Períodos transitórios.

Todos os períodos transitórios da minha vida foram, em níveis diferentes, estressantes.

O primeiro período transitório foi a mudança do ensino fundamental para o ensino médio. Apesar de hoje em dia perceber que não havia nada a ser temido, aos 13 anos via o mundo com olhos muito mais assustados. Eu sempre estudei à tarde e naquele ano metade dos meus colegas estavam mudando pro período da manhã. Várias pessoas de outras escolas entraram pra minha turma, mas acabei me enturmando da mesma forma que sempre fiz: nada muito profundo, mas o suficiente pra uma convivência agradável. Fim do primeiro período transitório.

E aí veio o segundo período transitório. Meus pais decidiram que seria melhor eu mudar para uma escola que tinha ensino integral — de manhã ensino médio e à tarde ensino profissionalizante. E lá fui eu, mudei de escola, cidade, turno. Tudo novo. Ali eu me encaixei ainda menos, mas fiz boas amizades. Foi um período transitório fácil de digerir. Fim do segundo período transitório.

Ao fim do ensino médio passei por outro período transitório. Esse é aquele que quase todos passam. Eu estava, mais uma vez, num ambiente confortável, que fazia eu me sentir bem — acho que mais os ambientes do que as pessoas mesmo. Isso. Mais os ambientes. As pessoas nunca foram meu forte. Esse período transitório foi assustador. Eu havia prestado vestibular pra Engenharia Civil em duas universidades públicas — a federal, na capital, e a estadual, numa cidade mais próxima. Meu histórico como aluno exemplar, boletins que desconheciam notas vermelhas e cadernos organizados, com letra bonita, me fez ingênuo. Antes de fazer os vestibulares eu tinha uma pequena certeza de que passaria. O curso era concorrido, mas eu sempre fui bom aluno. Os resultados saíram em dezembro e janeiro. Não passei. Meu mundo caiu por uns dias e eu me vi sem saber o que fazer. Eu não havia prestado vestibular pra nenhuma universidade particular. Não era questão dos meus pais pagarem ou não, sempre fui bem privilegiado nesse aspecto. Era uma questão de confiança mesmo. Eu realmente achava que iria passar. E aí eu não passei. O que é que eu vou fazer da minha vida? Comecei a trabalhar na empresa do meu pai. Não era ideal. Eu não gostava. Queria sair dali. Foi no dia seguinte ao meu aniversário de 17 anos, 25 de janeiro de 2011, que eu vi um anúncio de um curso novo — de Engenharia Civil — na Universidade Católica da cidade vizinha, ali, plantado num outdoor, quase em frente à empresa do meu pai. Eu não sou de acreditar em destino, mas aquilo era pra ser mesmo. No mesmo dia entrei no site da Universidade pra me inscrever pro vestibular. As inscrições se encerravam naquele dia. E a prova? 5 dias depois, no dia 30. Eu não sei o motivo, mas eu lembro muito bem dessas datas. Fiz a prova, fui bem. Alguns dias depois saiu o resultado e eu havia passado. Em terceiro, inclusive. Não foi um grande feito passar bem numa universidade particular, mas me deixou contente — e aliviado. Fim do terceiro período transitório.

Em fevereiro começaram as aulas. Fiz amizades instantâneas. That’s a first. Ali eu vi meus anos de dedicação na escola valerem a pena. Fui bem nos primeiros semestres e minha cabeça agora estava focada em um desafio bastante difícil de terminar. E longo também. Cinco anos NÃO passam voando, contrário ao que muitos afirmam como um provérbio chinês certeiro. Mas os cinco anos eventualmente passam. Parei de trabalhar com meu pai já no primeiro ano de faculdade. Não deu certo. Fiquei uns meses sem trabalhar, só estudando. E aí passei num processo seletivo pra ser estagiário do Instituto de Planejamento Urbano da cidade onde eu estudava. Esse estágio talvez tenha sido a coisa mais importante da minha vida. Conheci pessoas maravilhosas. Mantenho contato com algumas até hoje. E aprendi muita coisa. Muita coisa, mesmo. Tanta coisa que até descobri o nome de algo que eu nunca soube nomear ou descrever, mas que eu sempre me interessei. Fui a fundo nessa área. Essa área foi tema do meu TCC. Terminei o estágio após dois anos e migrei pra outro estágio. Nesse aprendi muita coisa nova. Foi bacana, fiz amizades e cresci mais um pouco. Terminei esse estágio no final de 2014. Em 2016 eu terminei a faculdade. Apresentei TCC, TCE e todo o resto se encaixou.

Início do quarto período transitório. Acabou a faculdade. E agora? No final de 2015 eu havia me inscrito pra um programa de mestrado na universidade federal da capital — aquela que eu não passei em 2010. Acabei não passando. De novo. Não sou de duvidar do meu potencial, mas confesso que isso doeu. Eu tinha tudo planejado. Terminar a faculdade aos 21, iniciar mestrado e terminar aos 23, pra começar o doutorado e terminar aos 27. Mas eu não passei. As datas precisaram ser adiadas. De início parecia simples. Ter mais tempo livre neste ano, que (in)felizmente ainda não acabou, me fez/faz analisar tudo sobre a minha vida. Já dizia o ditado: “mente vazia, oficina do diabo”. Eu tento ver esse meu tempo pra pensar a vida como algo bom. Nem sempre é fácil. Eu quero seguir em frente, me sentir útil, me sentir progredindo. Eu tô cansado desse lugar, cansado da mesma rotina, dos mesmos restaurantes, das mesmas emoções. Mas eu preciso aguardar. Aguardar até dezembro pra saber se passarei no programa de mestrado que eu não passei no ano passado. Aguardar até dezembro pra saber se a vaga de trabalho que minha antiga chefe prometeu vai realmente se concretizar. Eu não aguento mais esperar. Eu preciso por um fim nesse processo transitório.

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