Um salve pra meritocracia

Bom, esse é um assunto bem delicado, então permitam-me contar uma história que relata com precisão uma questão crucial pelo qual tenho me esforçado regularmente para responder.
Faz algum tempo que ouvi essa história de um amigo sobre uma entrevista de emprego inesquecível, (mais inesquecível para mim do que para ele).
Meu amigo estava rodeado de bons concorrentes em busca de uma vaga no setor administrativo de uma construtora, quando uma moça do RH propôs uma dinâmica coletiva. Ela contou-lhes a seguinte história: “se vocês tivessem a oportunidade de construir e começar uma civilização, quais seriam as cinco pessoas que vocês escolheriam para habitar dentro da cidade e que seriam indispensáveis para construir uma sociedade? ”
Cara, essa dinâmica pareceu bacana quando eu ouvi, mas tinha algo por trás disso que dava origem a discussões épicas sobre questões como meritocracia, sistemas políticos de base, valorização de trabalho, e igualdade de oportunidades. Como se não bastasse ela teve a audácia de sugerir dez personagens com características específicas e bem peculiares onde cada grupo deveria escolher os cinco melhores personagens, eliminando consequentemente os medíocres.
Enquanto eu ouvia a história aquilo me pareceu cruel, parecia uma espécie de Teoria das espécies, onde quem sobrevive é quem tem algo a oferecer ou aquele que é supostamente o mais forte. É claro que o mundo funciona desse jeito e talvez isso seja um problema, mas antes de repudiarem o texto e me chamarem de esquerdista permitam que eu continue.
Os personagens foram apresentados nas seguintes características:
“ Um experiente arquiteto minimalista construtor de metrópoles.
Um americano negro, ativista e religioso de família pobre.
Uma atriz e modelo Pin-up, loira e muito sensual.
Um cara humilde que herdou do pai a profissão de marceneiro e artesão e que foi recusado em todas as escolas de ensino superior da região.
Um exímio líder, político, orador e militar, com experiências em guerras.
Um atleta rico e conquistador de títulos e recordes internacionais no ramo futebolístico.
Um músico virtuoso, homossexual e aidético.
Um italiano matemático, Astrônomo e filósofo.
Um playboy com uma bilionária herança deixada pelo pai empresário.
Uma Senhora farmacêutica, dona de casa e mãe de 2 filhos. ”
Sim, isso mesmo, estamos falando de Oscar Niemeyer, Martin Luther king, Marilyn Monroe, Jesus de Nazaré, Adolf Hitler, Pelé, Cazuza, Galileu Galilei, Thor Batista e Maria da Penha.
Saber o nome deles muda toda a situação de escolha, mas a dinâmica foi feita sem que os nomes dos personagens fossem revelados. Lá pelas tantas as discussões nos grupos eram sobre levar a mulher mais nova e mais bela afim de povoarem a civilização. Não havia espaço para homossexuais e por mais que a sociedade já aceitasse a possibilidade da diversidade não valeriam para a procriação. Religiosos, marceneiros, Jogadores de futebol e dançarinos não eram bem-vindos ainda que representassem a cultura, a arte e a diversão, eles eram dispensáveis.
Um arquiteto, um riquinho milionário, um físico, uma mulher bonita e um político sim eram fundamentais para a reerguer uma sociedade. Maria da Penha foi dispensada por sua idade, sabe como é né? Gravidez de risco e etc.. Jesus era um Freela, sem um bom currículo, Martin um Pastorzinho religioso fanático que pouco seria útil. Pelé e Cazuza pouco importavam naquela ocasião. Se isso não é a face cruel da meritocracia, eu realmente não sei o que é meus amigos!
Acho que vocês fazem ideia do quão relevante cada um desses ícones eram, e quanto fariam falta. Perguntem a si mesmo o tamanho do déficit nas causas sociais teríamos e o quanto nos arrependeríamos amargamente se os julgássemos por suas profissões supostamente medíocres, aliás, se as profissões fossem a base na construção dessa sociedade, talvez Hitler seria o presidente ou governador local, e a gente já sabe como isso terminaria.
É por conta de questões como essa que sonho com a valorização e igualdade de oportunidade no mercado. Cursos como Engenharia, Administração ou Medicina estão sendo disputados por pessoas com o mínimo de vocação, influenciadas por seus ventres gananciosos, enquanto outros setores e profissões carecem de profissionais.
Não é uma luta por um sistema político e nem ideológico, é uma luta por pessoas. Um pedreiro que caminha 42 km por dia e se forma em Direito não venceu na vida porque mudou de profissão, Ele venceu na vida pelo esforço que fez para alcançar o seu sonho. Acordar às 6 da manhã, levantar paredes e subir concreto é tão digno quanto estudar a madrugada para montar seu TCC. É inútil a luta por um livre mercado se nele não há estimulo na diversidade das profissões pois todas elas são essenciais. O que qualifica o mercado não é a profissão e sim a excelência do profissional (sim meus amigos, eu acredito em vocação profissional).
Quando me apresentaram esse estudo de caso logo refleti sobre a valorização que teria a mão-de-obra no início daquela sociedade antes da chamada industrialização. Depois pensei no quanto poder seria dado a quem detém o poder financeiro para financiar toda a construção e então cheguei à conclusão que nos parâmetros da meritocracia é legítimo que um jovem milionário detenha maiores oportunidades e poder dentro de uma sociedade, pois ele tem algo de maior valor a oferecer. Ah e se você não nasceu em bairro nobre ou berço de família rica é provável que a culpa seja do molenga do seu pai que não construiu um patrimônio e lhe deixou como herdeiro.
O que estou tentando dizer é que nunca houve uma sociedade tão repleta de profissionais qualificados, mas de pessoas tão irrelevantes. É bem provável que uma banda independente que toca na segunda-feira à tarde dentro do metrô tenha o poder de salvar toda a sua semana e de estimular um ambiente criativo e confortável para que você tenha um bom desempenho no trabalho, e se houver espaço para esses caras, eles vão ganhar tanto dinheiro com o que fazem que comprarão os aparelhos telefônicos mais caros das Casas Bahias. Talvez eles se tornem futuros “The Beatles” ou os “The Rolling Stones” e nos darão uma lição do quanto a música e a arte são um mercado valioso tão mal explorado. Deixo aqui minhas preces a todos os artistas que abandonaram suas profissões e paixões para ingressarem áreas que lhe darão tanto dinheiro quanto desgosto. Não sejam medianos, façam aquilo que de fato vocês amam fazer, sejam ótimos profissionais, agreguem valor as suas profissões e mostrem a relevância de suas atividades dentro da sociedade. Ao capitalismo um recado: ajude-nos a ajudá-lo!