O Conto da Duvida mais cruel da humanidade

Passos. Passos leves que beijavam o chão numa caminhada saltitante e alegre pelo chão coberto de flores. A menina, de tranças longas e negras, olhos cor de mel e pele queimada, durante sua caminhada pelo campo chamado de Lugar Nenhum avista um senhor com uma longa barba branca, cabelos longos e grisalhos. O senhor estava sentado recostado numa grande arvore de folhas vermelhas e frutos dourados. A menina, curiosa sobre alguém além dela em Lugar Nenhum vai até ele. Chegando até o mesmo diz.

-Olá, senhor. O que faz ai? Parece cansado. -E então a menina esboça um sorriso no rosto.

-Oh, olha só. Uma bela moça aparece para me fazer companhia, que sorte a minha. -Então a menina, apreciando a companhia do senhor, se senta ali ao lado do mesmo.

-Então… -A menina diz esperando a resposta para as perguntas anteriores.

-Ho-ho, no final é isso não é? Perguntas e respostas. Mas eu só posso lhe dar dúvidas, querida. -O velho afirma isso com um pesar desenhado em seus olhos cansados.

-Você fala engraçado. Mas certas dúvidas podem animar a vida, não é? -E ela dá uma risada descontraída cheia de vigor.

-Ah doce menina, você nem sabe o que é a vida ainda. Como poderia? Você ainda saltita leve sobre as flores, e nem ao menos as esmaga com o peso de um corpo. A gravidade não faz força para te jogar ao chão e nem mesmo a Morte sabe seu nome para escrever em seu caderno de dias contados.

-Não acho que tenha entendido… -A menina olha para o velho curiosa.

-Veja bem… Colocando em poucas palavras simples: Você nem nasceu. -As últimas três palavras dessa frase saíram como uma ameaça velada. A menina se arrepiou da planta dos pés até o topo da cabeça.

-O que é… Nascer?

-Nascer é envelhecer. Nascer é saber o que a vida é, prová-la e então ter que parar. Nascer é morrer.

-E o que vem depois da morte? -Ela pergunta cheia da mais profunda curiosidade e incompreensão.

-Você pode se tornar um com o universo, fazer parte do ciclo, talvez até se juntar a uma bela arvore como essa. Você pode até mesmo ser uma com as estrelas brilhantes do céu a noite. E disso não há duvidas.

-Mesmo? E é isso? Não há nada mais?

-Talvez… Você quer mesmo ouvir? -Com cautela as palavras são ditas, parecendo que o velho queria encerrar a conversa ali. A menina poderia ter aceitado, mas afirmou que queria balançando a cabeça.

-Você pode ir para o inferno ou o céu. O primeiro é um lugar de tortura eterna e o outro é um lugar de alegria, servidão e cantos. Ir para um deles vai depender mais dos seus semelhantes do que de você, e poucas ações vão poder mudar isso.

Então um silencio mortal se apodera do lugar, a menina fica horrorizada com as possibilidades. Uma vida de servidão e alegria, outra de tortura. E talvez nem fosse para onde quisesse ir. Ela diz com medo e cheia de incertezas

-Bom velhinho, o que devo fazer? Para onde vou? Tenho medo.

Ele dá um sorriso como que se desculpando

-Oh, doce menina da pele queimada… Eu sou só a incerteza mais velha, a ideia mais cruel e difundida. Quem dera você pudesse nascer sem me conhecer e apenas saber que você se tornará uma bela estrela. Quem dera…

E então tudo ficou escuro.


As luzes se acenderam novamente, um choro foi ecoado na sala de parto, e uma voz masculina disse para a mãe debilitada.

-Olha só mas que rapaz forte, aposto que ele tem seus olhos cor de mel, amor!

E a mulher responde.

-Vamos batizá-lo amanhã, querido.