 — uma oportuna mensagem da história, conforme a Alemanha aprova o casamento de pessoas de mesmo sexo13 e comemoramos o aniversário do caso Obergell vs Hodges14, que legalizou o casamento entre pessoas de mesmo sexo nacionalmente nos Estados Unidos em 2015.

Em 1929, a Alemanha chegou perto de apagar sua lei anti-gay, somente para ver esta ser reforçada logo depois. Somente agora, depois de uma lacuna de 88 anos, as condenações sob àquela lei estão sendo anuladas.

Este texto é uma tradução livre do inglês, com leves adaptações do texto de John Broich, publicado originalmente no The Conversation, um jornal da Universidade de Cleveland. O original pode ser lido aqui.

Traduzido de:

BROICH, John. Nazis destroyed first gay rights movement | Analysis. Courier Journal. Louisville, KY: 2017. Disponível em: <http://www.courier-journal.com/story/opinion/contributors/2017/07/06 nazis-destroyed-first-gay-rights-movement-analysis/453604001/>.

Referências:

1 Germany to quash 50,000 gay convictions. http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-39350105.

2 Paragraph 175. https://www.ushmm.org/learn/students/learning-materials-and-resources/ homosexuals-victims-of-the-nazi-era/paragraph-175.

3 Gay Berlin: Birth place of a modern identity https://goo.gl/S3R8g6.

4 The Danish Girl http://www.imdb.com/title/tt0810819/.

5 Homophobia, Vichy France, and the “Crime of Homosexuality” The Origins Of The Ordinance Of 6 August 1942. https://muse.jhu.edu/article/12215.

6 Sex and the Weimar Republic: German Homosexual Emancipation and the Rise of the Nazis https://goo.gl/Q5h1uF.

7 Homosexual men in Vienna, 1938 https://www.cambridge.org/core/books/opposing-fascism/homosexual-men-in-vienna-1938/54937C49AA3BBCC3E27C8B0E2FF5ABDE.

8 The Formation of the Nazi Constituency 1919–1933 (RLE Nazi Germany & Holocaust)

https://goo.gl/YjLFf1.

9 A Terrible Splendor: Three Extraordinary Men, a World Poised for War, and the Greatest Tennis Match Ever Played https://goo.gl/SCe46g.

10 The Night of the Long Knives http://www.historyplace.com/worldwar2/holocaust/h-roehm.htm.

11 Röhm Purge https://www.ushmm.org/wlc/en/article.php?ModuleId=10007885.

12 Reich Office for Combatting Homossexuality and Abortion http://www.cs.cmu.edu/afs/cs/usr/scotts/ftp/pro-choice/himmler-order.html.

13 German lawmakers approve same-sex marriage in landmark vote https://www.reuters.com/article/us-germany-gay-marriage-idUSKBN19L0PQ.

14 Supreme Court Ruling makes same-sex marriage a right nationwide https://www.nytimes.com/2015/06/27/us/supreme-court-same-sex-marriage.html?_r=0.

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